Sérgio Moro vira pó na mão de Augusto Aras

Após Sérgio Moro ter divulgado ilegalmente interceptação ilegal relacionada à conversa da presidente da República, cometendo, no mínimo, o crime de quebra ilegal de sigilo telefônico, foi promovido, pela Rede Globo, a herói do Brasil. E quem não se lembra do clima de terror instaurado pela Globonews que, ao vivo, com drones e repetições infindáveis sobre o tal Bessias, instigava as pessoas a saírem às ruas naquela tarde de quarta feita, pelo bem do Brasil?  O resto a história a gente conhece. A urdidura do baronato, da mídia e da oposição golpista com apoio da classe média ganhava no áudio um elemento fundamental que subsidiaria a cirurgia política que, inventando um cancro, o tal crime de responsabilidade, retirou a verruga de um governo natimorto.

Longe, porém, de ter sido golpe, como quer a turma que desindustrializou o país, manteve a desigualdade em níveis vergonhosos, assaltou os cofres públicos, arrebentou com a economia e cometeu estelionato eleitoral em 2014. Parênteses necessário. Golpe acontecera cinquenta anos antes, em 1964, e fora apoiado pela classe média, mídia, embaixada americana, baronato e fardados. A trama macabra se cristalizara no momento o presidente da Câmara, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência da República sob os gritos de um indignado Tancredo Neves: “canalhas, canalhas, canalhas”. O golpe fulminou um presidente popular, que tinha apoio social para tocar o mais importante projeto de reforma estrutural proposto por um grupo político: as Reformas de Base. A política tem suas crueldades, mas a História não pode aceitar malvadeza. Obrigado, Haddad: golpe é mesmo uma palavra muito forte. Com impeachment de Dilma, que tinha 6% de aprovação popular, Michel Temer, colocado a linha de sucessão por Lula, assumiu a presidência da República, após o rigoroso rito processual imposto pela Constituição. Avisem o Felipe Neto!

Voltamos a 2016. Áudio vazado. Cunha aceita o pedido. Sessão vergonhosa da Câmara. Costura política no Senado para manter os direitos políticos da presidenta, e guilhotina. Sepultado o governo natimorto, partiu-se para o prêmio dos conspiradores: Lula. O líder do Partido da Lava Jato, mais uma vez, obcecado pelo calendário eleitoral, após ter possibilitado vitória expressiva do PSDB nas eleições de 2016, bateu na cabeça da jararaca em tempo recorde, abrindo o caminho para a tempestiva condenação em segunda instância que tiraria de Lula seu direito de ser votado, conforme lei da Ficha Limpa aprovada pelo ex-presidente.

Corta para 2018. Lula inventa um poste e mata ambições de aliados no nascedouro. Moro, como juiz, faltando uma semana para a eleição, divulga delação conhecidamente capenga de Palocci enquanto é sondado por Paulo Guedes e Mourão, e o fascismo, como todas as pedras do caminho sabiam, vence as eleições contra o PT. Investindo politicamente contra a política, o juiz atinge o píncaro da glória ao ser convidado para compor o governo Bolsonaro em negociação obscura que também poderia ser enquadrada como crime de corrupção passiva, a aceitação de promessa de ser nomeado para o STF quando a vaga surgisse. Enquanto permaneceu à frente do superministério da Justiça e Segurança Pública, realizou um trabalho medíocre, que ficou marcado pelos embates com o chefe e pelas derrotas em relação ao COAF, pelo decreto de flexibilização de armas e pelo recuo de nomeações.

No entanto, ao ser atingido em cheio pela Vaza Jato, se viu na necessidade de não só de aceitar inúmeras humilhações públicas como também de apoiar o acervo legislativo fascista tido por crucial por Bolsonaro, como o excludente de ilicitude, para não se ver isolado. Além disso, ainda trocou a contragosto a superintendência do Rio em 2019 e viu seu pacote anticrime ser civilizado por Marcelo Freixo na Câmara. A verdade é que Moro nunca combateu milícias, e sim as estimulou ao politizar o motim de policiais no Ceará e ter negligenciado o caso Marielle. A tentativa de enquadrar Lula na Lei de Segurança Nacional após este associar Bolsonaro às milícias e a perseguição a grupos punks do interior do Pará que desenharam cartazes contra Bolsonaro evidenciam a ânsia autoritária e bajuladora do herói. Para coroar sua passagem pelo ministério, temos a proposta de isolamento de presos com sintomas de Covid-19 em contêineres.

