Visibilidade negra no documentário AmarElo

Leandro Roque de Oliveira, conhecido como Emicida, é rapper, compositor e escritor, considerado uma das principais figuras públicas negras do mundo da música. O livro infantil intitulado “Amoras” narra a alegria da menina negra por ser pretinha, como neste excerto: “em um passeio com a pequena no pomar, explico que as pretinhas são o melhor que há. Amoras penduradas a brilhar, quanto mais escuras, mais doces. Pode acreditar. Então a alegria acende os olhos da menina: que conclusão incrível alcançou a pequenina? […] Papai, que bom porque sou pretinha também!

Músicas e livros com este tipo de mensagem são capazes de promover impacto da consciência racial e aceitação da negritude para crianças e adultos negros.

Em 08 de dezembro de 2020, Emicida lançou o documentário “AmarElo – é tudo para ontem”.

Documentário AmarElo Emicida Netflix

O show foi gravado no Theatro Municipal, cartão postal de São Paulo, localizado na Praça Ramos de Azevedo, na região central da cidade. Área abastada, com acesso a bens e equipamentos públicos, e com ausência das pessoas negras (exceto na parte degradada; entre os moradores de rua, os negros são maioria). Os dados da Rede Nossa Cidade (2020, p. 8), apontam que, nessa região, a população negra (pretos e pardos) é representada por entre 17,9% e 41,7% dos moradores.

Ainda que a proporção de pessoas negras nessa região não seja tão reduzida quanto no bairro Moema, em que foi constatado que apenas 5,8% de seus moradores são autodeclaradas negros e pardos, Emicida narra que os negros, excepcionalmente, tiveram a oportunidade de assistir um espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo, ainda mais com conteúdo e produção de pessoas negras.

Outrora, os negros acessavam aos teatros como serviçais, mas para este documentário eles são os protagonistas, e esta é a mensagem transmitida. Ou seja, que os negros podem e devem participar dos espetáculos como atores e como espectadores, de modo que cada detalhe do show foi um espetáculo particular de representatividade.

Emicida afirma que os negros construíram as cidades, a cultura e as artes. Dentre tantas pessoas importantes, ele destacou Lélia Gonzalez que, em meio a dificuldades familiares, conseguiu estudar filosofia e se tornou referência no estudo a respeito da cultura brasileira e da singularidade das mulheres negras no Brasil. E também Ruth de Souza, a primeira mulher negra a protagonizar uma telenovela e a primeira brasileira a ser indicada ao prêmio de melhor atriz para o Festival de Veneza, categoria Leão de Ouro, em 1954, em razão do papel que interpretou na novela “Sinhá Moça”.

Também foi destacada a importância dos integrantes do Movimento Negro Brasileiro (MNU) que estavam em frente ao Theatro Municipal de São Paulo, em 1978, e lutaram pelo fim da Ditadura Militar e contra a discriminação racial. Emicida agradece aos integrantes do Movimento Negro Brasileiro pela luta pois, sem eles, os negros (nós) não estariam no teatro como protagonistas.

Os negros encontraram diversas formas de resistência após quase quatro séculos de escravidão, e 132 anos de “liberdade”, após a Lei Áurea. No entanto, eles continuam sendo inferiorizados, bem como sua história e conquistas foram apagadas ou silenciadas. Porém, Emicida mostra que temos uma história de cultura, desenvolvimento e crescimento em todo o percurso da humanidade, e não nos restringimos nem à escravização realizada, nem à discriminação racial imposta desde então.

Emicida evidencia que as tentativas de nos extinguir falharam, porque os negros ressurgem a cada geração mais fortes e mais potentes para o sair da grande noite, conforme apontado por Achille Mbembe. Quer dizer, a liberdade impõe deixar a colônia para trás, ou seja, sem ressentimentos, uma vez que nós negros estamos buscando nossas posições no espaço como intelectuais, músicos, artistas, médicos, advogados e o que mais desejarmos. Estamos reivindicando nosso direito de sonhar e de materializar a equidade, não só para nós, mas para todos. Isto não quer dizer afastar a responsabilidade pela barbárie praticada, mas quer dizer que o pacote de mudança é complexo, e exige várias frentes de reflexão e ação.

Os papéis racializados são destrutivos para a construção da sociedade, tanto para brancos quanto para negros, por isso que desguetizar os espaços é um processo em expansão, e Emicida foi muito feliz em mostrar a importância da ancestralidade. O documentário também mostra que, se estamos sendo representados, mesmo que timidamente, em alguns espaços intelectuais e midiáticos, é resultado desses antepassados que lutaram pela liberdade.

Por fim, o documentário é mais uma forma de descolonizar, que é não ser moldado pelo pensamento racista e machista que ainda estrutura as relações sociais tão profundamente, e que as instituições normalizam nas tomadas de decisão. Emicida canta a música de Belchior “Sujeito de sorte”, destacando o refrão:

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Pois é. Não vão nos matar. Insistimos em viver.

 

1 Comentário

  • Excelente texto, o documentário emana o abolicionismo que temos que construir todos os dias. São várias frentes de luta, resistência que se mesclam com a arte. Waleska contundente e leve, “insistimos em viver”.

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