O Pato da Bossa à zoomúsica de Caetano

Há 60 anos, João Gilberto entrou no estúdio na gravadora Odeon, no Rio, e começou a gravar o primeiro disco, em 10 de julho de 1958. Dois anos depois, no álbum O amor, o sorriso e a flor, João gravou O Pato, que os compositores Jayme Silva e Neuza Teixeira tinham dado o nome Aves no samba. 

O Pato faz alusão aos quartetos vocais brasileiros daquele tempo e já tinha sido gravada pelos Garotos da Lua, no final dos anos 1940, conforme registros no livro Chega de Saudade, de Ruy Castro.

Nessa música, quatro aves familiares – pato, ganso, cisne e marreco – ensaiam o brasileiríssimo Tico-tico no Fubá à beira da lagoa. Era a zoomúsica leve e bem-humorada dos anos 40 e 50, que se diferencia dos animais simbólicos e de protesto a partir de 1960.

Momento histórico e clássico: João Gilberto e Caetano Veloso gravaram O Pato, em 1999, ao vivo em Buenos Aires. Tá no Youtube.

Na zoomúsica de Caetano Veloso há mais de 50 espécies de animais. As aves, especialmente pássaros, são os mais cantados em composições próprias, parcerias e interpretações. É uma obra em que predomina o animal feminino.

O feminino animal de Caetano Veloso

“Noventa e nove e um pouco mais por cento das musicas que existem são de amor”, define Caetano Veloso, que utiliza referências animais para cantar o amor, a terra e outras estranhas formas de vida.

O feminino animal na zoomúsica de Caetano não propõe igualdade de gênero. Simbolicamente, elas já estão no poder. Mas o desejo de que “a Tigresa possa mais do que o Leão” não exclui igualdades na diferença. “Onça tu; eu, jacaré” é a beleza pura da diversidade.

O feminino animal também chega pela voz de uma mulher sagrada, Vaca Profana; por meio da voz de uma pessoa vitoriosa; “e em tudo a voz de minha mãe.” O masculino fica no diminutivo: um leãozinho para desentristecer; Gatas Extraordinárias para alegrar.

O sexo frágil é o mais forte não só em Rapte-me Camaleoa. As mulheres simbólicas de Caetano são produtoras de mel e amor. “Ó abelha, rainha, faz de mim um instrumento do teu prazer e da tua glória.” Tá combinado que o compositor não coloca o desejo em lugar comum: “Eu não sou cachorro não!” Vera Gata expõe a fórmula do fogo total: carinho, técnica, paixão…

Outra evidência feminina na zoomúsica de Caetano é a fragilidade sexual masculina: “E o corpo não agia, como se o coração tivesse antes que optar entre o inseto e o inseticida”. Esta verdade ganhou uma analogia zoo: “Este macaco complexo, este sexo equívoco, este mico-leão.”

Faz parte da realidade masculina de Caetano a gravação de clássicos em que mora a filosofia da mulher subjugada: “a quantos você pertencia”; “muda de dono à vontade.” O mesmo homem que julga não alcança mulheres totalmente demais, especialmente cariocas da gema: “Galinha de pretas penas (…) Parecem até estrangeiras aos brasileiros demais.”

É uma evocação zoo que vem desde É de Manhã, de 1965: “Foi por ela que o galo cocorocô”. Do simbólico ao real, Caetano Veloso já enfrentou o Negror dos Tempos: “Quando eu vejo você com esses olhos de vaca, esses olhos de vaca triste.” Sem a presença da Mãe, o compositor se revela: “sou triste, quase um bicho triste”. (De pai para filho, ele canta com Zeca Veloso: Todo homem  precisa de uma mãe.)

Mulher, mãe e filhos se misturam. “Quem vê assim pensa que você é muito minha filha, mas na verdade você é bem mais minha mãe; meu bichinho bonito.”  E nascem os bichinhos: “os nossos curiós.” E ainda, na terra do leão de fogo, um filhote de leão é um raio da manhã.

Zoomúsica com letras rebuscadas, gírias e expressões populares. Depois do disco Bicho vieram harpia, aranha, perua, piranha, cabrito. “Tu é gênia, gata, mas foi mor rata comigo.” Tem lirismo dos velhos e novos tempos: “serpente, nem sente que me envenenou.” Outros feminismos: “Ela comeu meu coraçãozinho de galinha, ela comeu meu coraçãozão de leão”.

Outras paisagens

Asa Branca é um protesto atemporal da seca do Nordeste. Para Caetano, uma música de exílio. Nos anos 1970 ele soltou o Pássaro Proibido e evocou “O espírito dos pássaros das fontes de água límpida.” O compositor de Eu e Água é o mesmo do canto cheio de raiva e pena diante do horror de um progresso vazio no Subaé, “matando os mariscos e os peixes do rio.”

Sim, todos os homens são Reis e Ratos, exceto O Herói que não joga bola pra esses ratos. Quando falta comida, heróis brasileiros se alimentam daquilo que veem. Se não tem farinha, “Vamo comer faisão. É um papo de pelicano romântico. Aberto pro bico de quem alcançar.”

Em busca de outras paisagens, Caetano Veloso viu uma baleia e uma arara na Baía de Guanabara; vacas no interior de São Paulo; papagaio em Aracaju e três colibris de raça que deixaram o país para encher Paris de graça. Pelo amor de Lisbela, serei patativa do Norte. Para defender outro amor, olho no olho do jaguar até virar jaguar no coração do Pará.

E não parou por aí. Caetano não gravou o trecho do cavalo tordilho em Felicidade, mas sentiu Saudade Brejeira do alazão e da boiada debaixo do sol. Ainda assim, manteve-se urbano: “Ê boi! ê bus”. É um cantor com a Cara do Mundo: cara de peixe-boi, de cobra e de beija-flor. Mundo animal colorido. Cauda de Pavão. Ele pergunta e responde quais são as cores de predileção dos bichos: verde, branco, pardo.

Sofisticado como um “pavão de plumagem branca”, Caetano fez interpretações peculiares para músicas em espanhol e em inglês. Diferentemente do ritmo de distribuir banana com os animais, deu voz a bichos reais e simbólicos: rouxinol, andorinha, paloma, pássaros azuis, crocodilos verdes…

Caetano Veloso tem Asa, mesmo que parada no ar. Ele é uma grande borboleta completa-mente solta. E não bastaram “uns bichos” em mais de 50 anos de música. Ele também é O Homem Velho, o rei dos animais.

Nas 600 músicas consultadas, entre composições próprias, parcerias e interpretações, há mais de 50 espécies de animais. Leão e Cobra aparecem em 5 canções. Serpentes, Galo, Aranha e Macaco, 4 vezes cada uma. Entre os termos genéricos, que não definem o animal, a palavra pássaro (passarinho) ultrapassa 10 músicas, seguida de bicho (bichinho), peixe(s), ave, fera.  Quase 20 espécies de aves e pássaros tiveram registro. “Sou seu sabiá. O que eu tenho eu te dou. Só tenho a voz. Cantar, cantar, cantar, cantar, cantar…”

Por Silvio Reis: jornalista.

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