IGOR GRABOIS: O Brasil realmente precisa de capital estrangeiro?

1) O Brasil emite sua própria moeda. Os salários, os lucros, os juros, os aluguéis e os impostos são pagos em real, as mercadorias e serviços são adquiridos mediante real, que mal ou bem, tem preservado seu poder de compra nas últimas décadas.

2) A restrição energética foi uma restrição ao crescimento econômico no Brasil, por décadas. Hoje, há um imenso parque hidroelétrico, suplementado por usinas térmicas. O Brasil é auto-suficiente em petróleo, com um parque de refino grande e com possibilidade de ampliação e adaptação. Sem contar as possibilidades pouco exploradas do etanol e biomassa.

4) O país jacta-se de ter a agricultura mais eficiente do mundo. Se isso for verdade, o Brasil tem todas as condições de prover segurança alimentar para seu povo, no limite sem precisar recorrer a fornecedores externos.

3) Décadas de industrialização formaram engenheiros e técnicos, além de uma respeitável rede de ensino de formação de engenheiros e técnicos. Nada impede que se atraia engenheiros e técnicos estrangeiros em áreas em que haja carência de profissionais habilitados.

4) A indústria, hoje, possui imensa capacidade ociosa. Há plantas fechadas, com maquinário virando sucata. Não há nada que impeça a reativação dessas fábricas. Os meios de produção estão lá e há força de trabalho disponível.

5) Há um movimento de empresas estrangeiras instaladas no Brasil de fechar suas plantas produtivas aqui. Essas empresas devem ser substituídas por empresas de capital nacional e por empresas estatais. A força de trabalho formada por essas empresas permanece no Brasil, sobrevivendo em subocupações e sofrendo grande perda de sua renda, podendo e devendo ser reaproveitada.

6) Existem diversos centros de pesquisa com capacidade de inovação tecnológica, em universidades, empresas estatais, em órgãos públicos e em algumas empresas privadas. Nunca se formou tantos pesquisadores no Brasil como nos últimos vinte anos. O Brasil é capaz, hoje, de produzir tecnologia, ou por inovação, ou por engenharia reversa.

7) O Brasil tem um imenso mercado consumidor, hoje abastecido em grande parte por importações. Este mercado consumidor se retrai, em função da destruição do tecido produtivo nacional e dos empregos correspondentes. Esse mercado consumidor pode absorver a produção da indústria reativada em um plano nacional de recuperação industrial.

8) A famosa capacidade de importar, que foi objeto de preocupação de gerações de economistas brasileiros, se esvai rapidamente. Os saldos comerciais em commodities são decrescentes, logo não serão capazes de cobrir o déficit de mercadorias industrializadas. Não é preciso perorar sobre a instabilidade de preços de commodities e a fragilidade desses mercados. A experiência histórica fala por si. Para garantir os níveis de vida da população será necessário recuperar a capacidade industrial brasileira.

9) A entrada de empresas estrangeiras nas últimas décadas se deu de duas formas: privatizações e compra de empresas nacionais com vistas a adquirir o mercado dessas empresas. Em muitos casos, as empresas foram simplesmente fechadas pelos compradores, ou se tornaram ativos, sendo revendidas por mais de uma vez, se tornando irrelevantes dos pontos de vista tecnológico e econômico.

10) Em geral, a entrada de capital estrangeiro destruiu empregos pelo encerramento de atividade das empresas adquiridas ou pelas chamadas “racionalizações” , ao contrário do que pregam os exegetas neoliberais. O atual padrão de investimento estrangeiro não traz projetos novos. Os estrangeiros compram projetos já prontos, diminuindo, inclusive seu potencial de crescimento.

11) O Brasil não precisa do capital estrangeiro para sobreviver e superar a crise econômica. Ao contrário, o atual padrão de inserção do capital estrangeiro no país é fator de agravamento da crise.

Por Igor Grabois

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