Vice, sobre Dick Cheney, é engraçado, porém decepcionante

Este texto contém spoilers, mas é um pouco ridículo exigir esse aviso sobre um filme que trata de fatos reais e muito notórios. Estreou no Brasil nesta quinta-feira, 31 de janeiro, o filme “Vice” de Adam McKay, sobre o subterrâneo político republicano norte-americano, Dick Cheney. O elenco é recheado de estrelas. Christian Bale lidera no papel principal; Amy Adams faz a esposa do ex-vice-presidente, Lynne Cheney; Sam Rockwell encarna o ex-presidente George W. Bush; e Steve Carell atua como Ronald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa por duas vezes, e único a ocupar esse cargo em dois governos diferentes. O diretor e roteirista Adam McKay já havia trabalhado com Christian Bale e Steve Carell no celebrado “A Grande Aposta” sobre o colapso financeiro de 2008 em Wall Street. vice dick cheney 3

O filme mostra a trajetória biográfica de Dick Cheney de forma intercortada com cenas do auge na vice-presidência sendo mostradas desde o começo, mas com uma narrativa temporal relativamente cronológica. Cheney era um trabalhador do interior do Wyoming que teve algumas oportunidades de estudar numa juventude rebelde. Após ser expulso de Yale, tem uma segunda chance numa universidade menor, e consegue um estágio na Câmara Federal dos EUA, onde vira assessor e fiel escudeiro de Ronald Rumsfeld. A partir daí torna-se um político influente na Casa Branca quando Rumsfeld vira secretário de Defesa. Cheney foi chefe de gabinete de Gerald Ford, que assumiu após a queda de Richard Nixon, foi deputado por seu estado, depois secretário de Defesa de George Bush, e nos anos 90, durante o governo do democrata Bill Clinton, Cheney tornou-se CEO de uma grande petroleira americana, a Halliburton Company. Esse parecia ser o endinheirado e natural final de um político de sucesso. Mas então surgiu a chance de ser vice-presidente do filho de George Bush, cargo geralmente simbólico e para proteção da institucionalidade da presidência em caso de morte ou impedimento do presidente. Mas Cheney é notoriamente conhecido como um dos mais importantes e ativos vice-presidentes da história, sendo crucial nas guerras subsequentes ao atentado de 11 de setembro de 2001 e nas mudanças econômicas do período, particularmente sobre a ofensiva imperialista na disputa pelo petróleo, e na luta dos super ricos contra os impostos.

“Vice” concorreu a 6 Globos de Ouro, incluindo melhor filme e melhor diretor, com prêmio de melhor ator para Christian Bale. O filme ainda concorre a 8 estatuetas do Oscar. As peças publicitárias do filme repercutiram comentários da imprensa norte-americana de que Christian Bale e Steve Carrell fizeram suas melhores atuações da carreira, além do brilhantismo de Amy Adams e Sam Rockwell. Eu discordo. Bale e Adams não repetiram a sinergia de outros filmes juntos como em “Trapaça” e “O Vencedor”. Bale tem ficado notório por atuações que necessitam de alterações físicas drásticas, como engordar bastante para representar Dick Cheney, ou emagrecer exageradamente como nos filmes “O Operário” e “O Vencedor”, este pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante. Sua atuação foi boa, mas não foi nota 10 e nem a melhor de sua carreira. Adams a mesma coisa, penso em pelo menos dois filmes cuja atuação da atriz foi melhor, como “A Chegada” e “Trapaça”. O roteiro do filme também não favoreceu a atuação das duas estrelas, apenas ensaiou mostrar um protagonismo maior da esposa de Cheney como a verdadeira face carismática que o ajudou a ser eleito deputado por Wyoming, e os conflitos familiares e morais do ex-vice-presidente também são mal trabalhados, obrigando os atores a ficar repetindo as facetas caricaturais e inescrupulosas o filme inteiro.

