O Brasil contra Tina

A partir dos anos 70, Tina hegemonizou o pensamento e a prática da economia política mundial. Por onde Tina passou, desarticulou sindicatos, desregulamentou a economia, liberalizou o comércio, terceirizou o trabalho e empoderou a especulação. Resistências foram esmagadas. Tina é poderosa. Muito mais que as transformações que engendrou, ela se orgulha da eficácia com que mercantilizou suas ideias. Virou mito.

Tina é o acrônimo para “There is no alternative”, frase atribuída à Dama de Ferro Margaret Thatcher, primeira ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990, que significa “não há alternativa ao modelo neoliberal”. Para Thatcher, o Estado de Bem Estar era caro e opressor. Agora o indivíduo passa a ser o centro do mundo. Mais que cidadão, se torna um consumidor. A meritocracia passa a significar mobilidade social independente do ponto de partida. A consequência é a privatização dos serviços públicos. Assim, os impostos para os ricos são cortados e se instaura o “cada um por si”. Os países devem celebrar o livre comércio e favorecer a competitividade por meio da flexibilização do trabalho, do enxugamento do estado e da livre mobilidade de capitais. O receituário de Tina foi formalizado pelo Consenso de Washington em 1989, prometendo combater as crises e as misérias dos países subdesenvolvidos. Vai vendo.

De Collor a Temer, o Brasil seguiu à risca o receituário da Tina. Entretanto, miséria e crises econômicas persistem. Se por um lado internalizamos o positivo princípio da disciplina fiscal, por outro vivenciamos o maior processo de desindustrialização do mundo com a valorização cambial de longo prazo. Além disso, observamos aumento dos índices de miséria por conta das intempéries econômicas, bem como a consolidação e o aumento da concentração de renda independente dos ciclos de retração ou crescimento. Vimos a precarização aumentar, o desemprego subir e o agronegócio se consolidar como setor dinâmico da economia. Em momentos de crescimento, houve alguma evolução, mas definitivamente Tina fez bem apenas para muito poucos.

Mas é no campo moral que Tina promoveu a verdadeira colonização. Consumidores, antes cidadãos, se tornaram empresários de si, consumistas, alheios aos problemas nacionais, individualistas e ansiosos. Inconscientes dos próprios interesses, sem identidade de trabalhadores, passaram a defender interesses dos barões. Empresários de si mesmo, agora são meritocráticos, contra qualquer forma de serviço público. Mas essa é apenas uma parte das pessoas. Grandes extratos sociais foram excluídos do processo e, sem acesso a educação e saúde públicas, se precarizaram. Hoje, milhões vendem apenas sua força muscular na bacia das almas para as classes que puderam incorporar algum capital cultural. Sonhos de transformação coletiva se tornaram sonhos de consumo, levando à violência e à depressão. A democracia de consumidores se radicalizou. Se o consumidor tem sempre razão, as pessoas deixaram de aceitar derrotas políticas. Ignorância, polarização e medo se tornaram o novo normal nas discussões políticas das redes sociais.

Apesar de tudo, Tina envelheceu. Sua hegemonia provou que a insistência nesse caminho vai levar a sociedade brasileira à anomia e o país à perda de autonomia. O Brasil está hoje em uma encruzilhada histórica. Ou expulsa Tina com um projeto nacional de desenvolvimento e com uma filosofia política de solidariedade, igualdade de oportunidades, fim de privilégios, liberdade, democracia, sustentabilidade e respeito ao bem comum, ou Tina continua a impor o império moral do mercado sobre todas as instâncias da vida. Onde o dinheiro media todas as relações humanas, não pode haver brasileiros, apenas um amontoado de consumidores. Onde a soberania deixa de ser um valor compartilhado, não pode haver nação, apenas um pedaço de terra colonizado e explorado. Está na hora de a democracia brasileira mostrar para Tina o caminho de casa. Precisamos sonhar a nação.

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