O teatro jurídico do cancelamento

Por Tiago Medeiros – Cancelamento é uma palavra usada hoje para designar práticas que eram exercidas desde ontem, justificadas pelo pretexto de tornar amanhã o mundo melhor. Mas são movidas por um ressentimento silencioso, indatável – e crônico. Os agentes, os motivos e os métodos do cancelamento são interrogações que atravessam o pensamento por trás deste texto.

Tudo começa pela acusação de crime. Uma conduta intolerável é reconhecida e os atores sociais se mobilizam para lidar com o caso, apurando, responsabilizando e penalizando o seu autor. Utilizam-se de todos os recursos humanos que o teatro jurídico oferece: a vítima, o juiz, o advogado, o promotor, o júri e o réu, e contam com o cenário das redes sociais adaptado para parecer uma corte.

Uma característica dessa dramatização é que apenas o réu tem cadastro de pessoa física. Físico, aliás, sequer poderia ser o seu suposto crime, um exemplar de ocorrências que se dão apenas na esfera do discurso – nos casos de cancelamento, isso é invariável. Cometê-lo é emitir uma opinião, de forma explícita ou semi-explícita, por meio de críticas ou piadas de gosto suspeito dirigidas a feitos e símbolos que são protegidos pela blindagem do lugar de fala. Quem identifica o crime, o qualifica e o apura, quem acusa o criminoso, opina a seu respeito e sanciona sobre o seu destino, é normalmente o mesmo agente beneficiado pelo anonimato do comportamento em massa. É quem detém um trunfo que liquida qualquer álibi alegável para atenuar o caso: o lugar de fala, necessariamente negado ao cancelado. O réu algoz é sempre um indivíduo de carne e osso, com número de RG, CPF e quilos de incerteza; a vítima, sempre uma entidade genérica, dispersa, moralmente ilibada e carregada de razão.

O crime, de onde tudo parte, deriva a sua tipificação do arbítrio da autoproclamada vítima. O teor de gravidade é notado e intensificado pela truculência acusatória do texto da promotoria. A crueldade é, então, reconhecida pelo júri, de quem não se pode esperar senão um intrépido veredito pela culpabilidade do acusado. E, antes que a defesa emita qualquer posição, o juiz sanciona, respaldado pela jurisprudência do Zeitgeist digital, a pena aguardada e previsível: o cancelamento.

O que essa sanção mira – e que costuma alcançar – é a produção de uma mancha na reputação de alguém. Uma mácula tatuada em quem espera ter lugar – e nem precisa ser o de fala – entre os que se empenham em operar os cancelamentos. A chave para se entender esse teatro está justamente aí. Só pode ser cancelado aquele para quem é importante estar no mesmo clube dos canceladores, alguém cuja autoimagem é indissociável da moralidade que os beneficia. Isso confere ao cancelamento uma mística de ritual de sacrifício de companheiros de jornada convertidos em traidores. Não é, portanto, coincidência que todo candidato ao cancelamento venha a ser alguém que preza por uma reputação respeitável entre os canceladores, ao passo que quem os despreza seja simplesmente incancelável.

O choque causado pela afirmação do então candidato Jair Bolsonaro sobre quilombolas pesarem arroubas não foi tão mobilizador do cancelamento à época, quanto o são agora a crítica de Lília Schwartz ao clipe da Beyonce – em expressão explícita de correção emitida por quem academicamente domina um assunto que escapou aos produtores do vídeo –, ou a piada de Fernando Haddad sobre haver Casagrande que valha a pena – em posicionamento visivelmente irônico sobre o repercurtido caso do jogador acusado de estupro. Nesse roteiro, só faz sentido cancelar quem sempre se acumpliciou dos canceladores para compartilhar um mesmo mundo, inclusive engrossando o caldo de acusações a outrem. Mas não só isso! Só faz sentido cancelar aquele que está em situação propícia de pedir desculpas pelo juízo que dele estão a fazer.

A encenação jurídica do cancelamento é surreal pela overdose de conluios que a atravessa e pela concentração das funções em um mesmo agente que a caracteriza. Todo cancelador é, primeiramente, a vítima: a ele cabe a denúncia do crime e a indicação do criminoso. Mas ele é também promotor, cabendo-lhe o elenco das ilegalidades cometidas pelo criminoso e a inflamação contra a conduta do incauto autor. Ele é, inclusive, o júri, empenhando-se em absorver de si mesmo a dramatização do episódio a respeito do qual emite o juízo pela culpabilidade do réu desde a denúncia. O roteiro tem a sua conclusão na pena, martelada pelo juiz do caso, que, novamente, é o próprio cancelador. Essa polivalência implica a impossibilidade de se demonstrar a inocência do acusado, o que dispensa retrospectivamente a necessidade de presumi-la.

