Setembro amarelo: depressão e suicídio

A realidade de hoje é que vivemos num paradoxo: estamos imersos num infinito de discursos ao mesmo tempo em que sentimos na carne o declínio da palavra.

Com a clínica da depressão, não é diferente. Sim, o setembro amarelo é muito importante. Porque nos lembra de que, em algum canto da nossa vida, escondido ou não, tem alguém sofrendo a dor de existir. Nos lembra da fragilidade dos laços sociais, da fragilidade da linguagem e da vida humana. E faz a gente falar sobre suicídio, o que é muito necessário, pra não dizer urgente.

Mas aí, no meio de tantas coisas que são ditas sobre o deprimir e sobre a morte, muitos significantes são levantados como bandeira e acabam colados no imaginário de muita gente. A psicanálise, por sua vez, é uma prática teimosa, ela não costuma concordar com generalizações, mesmo com aquelas que são muito do bem.

Lacan, em Televisão, diz que a depressão é uma covardia moral. E é preciso muita ética pra não ler essa afirmação de qualquer jeito, pois não foi de qualquer jeito que Lacan a fez. A moral, nesse caso, não tem nada a ver com a moral do senso comum, essa moral diz respeito ao “bem-dizer” do inconsciente. O deprimido sofre de uma desorganização em relação ao seu desejo, ele sofre por ter cedido daquela que é a única coisa da qual não se pode ceder sem pagar um preço altíssimo, às vezes impagável. Um sujeito deprimido talvez não tenha outra chance de reencontrar o caminho do desejo a não ser tocando a palavra. Ele precisa dizer – bem dizer – da sua angústia. Ele precisa encontrar um jeito de desviar do desejo e do gozo do Outro pra encontrar certa liberdade na sua própria diferença. Por isso, a depressão não é uma coisa que pode ser contada nas estatísticas, pois cada depressão é uma. Não há sequer uma única depressão igual à outra nesse vasto mundo.

Então, o que a gente precisa saber sobre suicídio é que alguém que tem vontade de morrer tem, na verdade, vontade de fazer cessar a angústia. Uma angústia que desespera e que, às vezes, leva o sujeito à extraviar-se da palavra e passar ao ato.

A tentativa de suicídio, como disse Miller, é um desesperado “não querer saber mais nada disso”; é uma tentativa de fazer ruptura com as amarras do gozo do Outro e com o sofrimento. O suicídio consumado é, portanto, o aniquilamento total do discurso do Outro e do laço social, é a morte da sujeição. Esse é o ponto inexorável da decisão de não mais sofrer. Quem trabalha com a subjetividade humana precisa apostar que antes desse momento, há a palavra e um mundo de coisas que podem ser alcançadas quando a gente se serve dela.

É preciso estar advertido do inalcançável do real e da angústia fora de sentido e, justamente por isso, fazer bordas com as palavras e sustentar um sujeito no (Re)caminho para algo do seu desejo.

A intervenção profissional é insubstituível. Além dela, o que se pode fazer por alguém que sofre, é ouvir. Sem respostas prontas, sem julgamentos morais, sem dicas ou receitas de cura. Ouvir não porque é bonito, correto ou cristão, mas simplesmente porque se o laço social é o que nos salva de uma não-humanidade, então salvemos uns aos outros.

Por Cauana Mestre

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