Aço e Projeto Nacional: a guerra comercial de Trump

Trump tweetou em 2 de março uma justificativa para elevação da taxa de importação de aço nos Estados Unidos: não há país sem aço. Getúlio Vargas disse algo semelhante para justificar a criação da Petrobras: “quem entrega seu petróleo, aliena sua própria independência”.

Não que essas duas figuras tenham a mesma genialidade política. Trump precisaria comer muito feijão com arroz, ou melhor, fabricar muito aço para chegar aos pés de Getúlio, que obteve dos próprios americanos, durante a Segunda Guerra, financiamento do Export-Import Bank para construir a CSN e fabricar justamente… aço, além de iniciar a construção de um Estado nacional na periferia do capitalismo no início do século XX. Mas é curioso notar como o projeto nacional se coloca acima das paixões políticas do momento e passa a ser a pauta central do debate democrático. Nos EUA, isso é perene; no Brasil, infelizmente, intermitente.

 

O tweet de Trump vem logo depois da decisão do governo norte-americano de taxar em 25% a importação de aço. Os maiores prejudicados serão Brasil e Canadá, que respondem por 13% e 16% do total de importações dos EUA.

No Brasil, os efeitos podem ser devastadores, já que os EUA são o maior destinatário de aço produzido aqui, absorvendo quase um terço da produção. Só com a divulgação da notícia de taxação do aço, as siderúrgicas brasileiras perderam quase R$ 2 bilhões em valor de mercado.

Mas os Estados Unidos não seriam a pátria do livre comércio? Sim e não. Ou melhor: são quando lhes convêm. Erik Reinert já apontou que existem dois tipos de americanos: os jeffersonianos e os hamiltonianos. Os primeiros se encarregam da retórica (a “globalização”, o “livre mercado”, o reino “da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham” etc.); os segundos, da política, do gerenciamento pragmático do maior império do mundo. Quando prejuízos bilionários são constatados pela importação de um insumo fundamental para a indústria de um país central, a mão invisível do interesse privado é rapidamente substituída pela mão visível e pesada do governo. Os jeffersonianos discretamente saem de cena para os hamiltonianos entrarem, se é que tenham alguma vez saído.

Trump apenas repete (talvez de maneira farsesca) a tradição de se pensar projeto nacional a todo instante. O Império Americano não é um império à toa. Moniz Bandeira nos ensina que desde a Guerra contra a Espanha um Império foi formado tendo em vista apenas um objetivo principal: consolidar-se continuamente como a maior potência mundial.

Já é sabido que os Estados Unidos possuem uma arquitetura jurídica vertida à defesa de sua soberania econômica: o Buy American Act, a DARPA, a Super 301, o Omnibus Foreign Trade and Competitiveness Act e o CFIUS, por exemplo, destacados em coluna anterior, não nos deixam mentir.

O que nos resta é saber se o Brasil vai encarar o desafio que o século XXI apresenta a partir de nosso famoso liberalismo servil à brasileira ou a partir de um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento, que inexiste no atual governo. Aliás, é justamente isso que está em jogo nas próximas eleições. Que as águas de outubro tragam o projeto da casa e a promessa de vida para os brasileiros.

 

 

 

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