A Alemanha e o fim do liberalismo

A notícia de que a Alemanha se lançou à guerra econômica desencadeada por EUA e China é provavelmente o acontecimento mais importante da economia internacional em 2019, até agora.

O projeto alemão faz parte da chamada Nationale Industriestrategie 2030 (Estratégia Nacional para a Indústria 2030), capitaneada pelo Ministro da Economia Peter Altmeier. Entre diversas medidas, trata-se de criar um fundo estatal para adquirir partes de empresas alemãs que correm o risco de serem controladas por investidores externos.

Em outras palavras, o Estado alemão vai atuar para impedir a alienação de empresas estratégicas que se encontram na mira do capital estrangeiro. No alvo do governo estão companhias como Thyssenkrupp, Siemens, e empresas automobilísticas alemãs.

Não é uma estratégia de criação de “Campeões Nacionais”, mas de proteção desses gigantes que já existem. O fundo será responsável por operar nacionalizações parciais e temporárias, com o objetivo de alavancar a competitividade estratégica do capital alemão contra o capital internacional.

O investimento estrangeiro direto (IED) possui natureza de permanência na economia receptora, participação ativa na administração empresarial e, acima de tudo, controle das atividades da empresa que recebe os investimentos. O governo alemão certamente reconhece os riscos de deixar as decisões fundamentais da indústria cairem em mãos de investidores estrangeiros, claras ou não as ligações destes com seus respectivos Estados/governos.

mainstream econômico, corrente interpretativa que domina a mídia brasileira, quase nada tem a contribuir para esse debate. Suas suposições os levam a concluir que o comportamento empresarial é influenciado unicamente pelas condições e pela lógica do mercado.

Não à toa o noticiário nacional trata a entrega da Embraer, da Braskem e da Eletrobrás, sem contar o impiedoso ataque do Poder Judiciário a gigantes brasileiras do setor de construção e a ofensiva interminável sobre a Petrobras, como meras nuances do mundo dos negócios. A lógica do mercado impõe um véu sobre a discussão, e tudo não passa de reflexão acerca da “eficiência” em abstrato das empresas estratégicas do nosso país.

O que a Alemanha enterra de vez com seu projeto de longo prazo para a indústria nacional é exatamente essa abstração: se uma empresa é eficiente nas mãos do capital nacional é algo, sim, muito diferente de ser eficiente sob o controle de investidores estrangeiros. Quando a finalidade de uma empresa é estratégica para a posição de um Estado Nacional na hierarquia internacional do poder, o controle material e concreto sobre suas atividades importa mais do que qualquer outro elemento da discussão.

Controlar uma empresa é decidir sobre o seu orçamento, sobre a contratação de funcionários, sobre a compra de insumos, sobre a política de investimentos em setores sensíveis. Assim, uma empresa controlada pelo capital estrangeiro pode, por exemplo, contratar funcionários estrangeiros ao invés de locais, ou comprar insumos de fornecedores estrangeiros ao invés de fornecedores nacionais.

Ainda pior, se uma empresa que desempenha papel fundamental para um setor como o de Defesa passar a ser controlada por investidores externos, a nova administração empresarial pode resolver encerrar tais atividades setoriais, deixando uma Nação inteira a depender militarmente (perdendo autonomia econômica, por consequência) de recursos de defesa estrangeiros.

Ocorre que o anúncio alemão surpreende pouco, visto que os EUA estão fortalecendo seu Committee on Foreign Investment in the United States (CFIUS), comitê americano destinado a supervisionar os investimentos estrangeiros conforme exigências de segurança nacional e de soberania econômica.

Além dos Estados Unidos e, agora, da Alemanha, o protecionismo é a base da política econômica da China. A França, no ano passado, nacionalizou temporariamente os estaleiros navais de Saint-Nazaire, com a justificativa de que o grupo italiano Fincantieri, que pretendia adquirir os estaleiros, possui ligações com investidores chineses. 

Boa parte do Brexit atravessa a questão do retorno ao protecionismo econômico, e o Reino Unido também realizou nacionalizações no setor ferroviário e prisional em 2018. A Rússia, a Itália e a Hungria vivem processos semelhantes, e em alguns casos mais radicais de protecionismo.

Segundo Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, quanto mais multipolar a distribuição de poder no mundo, maior a tendência ao bilateralismo. Isso ocorre porque o único jeito de deter muitos participantes numa ordem com princípios e regras estabelecidos é se houver um poder dominante com capacidade de unificação e coação.

Se as políticas econômicas mundo afora retornam ao protecionismo, com direito à Guerra Comercial entre EUA e China, além da opção explícita pelo bilateralismo ao invés de grandes acordos multilaterais de comércio (iniciativa desencadeada pelo abandono do TPP – Tratado de Associação Transpacífico pelos EUA no início do governo Trump), isso resulta do declínio relativo da economia americana frente à economia chinesa, e o consequente esfacelamento do sistema econômico internacional construído após a Segunda Guerra Mundial (ou do que restava dele).

Com a ascensão da China, primeiro os aliados europeus tentaram convencer os EUA a continuar tutelando a ordem econômica internacional, pois uma economia global liderada pelos chineses não daria o mesmo espaço de decisão ao Ocidente desenvolvido.

Não funcionou, pois tornou-se extremamente custoso, econômica e socialmente, aos Estados Unidos, simultaneamente liderar a globalização, enfrentar baixas taxas de crescimento, desemprego, déficits comerciais e sustentar seus objetivos militares mundo afora.

Sem deixar de lado, é claro, o fato de que pela primeira vez os EUA possuem um competidor à altura. A solidez do projeto estratégico chinês é incomparável às escassas possibilidades que detiveram URSS e Japão na segunda metade do século XX.

Agora, o realismo venceu e também a Alemanha foi arrastada ao novo estado de coisas. Resta saber até quando o Brasil insistirá em seguir o caminho contrário, meramente ideológico, abrindo mão de empresas estratégicas e de uma posição autônoma.

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