NELSON MARCONI: A fábula do emprego de João e Maria e a taxa de câmbio

João e Maria estavam muito felizes porque conseguiram novos empregos. Cada um iria receber 5.000 dólares, e ficaram contentes ao saber que seus salários seriam estabelecidos na moeda americana (mas seriam convertidos para reais na data do pagamento, logicamente). Imaginaram que seu poder de compra seria suficiente para comprar os importados e fazer as viagens para o exterior que quisessem.

Entretanto, com o passar dos meses, o Real começou a se valorizar e o valor de seus salários (que eram pagos em moeda nacional, é sempre bom lembrar) começou a se reduzir. João e Maria ficaram preocupados, foram conversar com seu chefe, que disse para eles serem mais produtivos e trabalharem mais horas no dia. Dessa forma, os ganhos adicionais, decorrentes das horas extras, compensariam a valorização da moeda; afinal, eles que deixassem de ser acomodados e corressem atrás de aumentar sua produtividade. Além disso, disse o chefe, os produtos importados que eles comprassem estariam mais baratos, considerando o preço em reais, o que elevaria o poder de compra deles.

João e Maria foram para casa satisfeitos, passaram a fazer mais horas extras, chegavam em casa arrasados de tão cansados, mas conseguiam comprar mais novidades importadas e sentiam-se felizes. Nas férias resolveram viajar para Miami e comprar ainda mais importados. Voltaram com a mala cheia e no dia seguinte foram trabalhar. Quando chegaram ao escritório, foram imediatamente chamados no RH: estavam demitidos. Foram conversar com o, naquela altura, ex-chefe, e ele argumentou que a produção tinha caído muito, em virtude da invasão de importados no mercado, e a empresa estava fazendo um ajuste no emprego em virtude da redução na produção.

Sem mais, foram para casa, passaram alguns meses procurando outros empregos e, por fim, decidiram montar um food-truck. Era a melhor opção dentre as disponíveis. Também pensaram em abrir uma escola de gastronomia, pois eles cozinhavam muito bem, mas resolveram analisar o mercado antes; perceberam que com a moeda valorizada, outras escolas já tinham atraído vários chefs estrangeiros, cujo salário, ainda que fixado em dólares, tornava-se baixo quando convertido em reais, para quem fosse pagá-lo, e eles não conseguiriam concorrer neste mercado. De quebra, João “fazia um uberzinho” de vez em quando para ajudar. Eles preferiam a vida anterior, certamente – emprego bom, com carteira assinada, plano de saúde, férias etc., mas não tinham mais opção – aprenderam que teriam que se virar como autônomos dali para frente. Não que suas novas atividades não sejam importantes, e com certeza o são; todos nós precisamos nos alimentar fora de casa e o transporte compartilhado tem ajuda muito a todos, mas não podem se constituir em uma das principais alternativas de ocupações geradas em uma sociedade. Do contrário, não há como elevar consistentemente a renda per capita de um país.

Pobres João e Maria, e pobres brasileiros que não percebem os efeitos de médio e longo prazo da valorização cambial. São convencidos, muitas vezes, por supostos formadores de opinião que, aproveitando-se da confusão que esse efeito temporariamente benéfico da taxa de câmbio valorizada causa sobre o bem-estar das pessoas e, argumentando que o problema é a ineficiência das empresas, que precisam se tornar mais produtivas, tentam se promover com argumentos rasos, defendendo saídas mais fáceis e de curto prazo que deterioram a estrutura produtiva do país e impedem a geração de empregos de qualidade, mas geram ganhos para muita gente que não produz nada de relevante para o país. Tais comentários têm um impacto negativo no debate sobre a prosperidade do país.

Não se pode brincar com a taxa de câmbio. É um preço muito importante para a economia, e principalmente para os setores que possuem margem de lucro mais estreita, como a indústria de média e alta tecnologia e os serviços modernos. Já expliquei várias vezes o papel da taxa de câmbio no processo de desenvolvimento: taxa de câmbio valorizada significa margem de lucro baixa, vazamento da demanda para o exterior, redução de investimentos, emprego e perda de produtividade. Esse é o sentido da causalidade, e não contrário. Mas hoje vou me preocupar com as críticas, que vêm tanto da direita como da esquerda, sobre a defesa da manutenção da taxa de câmbio em um patamar competitivo. Vamos a elas.

Primeiramente, argumenta-se que a existência de um regime de metas de inflação é incompatível com a defesa de uma taxa de câmbio em um patamar competitivo (o que não significa um patamar fixo!), pois a lógica do regime de metas consiste na administração da taxa de juros que, ao ser definida pelo Banco Central e nortear as demais taxas do mercado (não é o que se vê hoje, de toda forma), impacta o nível de atividade via investimento e consumo, mas, também, via mudanças na taxa de câmbio, que causam variações na produção destinada à exportação e nas importações também. Portanto, o modelo do regime de metas traz implícita, mas ninguém fala isso, o pressuposto de que a função da taxa de câmbio é controlar a inflação; para isso, deve ser variável, e o impacto dessas suas oscilações e, pior, de suas apreciações sobre a estrutura produtiva, seria irrelevante.

