Brasil, um camelódromo em crescimento

O desespero de comerciantes e profissionais liberais de muitas capitais brasileiras pela reabertura dos comércios nos diz várias coisas sobre o estado da economia brasileira. Na conjuntura, isto nos diz que o que já se sabe. Isto é, que o compromisso do governo federal para com os pequenos agentes econômicos é da boca para fora. Fosse verdadeiro, teria garantido que os créditos de salvaguarda pudessem chegar para o pequeno empresariado sem o spread bancário que tornou impossível qualquer proteção durante a pandemia.

Mas o desejo de uma reabertura imediata também nos fala de um problema mais profundo, que se relaciona com a estrutura produtiva da economia brasileira.

Em síntese, poderíamos apontar o seguinte: para a imensa maioria dos pequenos emprésários (e seus milhões de empregados), se o ponto não vende hoje, não paga salário amanhã. Se passa um mês sem vender, ele simplesmente fecha.

Isto acontece porque o Brasil, sem querer querendo, deixou que parte muito grande de sua população se integrasse em atividades econômicas de mínimo valor. Os que hoje se desesperam pela reabertura – a ponto de encarar o risco à sua própria vida – dependem da venda diária de produtos absolutamente simples. Caminhe pelo comércio popular de qualquer cidade e verá: são vendedores de bugingangas para celular, pequenos artefatos de vestuário, utilidades domésticas de pouco valor, comida rápida. Pelas ruas, vê-se a profusão de entregadores de comida e os motoristas de aplicativo, ambos vivendo suas flutuações de demanda (uns ganhando seus R$ 1.000 por mês na bicicleta, outros sem nem chegar a isto, por falta de passageiros).

É flagrante! O Brasil está indo na direção de se tornar um grandessíssimo camelódromo.

Se isso não se reverter, em alguns anos os que hoje são crianças e adolescentes poderão conseguir qualquer diploma, mas no máximo serão profissionais camelô. Já há professores camelô com doutorado nas universidades privadas, sem condição de prosperar na profissão e vivendo com dinheiro minguado de aula em aula. Já há veterinários camelô que atendem a baixíssimo preço sem condição de progredir na clínica. Os engenheiros que viraram Uber já se tornaram quase um clichê dos tempos atuais.

Qualificados e não qualificados estão convergindo para uma situação laboral de baixa renda e informalidade. Cada um se virando como pode, é claro que a renda instável depende do trabalho do dia. Seremos todos jornaleiros (ou diaristas) em pouco tempo. Nesta situação, é evidente que uma pandemia que obriga tudo a parar pela saúde geral asfixia a renda.

É por isso que a poupança social é pequena no país. Com poupança social diminuta, realimenta-se a pressão pela obtenção da renda à base da diária. No fundo de ambos os problemas, está a estrutura produtiva que já não permite a quase ninguém planejar carreira de longo prazo com uma mínima segurança econômica.

De quebra, a realidade desnuda uma falácia importante, com a qual muitos no Brasil se enganaram. A falácia de que uma economia saudável é aquela onde há grande volume de compra e venda, não importando o que se compra e vende, nem de quem e sob que circunstâncias.

É certo que um grande volume de compras e vendas, por si, se traduz no crescimento matemático do PIB, conforme as regras da contabilidade social. Porém, se ele ocorre sobre uma estrutura produtiva rudimentar, pobre e atrasada, como é a do Brasil de hoje, esse crescimento pode mascarar o grande camelódromo que estamos nos tornando. Por isso, também, é uma mentira deslavada quando o governo afirma que “estávamos decolando” antes da pandemia. Estávamos patinando, e com feio destino: crescente informalidade, baixa renda e dependência.

Ocupações de qualidade, com perspectivas de longo prazo para o cidadão, não caem do céu. Elas surgem se há projeto de país. Se não há projeto de país, pode esquecer. Apenas uma ação coordenada com inteligência, rigor e equilíbrio entre Estado, empresas, sistema financeiro, academia e trabalhadores pode produzir a prosperidade social.

Se não apostarmos por este caminho, continuaremos cultivando o Brasil Camelódromo em que todos sofrem, enquanto as ilhas de bonança do rentismo são cada vez mais exclusivas.

Brasil, um camelódromo em crescimento

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