Todos terão o seu dia de negro

Na entrevista concedida pelo professor e filósofo Silvio Almeida ao programa do Bial na TV Globo, o mesmo proferiu uma reflexão extremamente impactante “Todos terão o seu dia de negro”, trazendo expressivo desconforto a todos os ouvintes. Entre a população negra, avaliou-se como os brancos teriam dias de desesperança como os nossos? Entre os brancos, a indagação foi inevitável, como teríamos dias desprezíveis como vividos pelos negros?

A resposta para ambos grupos racializados demanda compreensão sofisticada do pensamento marcante de Silvio Almeida, principalmente no momento histórico do qual estamos vislumbrando.

Temos no Brasil uma separação racial idêntica ao apartheid, estabelecendo uma fragilidade cognitiva entre os brancos, que não se preparam para lidar como as diferenças e desafios de ordem racial. Neste sentido, a branquitude é beneficiada pelas desigualdades, estando apartada da convulsão social que abrangem negros e pobres.

No entanto, avaliam este cenário como meritocracia, ou seja,  vantagens sociais, econômicas e políticas, não sentindo desconforto com a situação de dominação racial. O senso  de superioridade impera, principalmente em uma sociedade individualista, que tem o “eu” como eixo estrutural, sendo o mérito a  base, não necessitam trabalhar intimamente a resistência racial, possuindo profundo desconhecimento das  ciências humanas e aplicadas de forma proposital, pois admitir a existência de diferenças raciais proporcionaria legitimidade ao grupo racial identificado como inimigos (negros).

A branquitude é uma condição de poder, vez que  permite viver na sociedade sem a necessidade de construir a resistência racial, proporcionando profunda acomodação por desconhecimento ou omissão.

Nesta encruzilhada, os tipificados como racistas, demonstram o despreparo em estudos sobre raça, principalmente pela visão racial que assimilaram em uma sociedade com origem escravocrata, sendo um desafio a imersão no íntimo de nossas identidades ancestrais, morais e cristãs.

Quando se trata de racismo, grupos beneficiados pela discriminação, se rebelam contra toda e qualquer política pública que beneficie o grupo tido como contrário, tendo a narrativa que somos todos iguais perante a lei, não podendo acontecer privilégios a grupos discriminados, sendo “mimimi” ou “coitadismo”, demonstração nítida de que a discussão racial é injusta e perturbadora, confrontando uma zona de conforto continua.

O equilíbrio da branquitude depende de uma construção ideológica para sua manutenção, a conexão dos privilégios ao racismo é intolerável, e atrai o núcleo central do problema, o conhecimento da realidade, desestabilizando a manutenção dos confortos estabelecidos na hierarquia racial.

Quando irmãos brancos, legitimamente se conscientizam do cenário de barbárie, vinculado ao racismo, e insurgem se aliando na luta antirracista, logo enfrentam severas agressões de cunho moral, ético e físico.

A escritora americana Robin Diangelo, define este processo como “fragilidade branca”, que nasce do sentimento de superioridade, adquirido desde o nascimento, na formação familiar, passando pela educação, em todas as fases do ciclo de aprendizagem, nas relações de emprego, no campo dos sentimentos, entre outros.

Desta forma, identificam os privilégios como um direito, obtendo um controle racial das vantagens obtidas, com o fortalecimento das desigualdades e a conjuntura mundial adequada, onde a ganancia da elite fomenta o racismo.

Temos infelizmente uma elite branca, que aproveita do poder e desprestigia a igualdade racial, mantendo vinculação continua ao passado escravagista, é como o caso do menino Miguel, no Recife-PE, onde sua mãe negra  teve que servir as necessidades dos cachorros da patroa, mas a patroa não serviu as necessidades do filho negro da empregada, demonstração perfeita do cenário de analogia escravocrata, a continuidade da Casa Grande & Senzala, se materializando em política genocida e racista.

Para a justiça, o caso da morte de Miguel foi apresentado como homicídio culposo, sendo permitido aguardar o julgamento em liberdade,  a fiança estipulada a  patroa foi no importe de R$ 20.000,00. Ainda que se considere homicídio culposo, o valor estabelecido se mostra baixo. Não há dúvidas de que se a mulher negra tivesse sido negligente, teria sido acusada de homicídio doloso, sem direito a fiança, mesmo que tivesse condições financeiras similar a dessa patroa. Isso deve ser dito, pois é assim que funciona o racismo no Brasil, olha-se a negritude, e estabelece a sentença. Com causas acumulativas como as da mãe de Miguel, com certeza, a situação seria ainda pior.

O pai de Miguel, Paulo Inocêncio, segura uma foto do filho em manifestação que pede justiça por sua morte. Foto: Guga Matos / JC Imagem / Folhapress
O pai de Miguel, Paulo Inocêncio, segura uma foto do filho em manifestação que pede justiça por sua morte. Foto: Guga Matos / JC Imagem / Folhapress

É fundamental que cada cidadão compreenda seus privilégios e o papel que lhe cabe dentro do racismo estrutural.

Na intimidade de cada ser humano, ninguém deseja ser tratado como os negros. Não temos ingenuidade, todos sabem o que esta acontecendo na sociedade.  A pergunta que fica é porque certos grupos permitem que o racismo se reproduza?

Enquanto não houver consciência e constrangimento, identificando que o termo “raça” nos separa, a iminência de todos terem  um dia como “negros” nos assombrará, porque o racismo é estrutural, e seus reflexos mais cedo ou mais tarde atingirão à todos de alguma forma. No entanto, enquanto houver racismo, é imprescindível destacar as concepções de raça.

A luta por uma sociedade sem racismo e pautada na igualdade racial é urgente, pois toda opressão é caminho aberto a uma luta pacífica ou não!

Por Julio Cesar Silva Santos, mestre e doutorando em Direito Político e Econômico (Mackenzie), advogado, professor universitário, dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região.

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1 Comentário

  • Nos faz refletir todo o processo de criação, onde mesmo sendo pobre, eu sempre fui branca. É um reforço de que em alguma medida eu não estava no limite da crise social. É uma ideologia estranha, embrenhada em pequenas situações cotidianas. Vejo com o texto que sair disso é um processo, individual e coletivo.

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