O feitiço beneficiou, mas pode também prejudicar Bolsonaro

Nunca é demais lembrar que Jair Bolsonaro e essa nuvem obscurantista são fruto da República de Curitiba. Lembrar também que a teleologia não garante no futuro os fins da forma como foram concebidos no passado.

O processo político (e social) é errático e feito de contradições, e uma delas os fatos estão provando agora, como já se disse muitas vezes, com o velho ditado do feitiço virando contra o feiticeiro.

Não significa babar aqui tipo ‘olha, eu avisei’ e torcer para que nossos ressentimentos se desopilem com a derrota de um ou de outro. Nosso inimigo principal agora se chama Jair Bolsonaro.

Nosso, de quem? De amplos setores diversos e divergentes entre si, incluindo os golpistas do passado, os golpistas que ajudaram a golpear a democracia usando o discurso hipócrita do combate à corrupção.

Não adianta querer fazer política só com princípios e valores de estimação. Gritar no Facebook ou na janela do apartamento pode descarregar certas energias e aliviar o fígado.

Mas de nada adianta marcarmos posição se essa posição não vai levar a nada porque o cerne dos conflitos é a luta pelo poder e não a luta para subirmos no ranking da honestidade e moralidade ideológica. Disso não precisamos porque ou somos ou não somos.

As contradições não se referem somente a uma relação entre apoiadores da Lava Jato e defensores de Lula ou do PT ou ainda das forças que perceberam no que iriam resultar as ousadas investidas, ilegais, inclusive, da República de Curitiba. As contradições se dão em diferentes complexos de situações e entre os próprios golpistas que derrubaram Dilma Rousseff em 2016 e depois prenderam Lula.

Tanto o golpe como a prisão de Lula são fatos do passado recente, mas do passado. Política se faz pensando no futuro. Não estou desvendando nenhuma novidade nem da política, nem do velho ditado do feiticeiro, e muitos já disseram essas coisas de uma ou de outra forma, iluminando aspectos diferentes de fatos na política, na economia e nas relações entre os poderes.

O feitiço já virou, está se virando ou vai virar, com maior intensidade ou não, contra juízes, policiais, políticos, empresários, jornalistas, donos de jornais e um conjunto de outros atores, inclusive, a própria República de Curitiba – atores, enfim, que agora precisam lutar contra outro inimigo, não mais contra o PT ou Lula.

Para os desesperados e atônitos, sugiro aqui essa reflexão: as contradições não são absurdas nem evitáveis. Pelo contrário e repito: nenhuma teleologia garante no futuro a concreção de intenções passadas da forma como foram imaginadas pelos seus autores. Elas podem se concretizar até na meia bomba, mas nunca de forma totalizante e segura.

Nesse sentido, só para citar um dentre muitos exemplos, as notícias sobre as trocas administrativas, os atos em si, promovidos pelo governo. Eles também revelam a contradição. Se Jair Bolsonaro manda trocar, por exemplo, todos os superintendentes regionais da Polícia Federal significa que ele não tem a totalidade dessa força policial. Se tivesse, não precisaria fazer a troca.

Os trocados acabam se mobilizando contra ele, se precisarem, dependendo do interesse, de uma ou de outra forma, ou entrando na inércia quando deles se esperar ação. Governadores que apoiaram o então candidato vão ter que lutar agora contra Bolsonaro. Isso vale para outros então apoiadores notórios de ocasião, além dos trânsfugas naturais, aqueles que traem qualquer um quando for necessário.

Essas especulações não se encerram num texto como esse porque elas acompanham o próprio caráter errático da política. Amanhã poderei estar falando outras coisas ou até negando o que eu falei. E servem aqui também para que me corrijam ou me tirem da eventual ingenuidade.

Elas não revelam também otimismo exagerado, porém, não também um pessimismo paralisante e depressivo que muitos assumiram e estão sucumbindo à estratégia do marketing fascista. Por outro lado, um pessimismo ativo significa – por conta das contradições inevitáveis – agir com foco preciso. E este passa pela formação de uma ampla frente que inclua, inclusive, alguns, ou muitos, setores golpistas de 2016.

O feitiço beneficiou, mas pode também prejudicar Bolsonaro moro

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