Sobre vírus e isolamentos

Por Daniela Mayorca – O que o HIV nos ensinou, ou o #FicaEmCasa já morreu.

O vírus da Covid-19, o Sars-Cov-2 já mudou para sempre nossas vidas. O micróbio sem cara nem desejo mudou sobretudo, ironicamente, nossa forma de nos relacionarmos uns com os outros.

Essas mudanças radicais que ele impôs podem ser comparadas as mudanças que a chegada do HIV provocou na década de 80. E entender essa história pode nos ajudar a lidar melhor com vírus que enfrentamos hoje pois ambos, HIV e Sars-Cov-2, nos obrigaram a repensar espaços de liberdade social e sexual.

O mundo era um pré-HIV, e se tornou outro depois dele. A relação sexual mudou. Desde 1960 o anticoncepcional garantiu uma liberdade sexual inédita, livrada definitivamente das amarras da reprodução. A chegada do HIV traumatizou essa experiência inserindo o risco eminente da morte, a culpa e a camisinha.

Com o HIV também foram reforçados os discursos moralistas contra o sexo fora do casamento, o sexo homossexual, a não-monogamia e aqueles que transavam livres dos ideais reprodutivo-familiares. Em suma, o engrossamento do coro dos intolerantes contra práticas sexuais diferentes das suas.

Houve até quem dissesse que aquele era um castigo de Deus para punir e limpar da terra os libertinos, os pervertidos, os desviantes, os hedonistas. Punir o sexo sem mandamentos.

E essa moral se oferecia como salvação. Uma salvação pela privação.

Não funcionou.

Essa moral não salvou sequer uma alma, mas funcionou como discurso necropolítico de morte para os desviantes sexuais, os que morreriam aos milhares sob os olhares comiserentos que diziam: “pobres pecadores, mas também….”

“mas também…”

E o que se provou um verdadeiro salvador de vidas?

1) Educação sem discriminação;

2) Tratamento com escuta às singularidades e respeito sobre o modo como cada um pode e deseja cuidar do corpo e da sexualidade;

3) Muito além do discurso que advogava por sexo só no casamento, vieram equipes de saúde e voluntários em locais de festa ou espaços de sexuação oferecendo camisinha gratuitamente;

4) Educação e investimento em saúde para que as pessoas se testassem com mais frequência;

5) Hoje em dia temos o PREP (que pode ser tomado antes de fazer sexo sem camisinha, o PEP (que pode ser tomado depois de uma relação sem camisinha), e antivirais de qualidade distribuídos gratuitamente pelo SUS que mantém pessoas soropositivas com carga viral indetectável, podendo levar uma vida tranquila, longa e sossegada como qualquer um.

Isto é, a oferta deste tipo de escuta e cuidado abre espaço pra que as pessoas de fato procurem cuidado. Enquanto discursos moralistas apenas afastam as pessoas do cuidado consigo e com os outros. O moralismo gera estigma e silenciamento, o que acarreta em mais pessoas infectadas e mais mortes.

Então o que o combate ao HIV pode nos ensinar sobre o combate ao Sars-Cov-2?

Primeiro, que discurso moralista não salva ninguém!

Se engana quem pensa que ao falar de Covid não estamos falando de sexualidade. Porque se trata de novos protocolos de contato, de trânsito de fluídos, novos enquadramentos para olhares, novas texturas ou impossibilidades para o toque, novos tons de voz atravessados por máscaras. São novas formas de preservativos, mais públicas, mais expostas e que alteram as formas de contato, mas que também permitem que elas sigam acontecendo em segurança para todos. E é nesses dispositivos e cuidados que precisamos centrar forças, não na abstinência social ou sexual.

