O surto de Meningite que a Ditadura Militar tentou esconder

No século XX, o Brasil viveu três grandes surtos de meningite, o primeiro deles aconteceu em 1923, momento em que o país enfrentava uma grave crise econômica decorrente da Primeira Guerra Mundial e das consequências da gripe espanhola.

A segunda epidemia de meningite ocorreu em 1945, em São Paulo, e foi, inicialmente, negada pelas autoridades. Em uma matéria publicada no “Diário da Noite”, é possível encontrar uma história que reforça como historicamente a população mais pobre sofreu muito com as doenças que se espalharam pelo país. O texto fala sobre Edith Abel, uma jovem negra e moradora da periferia da Zona Leste. Ao levar seu filho de oito meses à Santa Casa, o médico constatou que a criança estava com meningite, mas a falta de vagas no hospital fez com que ele fosse liberado. No retorno para casa, uma mulher que andava na rua notou a palidez no rosto da criança e abordou Edith que, desesperada, se deu conta de que seu filho estava morto em seus braços. Histórias como essa ilustram o quanto é difícil preservar a vida da população mais pobre em meio a uma epidemia e a um serviço de saúde sobrecarregado.

O surto mais grave, no entanto, foi o de 1974. Época em que o Brasil enfrentou dois tipos de meningite meningocócica: a tipo C, iniciada em abril de 1971, e a tipo A, cujo início foi em maio de 1974.

Com a doença se alastrando em uma proporção maior do que o sistema de saúde conseguia conter, o governo determinou a suspensão de aulas e eventos esportivos. Os Jogos Pan-Americanos, que ocorreriam no ano seguinte em São Paulo, foram transferidos para a Cidade do México.

Em setembro de 1974, o país contabilizava uma proporção de 200 casos por 100 mil habitantes. A epidemia, iniciada nos bairros mais pobres, atingiu também os bairros nobres de São Paulo, levando o Instituto de Infectologia Emílio Ribas a internar 1,2 mil pacientes, mesmo tendo apenas 300 leitos disponíveis.

Apesar do crescente aumento do número de casos, o governo tentou manter a população desinformada sobre o assunto. Os meios de comunicação estavam proibidos de falar sobre a doença, sob a alegação de que as notícias causariam pânico nas pessoas.

O regime militar censurou diversas reportagens sobre a doença e proibiu as autoridades de saúde de se manifestarem sobre os avanços da epidemia. Conforme os especialistas no assunto, esse foi um grande erro, ao negar a existência da epidemia de meningite, houve um atraso muito grande no desenvolvimento de ações que pudessem combatê-la.

Quando, finalmente, a população começou a ter noção do que estava acontecendo, o país já contabilizava 67 mil casos, 40 mil deles só em São Paulo. O pânico se espalhou pelas cidades, as pessoas começaram a buscar remédios milagrosos para o tratamento e a tomar o antibiótico sulfa por conta própria, o que acabou fazendo com que a bactéria se tornasse resistente.

Em meio ao colapso do sistema de saúde e ao desespero da população, em 1975, teve início no país a Campanha Nacional de Vacinação Contra a Meningite Meningocócica e só então o governo começou a divulgar números da doença. A campanha imunizou cerca de 90% dos brasileiros e a epidemia foi controlada, deixando, entretanto, um grande número de mortes e a certeza de que a informação correta e a ação rápida do poder púbico são essenciais na preservação da vida.

Por Adriana de Paula e Joel Paviotti – Iconografia da História

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