Invertendo a dinâmica da justiça, só após a emissão desse juízo irrevogável, a defesa envida qualquer investimento, mas não para contrariar o veredito, senão para dizer que o réu está disposto a admitir a culpa, renunciar à inocência e reconhecer que precisa aprender mais com os acusadores. Calam-se inermes os paladinos das minorias, agora que assistem partir contra eles uma onda de ataques, insultos e cerceamentos de pessoas com quem eles pensavam ter estabelecido uma aliança insolúvel.

Engana-se quem pensa que essa prática é tecnologia nova. Ela é manipulada há tempos, antes mesmo de Olavo de Carvalho e Steve Bannon inscreverem em seu chip comandos anti-esquerdistas e a utilizarem com suas próprias finalidades. Ela foi disparada em cada circunstância que esquerdistas acusaram de defeito moral intrínseco e incurável um rival político de ocasião. Foi acionada em inúmeros ambientes universitários, políticos, de sindicato… foi instrumento da ambição por neutralizar – mais do que contrariar – a presença da direita, mesmo a democrática, e de monopolizar o estatuto do ser de esquerda, mesmo contra o fascismo. (Não seria um proto-cancelamento o que pintou na campanha de difamação contra o Sr. Ciro Gomes alimentada pelo agora cancelado Haddad, no episódio da ida a Paris?)

O teatro jurídico do cancelamento é o desfecho da agenda das esquerdas brasileiras no século XXI. Sem horizontes, sem rumos, sem hierarquia de prioridades, os esquerdistas se deitam sobre um moralismo precário que combate a própria precariedade com mais moralismo, em um regime de autofagia mecânica e incessante nos termos em que tem se dado. A munição da intelectualidade francesa, que centraliza a normatividade do empoderamento no âmbito dos discursos e na denúncia sobre o uso correto das palavras, que exerce tanta influência no Brasil, agrava o quadro de aporia e de perplexidade em que essa militância atua.

Não é difícil concluir que o silêncio diante do cancelamento, ou o acato à sua arbitrariedade, é precedente para condenações irresponsáveis ainda por vir, tanto de pessoas injustamente feridas em sua reputação, como também do próprio pensamento e militância progressistas, agora enodoado pela pecha desse esquerdismo ressentido e revanchista de cepa identitária. Convém aos progressistas (militantes, intelectuais, porta-vozes, veículos de comunicação), não só denunciar o absurdo do cancelamento e o seu teatro macabro, como também mitigar a influência do pensamento e das práticas que, sem compromisso algum com o futuro, desagregam os agentes e as bandeiras que realmente combatem e representam oposição ao reacionarismo. Cancelar o cancelamento, sem cancelar os canceladores é um primeiro passo.

Por: Tiago Medeiros.
Doutor em Filosofia. Professor do Instituto Federal da Bahia. Membro do Laboratório de Estudos Brasil Profundo (IFBA) e do GT Poética Pragmática (UFBA).

1 Comentário

  • Este texto é primoroso. Poderia meter ainda mais o dedo na ferida mencionando o financiamento que a cultura do cancelamento recebe do capitalismo especulativo predatório internacional, obcecado em destruir as culturas nacionais, intermediado por uma mídia que apodrece a olhos vistos, ainda que (ou justamente por ser?) bancada pelos mesmos financistas.

    E lamento não compartilhar do otimismo do autor, mas não vejo a menor possibilidade de se cancelar o cancelamento sem cancelar os canceladores, justamente devido ao fato de estes serem financiados desde o estrangeiro, que tem por objetivo inegociável destruir o nacional. Ou se submete definitivamente a eles (mas a troco de quê? Facilitar-lhes a destruição do país?), ou se engaja na luta contra eles.

    Se não entendermos que Soros é uma ameaça várias ordens de magnitude maior do que a aliança entre o capital nacional e o militarismo, aí sim é que o país regride a mero celeiro exportador de soja. Se não aceitarmos a dolorosa missão que os tempos nos impõem, que é reconhecer que o cancelamento, gestado dentro das universidades e do meio intelectual, fruto e evidência de erros crassos da elite intelectual, é o verdadeiro fascismo e então combatê-lo, a reação bolsonarista o combaterá e vencerá.

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