Bolsonaro e a relação com os EUA e China – A Reversão Colonial

O governo Bolsonaro parece abrigar tendências que representam a luta dos diferentes interesses das duas grandes potências que agora disputam o Brasil. O país é um terreno privilegiado onde se desenha uma disputa entre o capital norte-americano e o chinês, que neste momento protagonizam uma guerra silenciosa (por enquanto) pelos diferentes pontos estratégicos da economia mundial.

Se antes essa batalha ocorria de forma “subterrânea”, com o aumento da tensão entre China e EUA causada pela atual guerra comercial, está cada vez mais nítida a formação de facções que lutam pelo apoio de cada uma dessas nações. Há uma dúvida dentro da elite política e econômica brasileira sobre qual economia central, se a norte-americana ou a chinesa, o país deve acompanhar nesse embate de escala mundial que se projeta no futuro próximo. A burguesia brasileira ainda hesita sobre os rumos de sua política externa.

Existem os grupos políticos que se ligam aos interesses do agronegócio e estão intimamente conectados ao processo expansionista chinês. Por isso defendem uma relação estreita com o governo de Pequim e temem as declarações mais incisivas do governo brasileiro de apoio aos norte-americanos. Esse setor tenta atuar para arrefecer o ímpeto de Bolsonaro de se alinhar automaticamente aos EUA e de suas declarações, que antes da eleição atacavam os chineses. Há de imediato a preocupação com o impacto de um afastamento da China e o resultado de tal postura nas exportações de commodities, que repercutem na grande mídia e que são expostas pela mesma como uma preocupação “racional”.

Os chineses tentam reproduzir com o Brasil uma típica relação de centro-periferia, em que o nosso país se transforma em fornecedor de matérias-primas com pouco valor e conhecimento agregado, como soja e ferro bruto, enquanto importa dos chineses máquinas, produtos tecnológicos, industriais e capitais. Ligar-se de forma subordinada aos interesses chineses, como desejam setores dentro do governo e do agronegócio, é reeditar sob novas máscaras a conhecida relação entre uma economia de tipo colonial e outra de caráter imperialista e metropolitano. Processo que relembra, embora em contexto histórico completamente distinto, a troca de senhores ocorrida após a Primeira Guerra Mundial, na qual os EUA assumem o lugar antes ocupado pela Inglaterra diante do Brasil e do mundo.

De outro lado, Bolsonaro parece mais inclinado a um retorno a nossa velha relação subordinada com os americanos. Um misto de ideias tresloucadas de grupos de extrema-direita (apoiada pelas alas olavistas e figuras como o chanceler Ernesto Araújo), mas também de interesses orgânicos de setores da elite econômica brasileira, que têm suas relações estabelecidas tradicionalmente com os estadunidenses. Trata-se do velho desejo colonial que tão bem conhecemos. E desta solução sabemos o que esperar: apenas mais do mesmo, subordinação centro-periferia.

Trata-se de uma reação. A ascendência da economia norte-americana sobre o Brasil hoje se vê reduzida pela ação forte dos chineses no país. Esse cenário foi gestado tanto por anos de desinteresse estadunidense, quanto pela distância que os governos de Lula e Dilma acharam prudente estabelecer em face dos mandatários americanos. E há outro aspecto nesta luta: a presença dos europeus, através do tratado de livre-comércio com o Mercosul, que tenta recolocar esse canto do globo sob o velho traje colonial de forma ainda mais explícita. O que esse tratado representará e como isso se manifestará nos interesses econômicos e na luta política, ainda teremos que observar.

Some-se ainda à ação desses países, que procuram manter o Brasil como um fornecedor de commodities, a atuação interna do governo Bolsonaro, que tenta destruir em ritmo acelerado toda a proteção aos trabalhadores e diminuir ainda mais a intervenção do estado brasileiro na economia, reforçando seu Modelo Liberal Periférico1. Todas essas atitudes caminham no mesmo sentido, de destruir o esboço de projeto autônomo e independente do Brasil construído no século XX e o esboço de estado de bem-estar social criado pela Constituição de 1988, reforçando uma reconversão colonial.

Portanto, o que podemos perceber é que independente do caminho que a elite econômica e política escolha, nenhum deles auxiliará a independência e soberania do Brasil. As duas trajetórias recolocarão em novos termos o velho papel colonial de nossa economia, algo que tentamos abandonar durante o século XX. Esse embate das diferentes alas do governo, que representam diferentes interesses ligados a diferentes países centrais, não apresentará nenhuma resposta efetiva aos reais problemas do povo brasileiro, pois somente através do desenvolvimento de um projeto nacional, com presença do estado brasileiro como instrumento de ação que direciona para onde o país deve ir, poderemos pensar em verdadeiras saídas para os problemas que atingem a nação.

Por Max Marianek, graduado em História Pela Fundação Santo André (CUFSA) e graduando em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo (USP)

Notas de Rodapé

  1. Aconselho a leitura do livro Desenvolvimento às Avessas do economista Reinaldo Gonçalves.

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