Com uma rapidez muito maior do que com o HIV a ciência conseguiu descobrir formas de mantermos contato com proteção e formas de reduzir os riscos de contágio. E porque estamos batendo somente na tecla do “fique em casa”? Sendo que a maioria das pessoas não tem a menor possibilidade de fazer isso. Pessoas que precisam trabalhar fora de casa para sobreviver estão pegando ônibus lotados todos os dias e isso não é motivo de indignação. Mas quando essas pessoas decidem encontrar a família para um churrasco no final de semana isso se torna um comportamento suicida, transgressor e se elas adoecem, de algum lugar vem o famigerado: “mas também…”

“mas também…”

As pessoas não vão esperar dois anos pela vacina pra visitarem as suas famílias;

as pessoas não vão passar um verão de 40 graus trancadas em casa com as crianças numa casa pequena;

as pessoas que moram sozinhas não vão deixar de encontrar os amigos porque elas fizeram isso no início da pandemia e isso quase as matou de solidão, tristeza ou ansiedade;

as pessoas que faziam exercício físico todo dia não vão ficar 1 ano inteiro sem ir pra academia;

as pessoas que namoram pessoas que moram longe não vão abandonar seu relacionamento e vão viajar;

as senhoras que frequentavam a igreja continuarão indo, etc.

Para combater o vírus nós não precisamos reforçar discursos universalizantes e de práticas ascéticas intangíveis enquanto cada um faz o que pode às escondidas pra não gerar julgamentos alheios. Precisamos falar sobre Covid com honestidade, com ciência e com respeito ao que é importante para cada um. Para uns passar muito tempo longe da família, da academia, do boteco ou da igreja não vai ser um problema, para outros vai ser um sofrimento terrível. O que serve para um não serve para outro e precisaremos ser sensíveis às condições de cada pessoa e ao que faz cada um viver, o que vai além da mera sobrevivência, para poder pensar uma política de saúde baseada no cuidado de verdade e não na culpa. Porque o HIV já nos ensinou isso.

Nós precisamos poder criar políticas sensíveis pensando em redução de danos e educação em saúde e buscando uma relação sustentável entre as pessoas até que a vacina chegue e inclusive depois dela.

Não são só bolsonaristas que estão saindo de casa, mas são os bolsonaristas que estão conduzindo o movimento porque eles estão oferecendo uma autorização dizendo que as pessoas podem se encontrar e é tudo que as pessoas querem. Enquanto a esquerda classe média está num discurso delirante, que só se aplica a ela, ordenando que todo mundo fique em casa e não veja ninguém. Não há projeto alternativo pras pessoas, há apenas extremos e nesse vazio elas estão sendo levadas pela mão ao abismo pela negligência de um governo que não tem projeto pra acabar com a pandemia.

Nossa resposta precisa ser a de dar orientações claras, corretas e sensíveis sobre como sair de casa com cuidado e responsabilidade e apostar em medidas de redução de danos ao invés de discursos prontos. Então vamos a exemplos práticos:

– A covid se transmite via aerossol, pelas gotículas de água que saem da boca e do nariz e se espalham no ar.

– Por isso a máscara funciona. Use a máscara.

– A gravidade da doença que se manifesta é maior conforme a exposição a uma carga viral maior. Então se você conseguir se expor pouco a chance de ter complicações será menor;

– A covid não fica flutuando no ar para sempre então quanto mais fluxo de ar houver mais rápido ela se dissipará, reduzindo o risco de contágio e a carga viral à que você será exposto.

Portanto: vá pra praia, vá encontrar as pessoas em espaço aberto e sem aglomeração; vá de máscara até o seu lugar e fique distante de outras pessoas. E evite shoppings e festas fechadas.

– Se tiver que ficar num lugar fechado fique com máscara no nariz e na boca todo o tempo.

– Em bares ou restaurantes, fique nos espaços abertos, mantenha-se sentado na sua mesa distante ao menos 2 m de outras mesas e se precisar ir ao caixa ou ao banheiro coloque a máscara. Depois do banheiro lave as mãos e passe álcool;

– Faça encontros pequenos em casa de preferência em área externa, ou local mais abertos, mantenha janelas e portas abertas e não vá a bares lotados;

– Medir temperatura só funciona se for na testa. Ninguém vai apagar seus pensamentos ou te causar câncer com aquilo. Exija medição correta de todos;

– Na academia fique sempre de máscara e limpe seus equipamentos com álcool antes e depois de usá-los;

– Prefira exercícios físicos ao ar livre e use máscara se estiver em movimento e passar por outras pessoas;

– Evite sair de casa se estiver se sentindo doente;

– Use máscara.

Enfim, cuide de si, cuide dos outros. Não por culpa, mas por respeito à vida.

Sobre vírus e isolamento. Pessoas de máscara

Por Daniela Mayorca, psicóloga e psicanalista.
E-mail: ds.mayorca@gmail.com

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