2020. Com a crise do coronavírus atingindo o Brasil, Moro sumiu. Fiel apenas a sua imagem inacreditavelmente inabalada mesmo após os episódios citados, o ministro da Justiça decidiu desaparecer enquanto Bolsonaro geria a pior crise sanitária do século de forma grotesca. As negociações com o centrão também abalaram as convicções do paladino da antipolítica. A reunião de ministros divulgada a pedido do ex-ministro mostrou um Bolsonaro indignado porque captou a malandragem de ministros que se ausentam nas vacas magras e só aparecem nas vacas gordas. É um recado pra Moro, que, com ambição individual, resolvera fugir para não ser tragado pela crise que seu chefe estava alimentando. O faro político de Moro captou o tamanho da crise e o tamanho da irresponsabilidade de Bolsonaro e, apenas por isso, resolveu pular fora.

Mas tinha que mostrar nobreza ao pular; e Moro sabe criar fatos políticos para preservar sua imagem. Foi assim que chantageou o presidente em relação à troca da Direção Geral da Política Federal. Se Bolsonaro tivesse caído na chantagem, Moro hoje estaria ganhando tempo esperando a cadeira prometida no STF ou amolando a faca para meter nas costas do presidente em tempo hábil para articular sua candidatura em 2022. Então Bolsonaro trucou alto e Moro o apunhalou com as armas que detinha. Em um ato de trairagem, fez o que sabe: chamou a imprensa, denunciou, vazou conversas para o Jornal Nacional, dividiu as redes, agora entre os paladinos da moral e os fanáticos, e… apresentou provas pífias daquilo que denunciou.

Com o país acéfalo, contando mais de mil mortes diárias por coronavírus, Moro cria crise política completamente desnecessária, dobrando o STF a cometer o erro de divulgar reunião completa somente para expor as entranhas do governo Bolsonaro, mostrando ao povo como são feitas as salsichas. O tiro saiu pela culatra. A reunião, como vimos, não prova nenhuma de suas acusações e ainda revela ao povo um presidente resoluto e enérgico. Para a classe média, gera um sentimento de repulsa à política, normal. O mais grave, porém, e o que evidencia a irresponsabilidade de Moro, é o potencial desestabilizador da divulgação, porque exposta no dia seguinte ao ensaio de pacificação nacional em que, reunidos em um comitê de crise composto pelos presidentes das casas legislativas, governadores e presidente da República, finalmente coordenou-se ações contra a crise sanitária e econômica.

Meses atrás, Rosangela Moro, ao comparar Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça, os chamou de “uma coisa só”. São mesmo. São dois projetinhos de ditadores, lacaios do império, incompetentes e irresponsáveis, que colocam suas ambições pessoais acima dos interesses da nação, destruindo aos poucos a República a cada torta tentativa de salvá-la. O Procurador Geral Augusto Aras, mesmo contra a disposição da imprensa de juntar o pó que sobrou da biografia de Sérgio Moro, precisa ser corajoso o bastante para arquivar este inquérito contra o presidente e denunciar o ex-ministro por denunciação caluniosa. Apenas assim a República vai se livrar do vício de promover Moro a cada crime que comete. E quanto a Bolsonaro, o fascista é um problema da oposição e da sociedade livre, que precisa ter a competência política de formar a maioria social para sacá-lo do poder. Não precisamos de Sérgio Moro para isso. E isso também não tem nada a ver com a balela de “união da esquerda”.

O ideal mesmo seria amassar PT, Moro e Bolsonaro na mesma lata de lixo da História. Mas uma coisa de cada vez.

Sérgio Moro vira pó na mão de Augusto Aras

4 Comentários

  • Acabo de ler nesta tarde de sábado, um texto polido, bem escrito e informativo. Parabéns Caio Barros! Você é brilhante!

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  • A esquerda brasileira principalmente o PT se aproxima muito do fascismo,pois para os petistas fascistas quem vem de um modo irresponsável absoluto banalizar a palavra “FASCISMO”todos os eleitores quem são contra as ideologias nefastas dos petistas, que tem o seu lider Luiz Inácio Lula da Silva, que amigo do ex-presidente do Irã Mahmud Ahmadinejad como um bom fascista, nega o holocausto fascista-nazista onde foi exterminado mais de seis milhões de judeus,ciganos,testemunhas de jeova,homossexuais,e prisioneiros,assim fascistas para os petistas e para a esquerda de um modo geral, e todo aquele que defende a ideologia, de flexibilização da CLT copia fascista da La Carta del Lavoro,do fascista Mussulini,fascistas para os petistas e para a esquerda são aqueles que defende menos Estado e mais Ser Humano, mais empresas privadas, do que empresas estatais que são cabides de emprego e sempre fecham no vermelho.Moro um lobo na pele de cordeiro?Moro metido a entender de tudo, e no fundo entende muito pouco,um homem vigativo, porque não lhe deram o posto milionario de ministro do STF?.

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