GILBERTO MARINGONI: Apurem os vínculos Lava-Jato e FBI, mas não é a questão central!

É ótimo que a Lava Jato tenha suas vísceras e suas ligações com o FBI expostas à luz do dia, a partir de um trabalho excepcional do consórcio Intercept/ Pública. E também é ótimo que a Operação, tentando se relegitimar diante da opinião pública, avance sobre José Serra e o grão-tucanato. Os responsáveis – em especial Moro e Dallagnol – devem ser processados e exemplarmente punidos.

No entanto, as oposições errarão feio se transformarem tais eventos no centro de sua atuação. Não são.

A QUESTÃO CENTRAL DA CONJUNTURA é aquilo que atinge e aflige todo o povo brasileiro, a pandemia e seu sócio e investidor Jair Bolsonaro.

Num momento em que a matança alcança mais de 60 mil brasileiros e em que a contaminação aproxima-se de 1,5 milhão de pessoas, com todas as subnotificações daí advindas, é essencial vincular o terror viral ao terror governamental. E há plenas condições de se fazer isso.

OS PONTOS MAIS IMPORTANTES da pesquisa Datafolha, divulgada semana passada, não estão na aprovação de Bolsonaro, que se mantém constante ao redor de 30% de ótimo/bom desde o início do ano. (Vale sempre a pena baixar a íntegra da pesquisa e não apenas sua divulgação nos jornais).

A pesquisa é eloquente na avaliação da atuação do Ministério da Saúde. Enquanto 76% dos entrevistados a consideravam ótima ou boa no início de abril (gestão Mandetta), agora apenas 33% têm a mesma percepção. Um tombo de 43% em três meses!

O segundo ponto notável na sondagem é a opinião dos entrevistados se o presidente mais ajuda ou mais atrapalha no combate à doença. Os que responderam mais atrapalha eram 51% na primeira semana de abril e são 61% no final de junho!

APESAR DISSO, A GRANDE MAIORIA ainda vê a matança como fatalidade, castigo divino ou azar dos tempos. Essa parece ser a percepção da maioria da oposição, com raras – e boas – exceções. Ou seja, naturalizou-se a Covid-19 como figura da paisagem. Em reuniões de grandes agremiações debatem-se eleições municipais, formação de chapas, regras de conduta para se entrar em uma frente, perspectivas para 2022, o mundo pós-pandemia e assemelhados, mas pouco da vida real.

BOLSONARO APOSTA E INVESTE no caos social. Há toda sorte de dificuldades para financiamento e crédito das pequenas e médias empresas – mais de 500 mil quebraram desde o início da peste – e faz gestos de puro desprezo pela vida, como o veto às regras para o uso de máscaras. Ao mesmo tempo, governadores e prefeitos – de todos os partidos! – pressionados pelo empresariado e desafiados pelo governo federal – até com polícia na porta – cedem nas políticas de isolamento.

RESUMINDO: numa situação em que há vários inimigos em campo, é preciso organizar e concentrar forças. Identificar o inimigo principal e definir a oportunidade, a intensidade e a qualidade do ataque contra ele é a única forma de se buscar alguma chance de vitória.

É forçoso perceber que na questão principal, apesar de todo o isolamento que sofre nas instituições, Bolsonaro vai vencendo, junto com a doença.

A pandemia vai acabar, é certo. O que não se sabe é quanto do Brasil acabará junto.

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