E por que não seria relevante? Primeiro, porque para alguns tanto faz o Brasil ser exportador de primários ou produtor e exportador de bens de alta tecnologia. Para eles, devemos apenas produzir aquilo em que possuímos vantagens comparativas. Essa história é mais velha que a carochinha e o próprio processo de desenvolvimento econômico das nações ricas já a tornou infundada. O segundo argumento, mais sofisticado, reside no fato de que a valorização barateia as importações de insumos e bens de capital e, portanto, tornaria nossa indústria mais competitiva, inclusive no exterior.

O gráfico abaixo mostra que isso decididamente não ocorreu no Brasil. Nele são comparados: 1) o grau de abertura líquido das exportações (as barras no gráfico, eixo da esquerda, em %), calculado pela Funcex e CNI, e que corresponde às exportações subtraídas do consumo de insumos importados, divididas pelo valor da produção. Os efeitos das variações de preços já estão descontados da série; 2) a diferença entre a taxa real de câmbio observada e a necessária (as linhas no gráfico, eixo da direita, em número índice), sendo essa última calculada como uma compensação da diferença entre o custo unitário do trabalho no Brasil e em seus parceiros comerciais. Um índice maior que 100 significa que a taxa real observada é maior que a necessária e vice-versa. É uma forma de calcular a apreciação ou depreciação de nossa moeda. Pois bem, quando comparamos as duas séries, nota-se que a valorização da moeda é acompanhada, ao longo da série, por uma redução no coeficiente de abertura líquida, chegando a ser negativo em 2014, e vice-versa; logo, o aumento das importações, em períodos de valorização da moeda, não parece ter resultado em aumento mais que proporcional de nossas exportações e maior competitividade externa. Como lição, fica a dica: abertura comercial é muito bom, concordo, mas depois que colocarmos a casa em ordem, isso é, câmbio e juros no lugar, custo do capital competitivo, infraestrutura adequada, dentre outros. Do contrário, só quebra a indústria.

Nelson Marconi Coeficiente de exportações líquidas e taxa de câmbio efetiva

Mas e a inflação, como resolvemos se o câmbio não for flexível? Existem outros instrumentos que ajudam a controlá-la, e não apenas juros e câmbio. A política fiscal é a mais importante, auxiliada por uma ampla desindexação da economia. Ademais, a própria estabilidade da taxa de câmbio em um novo patamar ajuda a evitar altas da inflação. Assim, o impacto inicial de uma pequena correção na taxa de câmbio, que por sua vez também não é elevado, como muitos estudos demonstram, seria neutralizado pela política fiscal e pela desindexação, ainda mais em um cenário com elevada capacidade ociosa como o da economia brasileira atualmente. Com inflação não se brinca, mas não podemos jogar todo o peso do seu controle apenas sobre a taxa de juros e de câmbio. Há, conforme acabei de descrever, pelo menos mais dois instrumentos para auxiliar nesse processo.

E daí vem mais uma crítica, ligada à questão da inflação, dessa vez daqueles que entendem a manutenção de uma taxa de câmbio competitiva como uma forma de provocar perdas salariais. Primeiro, fica claro que eles preferem defender os ganhos de curto prazo da apreciação, como os de João e Maria, e deixar sua renda futura a depender do uber e do food truck. Segundo, eles não entendem que uma correção nominal da moeda, para se tornar uma correção real e ser bem sucedida, não pode provocar uma aceleração relevante da inflação; do contrário, a correção nominal não se torna real e fracassa. Certamente a política econômica deve evitar esse processo. A alta da taxa de câmbio deve provocar uma mudança entre os preços e serviços comercializáveis com o exterior e os não comercializáveis, isso sim. Se, nesse processo, como descrito anteriormente, não há aceleração relevante da inflação, não há porque achar que o salário real irá cair. Na verdade, o poder de compra dos trabalhadores ficará relativamente estável a princípio e começará a subir à medida que o investimento for sendo retomado. Não há outra solução consistente fora desse espectro. Mas uma parcela dos economistas, analistas econômicos, blogueiros e outros continua defendendo esse fantasma do arrocho salarial.

Vamos torcer para que as pessoas comecem a perceber que a alternativa da sobrevalorização é inviável. Já prejudicou muito o próprio nível de emprego. E por fim, que fique bem claro: o acerto de câmbio e juros depende do equilíbrio fiscal. E para quem quiser me chamar de fiscalmente irresponsável, eu mostro a minha contribuição para o ajuste fiscal em uma área bem complicada, da despesa com pessoal, à época em que estive no governo. É muito, muito maior que a realizada pela ampla maioria dos meus críticos.

Por Nelson Marconi, professor e coordenador do Fórum de Economia e do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo.

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