O velório do irmão de Lula: O ódio no subtexto das decisões judiciais

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Lula foi liberado pela Ditadura para acompanhar o velório de sua mãe em 1980

Nunca antes neste país se cultivou e se normalizou tanto ódio como nos últimos tempos. Estranho momento e ironia da história – estranheza, que poderia ser classificada como ingenuidade, mas que é uma forma de resistir e não admitir o absurdo como normalidade. O governo da ditadura autoriza o sindicalista Lula preso a ir ao velório da mãe e agora o governo da democracia impede que o ex-presidente da República preso vá ao velório do irmão com argumentos sobre questões operacionais.

Das duas, uma em relação aos governos da ditadura: ou as autoridades de cima eram ponderadas e, apesar de ditadura, ainda tinham noção sobre o mínimo da condição humana em suas várias dimensões ou eram experts em marketing político como quem diz: olhem, somos ditadores, mas somos humanos. E, sendo ditadura, não haveria subalterno de qualquer instância burocrática, administrativa ou judiciária para objetar sua decisão.

Agora, das duas, uma em relação ao governo atual da democracia, mesmo considerando, claro, mais alternativas tanto para análise como para sínteses conclusivas. Como pontapé de possibilidades, limito-me ao plano das duas, uma. Ou autoridades “de cima” escarnecem da condição humana com a maior cara de pau, inclusive, sem noção alguma de marketing político, ou autoridades “de baixo” subsidiam as decisões que devem vir de cima com uma mistura de burocratismo e ódio, este último instilado pelos mandantes “de cima”. É como o funcionário que sabe como agradar o chefe e apresenta a solução mais próxima do seu gosto, embora nada razoável.

A primeira alternativa pode ser facilmente identificável e compreensível, considerando o tom de discursos e promessas das autoridades de cima – compreensível, ainda que condenável. O pior talvez seja o ódio assumido pelas instâncias inferiores e camuflado nos amavios ditos “racionais” de seus argumentos. Estes não raras vezes têm o tom da necessidade “técnica” ou “operacional” quando não são revestidos de justificativas sobre questões “procedimentais” que prezam a segurança, a ordem e a “isenção” da lei e das normas que devem servir para todos sem distinção de qualquer espécie.

Em outras palavras, de forma bem sucinta: o pior ódio não é o do sujeito que o manifesta abertamente sem milongas ou delongas, mas sim daqueles ungidos pelo saber meritocrático, estando ou não exercendo funções de poder administrativo, policial ou judiciário. É o ódio “racional” e normalizado por discursos e procedimentos, muito mais perigoso do que o ódio movido por impulsos e ímpetos emocionais. Perigoso porque instaura o absurdo como condição normal e bastante persuasivo, embora enganoso, para uma tendência de unanimidade.

Tenho que concordar, assim, com aqueles que dizem que o Brasil anda mais careta agora do que nos tempos da ditadura. Longe de ser um saudosismo bizarro por aqueles tempos, é um sentimento de perplexidade e assombro diante de episódios como este depois que parte do Brasil vem mostrando sua cara nas redes sociais.

Nem preciso dizer que a boçalidade e a mediocridade serão os determinantes de um eventual contra-argumento daqueles para quem o autor do presente texto seria petista, comunista ou baboseiras semelhantes. Não haver transporte para o ex-presidente da República por conta dos problemas de Brumadinho, daí negarem sua ida ao velório do irmão, é um bom argumento para os que escondem seu ódio em atos administrativos “isentos”, para os marqueteiros do subtexto da realidade e para os estrategistas que utilizam a própria tragédia como pretexto para anuviar com nuvens de fatalidade os horizontes dos problemas políticos, sociais e econômicos, além da corrupção.

Obviamente, longe de se defender Lula ou o PT, embora a boçalidade diria o contrário. Se se faz isso com um ex-Presidente da República é compreensível sermos a terceira população carcerária do mundo. Não se toma as dores aqui pelo ser humano preso ou o político preso, mas sim pelos princípios mínimos de institucionalidade democrática. Presidência da República é instituição republicana e não propriedade de quem quer que seja. Assim também os cargos públicos de policiais ou promotores. Ou também vão tirar do Palácio do Planalto o quadro com a foto do ex-presidente ao lado dos outros?

Lembrete: grandes estadistas, políticos e funcionários se comportam também com fidalguia perante os derrotados.

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