Marcos Vinícius foi assassinado pela polícia usando uniforme escolar

Nesta quarta-feira (20/06), Marcos Vinícius, um adolescente de 14 anos, foi morto a tiros pela polícia do Rio de Janeiro.

Aos defensores dos jargões legitimadores dessas ações truculentas e sangrentas do Estado, aos autores das palavras “bandido bom é bandido morto”, a notícia traz algo de novo e chocante: não era um adolescente selecionado pelo sistema criminal, não estava envolvido com drogas, estava vivendo a vida dentro do padrão de “pobre, porém honesto, cidadão de bem”.

Em primeiro plano, é bom lembrar que ainda que se tratasse de um jovem criminalizado, exposto às mazelas da ausência (ou, na verdade, a intensa, cruel e real presença) de um projeto que o incluisse, destinado a entrar para as estatísticas por outra maneira, sendo trancafiado, enjaulado, tendo sua vida e liberdade tomadas pelo Estado, seria necessário que, no mínimo, nos faltasse um pingo de humanidade para assumir que referida ação se justificaria.

Isso porque Marcos, como a gente, era gente, vivia como gente, agia como gente, falava como gente, tinha mãe, como a gente, amigos, colegas, como toda a gente que esquece que era ele também gente.

É que não bastasse todo o drama de viver em uma comunidade marcada pela falta de segurança, de estrutura e de toda aquela listagem bonita de direitos fundamentais garantidos pela ordem constitucional do nosso estado de direito, ainda precisamos provar que foi assassinado e que “olha! Esse não era bandido não”.

É que, na mesma data, seis outros jovens foram mortos, pela mesma ação, mas, “ah… esses eram suspeitos de terem se envolvido na morte de um policial”, então, tudo bem, se eram suspeitos é porque coisa boa não devia ser.

Acontece que quando nos comovemos pela morte de Marcos Vinícius levando em conta tão somente o fato de que ele usava um uniforme escolar no momento em que foi atingido pela polícia, buscamos um elemento de identificação com a vítima para que nos autorizemos a enxergar e sentir a dor do outro.

No entanto, o maior dos elementos, o fato de ele ser gente, como eu e você, deixa de ser fator preponderante, pois muitas vezes, o outro é visto como o inimigo a ser combatido, o diferente, o que não é merecedor de nossa empatia. E, no caso dos assassinatos da juventude pobre, torna-se evidente que há muitos que têm dificuldade de entender que essa violência é contra todos nós, nos poda, nos cala e nos mostra que não é preciso grande esforço para ceifar cabeças inúteis ao aparato estatal.

Não se compadecer do sofrimento de uma mãe que perde um filho de maneira tão brutal diz muito sobre como encaramos com naturalidade a desumanização de setores inteiros da população, como engolimos a seco as teorias que legitimam a perda da liberdade de pessoas que não estão autorizadas a sonhar viver num mundo que lhes pertença.

A comunidade onde Marcos morava é a mesma onde cresceu Marielle Franco, é a mesma onde a vida parece ser um privilégio e é a mesma sobre a qual deveríamos voltar nossos olhos criticamente, em busca de respostas acerca das atrocidades que assolam quem é destinado a viver com medo.

Entretanto é sempre mais fácil deixar de se importar, se acostumar com a barbárie e eventualmente até se identificar com o sofrimento de alguém, mas não por muito tempo, porque a vida é assim mesmo.

Somente em janeiro deste ano, pelo menos 154 pessoas foram mortas pelas polícias do Rio de Janeiro, segundo o Instituto de Segurança Pública. O número de vidas levadas pela ação policial na cidade é o maior dos últimos 10 anos.

Para citar quem deixou o legado de luta e inconformismo em nossas ruas e veias, “quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, Marielle, presente.

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