Contra o lavajatismo, Aras e Toffoli recolocam a política no centro do jogo

No domingo, Aras concedeu entrevista para o Canal Livre da Band. Na segunda, foi a vez de Toffoli estar no centro do Roda Viva. Temas relacionados à pandemia e às manifestações golpistas dos apoiadores do presidente dominaram o interesse dos jornalistas. Obviamente, como tudo é imperfeito, na Band não questionaram Aras sobre o inquérito das Fake News contra o STF, o qual Toffoli deixou escapar que já estaria nas mãos do Procurador Geral da República. Ou seja, Aras já conta com o acervo probatório coletado pela Polícia Federal, a pedido de Tofolli, acerca dos crimes contra ministros praticados pelo núcleo hard do bolsonarismo. No Roda Viva, por outro lado, teve jornalista da Folha pedindo para os ministros cortarem seus salários para dar “o exemplo”. Quantos respiradores “o exemplo” renderia? Bom, deixando a moleza e a toleima de lado, o que se notou nas duas entrevistas, e a contragosto de jornalistas que pareciam clamar pelo fechamento do Executivo, foi uma disposição de ambas autoridades de delimitar melhor a caixinha de cada um dos poderes.

Quanto à guerra política que Bolsonaro trava contra os governadores e a ciência, Aras foi categórico: a repartição das competências está inscrita na Constituição da República. O STF decidiu de acordo com o posicionamento da PGR, entendendo que as competências administrativas dos entes são concorrentes, não fazendo qualquer sentido a União legislar sobre temas de interesse dos governos locais em um país diverso e continental como o Brasil. Portanto, como nos Estados Unidos, tendência é que Bolsonaro- como fez Trump ao recuar após vários governadores decretarem a separação da federação seguindo o exemplo do governador da Califórnia- saia desse debate. O resto é política.

Sobre o tema, Toffoli foi além. Sobre o cerco de Bolsonaro e os industriais na quinta passada, disse nessas palavras: “expliquei a ele que as decisões do Supremo são dadas em razão da Constituição Brasileira e (que) a repartição de competências entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios estão na Constituição”. Toffoli não apenas mostrou ao presidente que o país tem uma Constituição, como também recomendou ao presidente como um presidente deve governar: “eu sugeri a ele uma coordenação e tem que ter orientação científica e unidade de tratamento, ou seja, com coordenação… por isso que eu sugeri naquele momento um comitê que pudesse envolver os poderes e os entes da federação”. Após, finalizando esse assunto, lembrou aos entrevistados que os governos são eleitos pelo povo e que cabe à política resolução dessas questões.

Jornalistas não se contentaram e, demonstrando desejo inconfesso de serem governados pela “frieza e tecnicidade” das corporações, cobraram posições mais firmes do STF contra os arroubos autoritários do presidente. Toffoli e também Aras tiveram que lembrar, mais uma vez, contra a lógica imperante do lavajatismo, que o presidente fora eleito por 57 milhões de votos e que autoridades não eleitas não têm que sair de seus quadrados para disputar a arena política. Aras, comentando a pressão do presidente de que não aceitaria mais interferência do STF, lembrou que “nós temos poderes que são eleitos pelo povo” e que essas falas estão no “quadrado” da política. Toffoli, por sua vez, lembrou que a política mudou, falou em “uberização da política” (relacionando a crise da democracia representativa ao desejo das pessoas de fazerem política por elas mesmas) e disse que hoje a política é centrífuga, com políticos buscando conduzir eleitores do centro para o extremo, ao contrário da prática habitual.

Em resumo, o alarido provocado insistentemente pelo presidente é sua forma de fazer política. É bom lembrar que ele tem sido bem-sucedido até o momento, porque, mesmo com sua inépcia administrativa, resultados pífios e tumultos incessantes (ou talvez por isso) consegue manter sua base coesa e ativa. É sinal de que o discurso de Bolsonaro funciona para a base que o elegeu, mesmo com o esperneio dos arrependidos. E lembra-se: eleito democraticamente. Bolsonaro, portanto, faz política e não adianta a mídia comemorar decisão do STF que invade outro poder, tampouco sugerir, como foi solicitado por jornalista no Roda Viva, que o STF impeça futura nomeação de Bolsonaro para a vaga do Supremo Tribunal Federal. A competência é do Senado. Da política, portanto.

Mas mesmo com Toffoli e Aras alinhados na crítica velada à antipolítica, herança do lavajatismo que desperta os instintos mais primitivos da imprensa e de certa esquerda, que cada vez mais busca na justiça reparação para derrotas políticas, é importante ter clareza que Bolsonaro não possui cheque em branco. O presidente já sofreu inúmeras derrotas no STF e Toffoli, como dissemos, abriu um inquérito que fará com que vários bolsonaristas puxem cadeia. Também Aras deixou claro que não tolerará manifestações antidemocráticas ou cerceamento à liberdade de imprensa. O PGR revelou sua disposição de enquadrar os organizadores das marchas golpistas na Lei de Segurança Nacional de 1983 e, citando o paradoxo de Popper, disse que se deixarmos esses tipos de manifestações correrem soltas, a democracia corre o risco de ser destruída, como ocorrera no nazismo. O recado parece ser o seguinte: É daqui pra trás! Ou, para resgatar a polêmica frase de Ciro: “cada um na sua caixinha”. O resto é política.

Contra o lavajatismo, Aras e Toffoli recolocam a política no centro do jogo

1 Comentário

  • Excelente! Achei que ninguém comentaria a entrevista de Toffoli ontem, e o seu comentário a descreveu à perfeição no que ela teve de melhor, e que foi, justamente, a exposição política que fez, em particular, na formulação desses dois conceitos, de uma política ‘uberizada’ e centrífuga.
    Cabe prudência, haja visto situações anteriores, mas alterei a minha impressão sobre ele, de que destoaria, como uma figura menor, na Corte. Não parece que o seja, e é melhor assim.

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