A República que não é mais de Curitiba nem de lugar algum que possa ser chamado Brasil

A história da Operação Lava Jato e da República de Curitiba ainda está sendo escrita. As informações, documentos e rastros deixados pelos agentes envolvidos na operação vem sendo conhecidos aos poucos, já que ela se encontra viva e ativa na esfera jurídica, policial e política.

Desde que a campanha pelo impeachment de Dilma Roussef ganhou corpo, cientistas sociais e historiadores alertaram para os vínculos entre alguns nomes de destaque da Operação e o Departamento de Estado e interesses norte-americanos. Os defensores da turma de Curitiba sempre gostaram de rir dessas suspeitas e hipóteses, taxando-as de uma forma de “conspiracionismo” barato, embora o aparelhamento do Ministério Público e da Polícia Federal por agentes do FBI estivesse em marcha desde os anos 1990, incentivados por governos do PSDB.

[Ressalto que a minha leitura sobre a formação da Lava-Jato e sua agência era a de que, no âmbito externo, se tratava de uma estratégia da geopolítica americana para trazer o Brasil para sua órbita em um período de acirramento dos conflitos geopolíticos. Os textos que escrevi em 2016 e que se encontram publicados no meu blog testemunham isso, especialmente “A queda do PT — Parte II: política externa brasileira e interesses norte-americanos“.]

Não existe um documento que comprove de forma direta que a Lava Jato tenha sido montada nos Estados Unidos. Mas desde sempre são conhecidos indícios de toda ordem dando conta destes vínculos. Uma das mais importantes consequências das jornadas de junho de 2013 — as mega-manifestações que acabaram por criar o clima propício à crise do governo Dilma e à ascensão dos liberais –, foi a derrubada da PEC 37, que retirava o poder de investigação criminal do Ministério Público, restringido-o à PF e às Polícias Civis.

Manifestações que haviam nascido como protestos contra o aumento de passagens de transportes urbanos e críticas ao aumento do custo de vida e aos péssimos serviços públicos, foram aproveitadas pela Grande Mídia, por uma militância de Procuradores e Juízes, e por youtubers [Anonymous, por exemplo] para barrar essa medida provisória.

Ora, no mês seguinte à derribada da PEC 37, ainda em julho de 2013, se iniciava a Operação Lava Jato com o monitoramento de conversas do doleiro Carlos Habib Charter.

Naquele momento, os Estados Unidos adotavam uma política externa ainda mais agressiva e que conduziu a mudanças de regime na África e na Europa. Logo se veio a saber que o Brasil foi severamente espionado pela NSA, que coletou informações em e-mails de centenas de milhares, talvez milhões, de brasileiros, e grampeou empresas estratégicas, como a Petrobrás, e autoridades diversas, incluindo aí a Presidente da República.

A Força Tarefa da Operação Lava Jato conduziu suas investigações trocando informações com o Departamento de Estado norte-americano, o FBI e outras agências do Big Brother. Essa troca de informações era direta, ”informal”, feita em reuniões discretas, e Deus lá sabe o que foi acordado nelas. Quem quer ser ingênuo e acreditar, de modo surreal, abstrato e apolítico, na mera institucionalidade dessas conversas, que esconda por própria conta a cabeça no buraco.

As ligações pessoais, ideológicas e profissionais dos membros da Força Tarefa da Lava Jato com os Estados Unidos são bem conhecidas a essa altura. A tentativa de derrubar não apenas o PT, mas toda a esfera partidária brasileira, idem. As intenções políticas de alguns de seus artífices, como Sérgio Moro e Dallagnol, também já estão evidenciadas pela ascensão do primeiro a Ministro da Justiça, e transformação do segundo em candidato à Procuradoria Geral da República.

A Lava Jato não tem fim, ela se perpetua e ganha cada vez mais poder e esferas de influência, não só a partir dos instrumentos policialescos acumulados em suas mãos, não só a partir da aliança com a Grande Mídia, não só pelas trocas de informações com espionagem estrangeira, mas pela conquista de espaços estratégicos no Estado.

Em breve, estará ditando os rumos do próprio STF — não só por meio de escutas nos gabinetes dos Ministros, como realizado entre 2014/16 –, já que possui alianças na Presidência do Senado favoráveis à mudança na escolha e no impeachment dos membros da Corte. O próprio Sérgio Moro, aliás, pretende adentrar o círculo de magistrados que tem por função a interpretação última da Constituição.

O novo passo da República de Curitiba para a conquista do poder e a destruição do que restou da soberania pátria veio ao conhecimento público nesse fim de semana. As empresas brasileiras investigadas pela Lava Jato foram processadas na Justiça americana, e isso inclui estatais — uma das consequências da abertura de capital em bolsas é acender velas para ingerências estrangeiras de mais de um tipo. A Petrobrás foi uma dessas que teve de realizar acordos bilionários para que cessassem as ações criminais nos Estados Unidos.

O acordo firmado pela Petrobrás entrega as decisões estratégicas da empresa nas mãos das autoridades estadunidenses. É isso mesmo, uma empresa pública estratégica para o país tem de dar conhecimento de seus passos para outra nação. Não poderia existir símbolo maior dos resultados da Operação Lava Jato.

[Acrescente-se a isso o fato da empresa estar sendo destruída desde o governo Temer, indo na contramão do que fazem as maiores petrolíferas do mundo. Enquanto elas diversificam seus negócios e se preparam para a queda relativa da importância do petróleo no âmbito energético mundial, pensando estrategicamente a médio e longo prazo, a Petrobrás vende ativos, é fatiada, e se concentra na exportação de óleo cru, com o escopo de gerar lucros pros seus acionistas e se gabaritar para uma futura privatização.]

Mas o pior foi a revelação de que o acordo inclui o pagamento de uma penalidade cuja maior parte seria transferida para as ”autoridades brasileiras” por liberalidade da Justiça ianque. Pois bem, os recursos não estão indo para a União. A Força Tarefa curitibana decidiu que vai alimentar uma fundação de natureza privada, ligada à Lava Jato, e destinada a combater a corrupção no país de diversas maneiras.

Trata-se do uso de recursos da Petrobrás para instituir aquele que será o mais poderoso ”think tank” do país, colocado nas mãos de gente como Moro, Dallagnol e quem mais eles escolherem para o conselho da Fundação. A República, que já não pode ser mais tratada candidamente como ”de Curitiba”, ganha recursos para se consolidar de vez como um verdadeiro ”governo paralelo”.

O maior perigo que enfrentamos nessa época nunca esteve no Reino dos Bozós, um Frankenstein que é resultado do desmonte do sistema partidário. É a militância lavajateira, comandada por agentes apátridas, e que estão, pouco a pouco, demolindo não só o edifício político, não só setores vitais da infraestrutura econômica, mas também as instituições que formataram o espaço de independência brasileira no último século.

O círculo cuja face mais visível está em Moro e Dallagnol, eis aí o grupo mais perigoso de inimigos do nosso povo. Eis aí a quinta coluna mais decisiva dessa década. Eis aí a verdadeira ponta de lança por meio do qual os liberais e o imperialismo estão escrevendo um capítulo escabroso e bizarro de escravização do Brasil.

Por André Luiz Dos Reis

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