ELIAS JABBOUR: Socialismo de mercado e a dinâmica da agricultura chinesa

Em apenas quinze anos a China conseguiu construir o maior e mais sofisticado sistema de inovação tecnológica aplicada à agricultura do mundo. Dados divulgados pelo Serviço de Pesquisas Econômicas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos demonstram que o país já investe mais em P & D à agricultura do que os EUA, Brasil e Índia juntos.

O país, ao que tudo indica, está disposto a colocar o dedo (e as mãos) sobre o controle das cadeais globais de valor “agri-food”. Passo significativo nesse sentido foi dado pela aquisição da Singenta – empresa esta parte integrante de um grande oligopólio internacional na área de insumos agrícolas – pela empresa estatal chinesa ChemChina por US$ 43 bilhões. Com os investimentos em infra-estruturas nos útimos 20 anos e a transição de uma agricultura taxada para uma agricultura altamente subsidiada acrescida de recentes mudanças institucionais (permitindo transferência de concessões de terra, por exemplo) na agricultura indicam que a pequena produção mercantil está sendo, de forma planificada, substituída por formas superiores de propriedade com características muito peculiares e que demandam maiores investigações.

Não percebo o surgimento de um tipo de propriedade socialista “pura”, algo muito distante, diga-se de passagem. A vontade humana não pautam as leis da natureza. Observo de forma “heterodoxa”, vamos assim dizer que na dinâmica dos modos de produção que formam a “nova formação econômico-social” (socialismo de mercado) algo de muito novo surgirá do mix entre financiamento público feito por um grande banco de desenvolvimento rural + capitalistas privados citadinos dispostos a entrar no jogo da produção em grande escala de alimentos + formas cooperativizadas de organização da produção + propriedade estatal da terra. Indico o surgimento de um modo de produção na agricultura chinesa de natureza distinta às que prevalecem nas agriculturas do mundo capitalista.

Todo esse processo é mais um capítulo do desenvolvimento de um “mercado fabricado” e que acaba dando rumo e sentido a um socialismo que não tem condições de viver de bravatas e demarcações de fronteira e que as respostas colhidas entre os séculos XIX e XX não tem a menor serventia. Não se trata de uma eleição de grêmio ou DCE. Trata-se de um socialismo que busca furar a bolha de todos os oligopólios formados pela etapa monopolista do capitalismo. Quem conseguir fazer isso tudo melhor do que os chineses que se apresente, por favor.

Por: Elias Jabbour.

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