O realismo político fura a bolha na Folha

Jones Manoel marcou um golaço ao conseguir dobrar o isolamento midiático com sua entrevista na Folha. Não é “só” por causa do Caetano. É fruto de seu esforço como formador político e propagandista.

Não se trata de um proselitismo ideológico. Não há uma defesa do stalinismo contra o liberalismo. O que tem de ser feito é mostrar a crua realidade geopolítica. Um projeto popular e soberano para o Brasil encontrará tenaz resistência imperialista, como já ocorreu no passado. Os golpes de 1945, 1954 e 1964 estão aí para comprová-lo. E até mesmo o golpe de 2016 contra o petucanismo neoliberal.

O liberalismo existe como expressão ideológica, organizada, de caráter acadêmico. Mas o verdadeiro liberalismo não é esse. Não é Locke, Rawls ou Robert Dahl.

O liberalismo real é uma consciência difusa que existe mal formulada na cabeça das pessoas comuns. Uma subjetividade individualista e egocêntrica, incapaz de ir além da própria experiência de vida. Ilhas de si mesmo. Por isso, a única igualdade que é capaz de conceber é uma igualdade formal e abstrata, muito longe da realidade contraditória que se desenrola na sua frente.

É essa consciência difusa que age como um véu encobrindo a realidade. É ela que apaga as classes sociais, a opressão racial, o machismo e a LGTBfobia. “Somos todos iguais” é o brado do racismo estrutural defendido quase abertamente por Fernando Holiday.

Mas isso nem é o principal. Essa igualdade abstrata do liberalismo difuso encobre a realidade dura do imperialismo, o mecanismo básico sem o qual não se pode falar de capitalismo. Sem a exploração dos países de Terceiro Mundo, a economia de mercado já teria há muito se auto destruído. É a pobreza latino-americana que mantém a estabilidade – sempre frágil – da social-democracia europeia.

Sem enxergar a realidade do imperialismo, a luta por melhorar a vida no Terceiro Mundo perde seu substrato real. Vira só palavra de ordem vazia. Mesmo que pela via democrática, os aparelhos de inteligência, as grandes transnacionais e até mesmo a violência militar direta sabotarão qualquer tentativa de soberania popular na periferia do mundo.

Não é um mar de rosas. As experiências anti-imperialistas são sim duras. Em comum a todas, há um momento de afirmação de autoridade, muitas vezes violento, sem o qual os trabalhadores organizados podem sofrer terríveis revezes. Foi assim no Irã, na Líbia, no Egito, em Cuba e em todo o Terceiro Mundo. E o processo revolucionário não é a panaceia de todos os problemas humanos. É sempre um projeto incompleto, contraditório e problemático. Extremamente real, com suas alegrias e dores.

Stálin e a Rússia Soviética não são exceção. Acossada por todos os lados por quase todas as potências imperialistas, essa experiência terceiro-mundista teve de se firmar, inclusive como responsabilidade nacional. E essa afirmação se deu muitas vezes até mesmo contra outros movimentos progressistas, como os makhnovistas na Ucrânia.

No entanto, não podemos deixar de notar que há um esforço mais ou menos sistemático, mas também mais ou menos difuso, de difamação destas experiências. Hoje em dia temos o cômico espetáculo das calúnias contra a Coreia Popular e contra a China. Mas as mentiras que justificaram a agressão imperialista contra a Líbia e o continuo massacre da Palestina também entram nesse rol.

Por tudo isso, não podemos deixar de elogiar o feito de Jones Manoel.

Mas também tem seus limites. O militante pecebista não vê que há um outro Stálin bem a seu lado, nessa pátria tropical e mestiça. Um homem cuja memória é combatida com afinco por quase toda comunidade acadêmica, vítima de um ostracismo digno das antigas pólis grega. A mera menção de seu nome estremece todo o establishment liberal, consenso capaz de unir desde os pós-modernos hypados até os financistas da Faria Lima. Por que a lembrança de seus feitos não pode deixar de lançar luz sobre o que é central no Brasil: a luta por sua soberania, contra a condição colonial e contra o imperialismo. Seu nome?

Getúlio Vargas

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