Steve Carrell também foi colocado num papel excessivamente caricato, quase que como repetição de seus personagens escandalosos de comédia, com risadas histéricas e frases estapafúrdias. Ficou na média de suas boas atuações de comédia, não dando ênfase em sua capacidade dramática, que só aparece no final de forma lateral no declínio e desmascaramento político de Ronald Rumsfeld. Sam Rockwell a mesma coisa. Representou um George W. Bush playboy e eterno adolescente que se acha esperto demais, mas que é facilmente manipulado, muito aquém do justíssimo Oscar de ator coadjuvante por seu papel em “Três Anúncios Para Um Crime”.

No entanto, Adam McKay exibe recursos estéticos interessantes no roteiro e na direção, principalmente de natureza metalinguística. O narrador do filme é uma figura inusitada, só explicitada no final do filme, que não pode ser onisciente, e tira sarro disso o tempo todo. Bentinho, protagonista-narrador de Dom Casmurro, conta sua história de forma parcial como é natural em um relato de primeira pessoa, e fica para a reflexão e imaginação do leitor o desdobramento de incoerências e dúvidas causadas pela narrativa unilateral proposta por Machado de Assis. O narrador de “Vice” admite que não pode saber o que ocorreu em certos diálogos, e propõe ironicamente uma encenação shakespeareana para o casal representado por Amy Adams e Christian Bale. Outro momento interessante é um corte da história que poderia ser o final dela, e o narrador também mostra perplexidade pela guinada que o protagonista dá em sua própria vida. O humor do roteiro tem momentos escandalosos nos quais o narrador imagina coisas absurdas que Dick Cheney era capaz de convencer o presidente Bush, tratando questões de Estado como piadas escatológicas.

O diretor procurou repetir o clima de seu filme “A Grande Aposta” que mostra fatos graves com ares de escândalo hilariante de tão absurda a forma como a elite econômica e política dos EUA se comporta. Algo também parecido, mas ao inverso, com O Lobo de Wall Street de Martin Scorcese, no qual Leonardo Di Caprio interpreta o famigerado Jordan Belfort, inescrupuloso criminoso de colarinho branco chegado a orgias regadas com todas as drogas possíveis e imagináveis. Em “Vice”, Dick Cheney é um chefe de família conservador que supera a rebeldia de juventude, tolerante com sua filha lésbica, hipócrita politicamente, mas principalmente autoritário e facínora como estadista. Cheney ordena sequestros, assassinatos, guerras, e busca a todo momento obter um poder ilimitado sem controles democráticos. Tudo com a maior calma e serenidade. Mas Adam McKay não é Martin Scorcese, e seu próprio filme anterior sobre a crise de 2008 é politicamente mais elucidativo. “Vice” é engraçado, mas explica pouco a real importância de Dick Cheney na história política norte-americana.

A tese do filme é que Dick Cheney foi o presidente de fato dos EUA durante os 8 anos de Bush filho, que seria um político relativamente ingênuo e manipulável. Além de diálogos insanos e decisões tomadas de forma irracional, o filme não detalha quais são os interesses reais de Dick Cheney. Até são mostrados planos de loteamento do Iraque entre as petroleiras americanas, e o fato de ele ter sido CEO de uma importante exploradora de petróleo, e numa cena breve, mostra Cheney e Rumsfeld abafando uma investigação sobre licitações militares. Mas a trajetória até ali é mostrada de forma absolutamente contingente, como se a vida o tivesse levado ali por uma mera ambição desmedida de poder, enfatizando sua capacidade política ímpar, sem ser detido por parâmetros morais ou democráticos.

O momento definidor da personalidade do político é moldado pelo mentor Ronald Rumsfeld. Cheney, ainda assessor do Rumsfeld deputado, o questiona: “No que nós acreditamos?”. A resposta é uma escandalosa risada do deputado interpretado por Steve Carrell. Essa risada é a chave para os interesses político-econômicos, que, no entanto, deixa em aberto a resposta, pois remete a uma visão abstrata de poder autoritário e imperialista. Mas não deveria, porque há uma resposta inequívoca e concreta. Eles acreditam em petróleo e indústria bélica, e o filme é pouco explicativo nesse sentido. Desse modo, “Vice” é divertido, bom entretenimento, mas fica longe da expectativa gerada, o que o faz decepcionante.

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