JONES MANOEL: Capitalismo e socialismo na China

Terminei hoje de ler um artigo síntese das pesquisas do meu amigo Elias Jabbour enquanto não começo a ler seu livro (China: Socialismo e desenvolvimento, sete décadas depois). No artigo, com economia de palavras mas sem ser simplista, Elias resume o que chama de Nova Economia do Projetamento na China e expõe o caráter socialista do desenvolvimento chinês – e ele considera, assim como outros pensadores como Giovanni Arrighi, que a existência do mercado não torna per si a formação econômico-social como capitalista.

Eu, como sabem, estou no “time” dos que não tem certeza do caráter ainda socialista da experiência chinesa. Ao ler o artigo e dialogando com Elias, fiz uma crítica construtiva: a afirmação da proeminência do setor estatal como o mais dinâmico, produtivo, com maior potencial científico técnico e o estratégico, embora importante para mostrar que a China não é uma formação social capitalista típica, não prova o caráter socialista do país. A resposta de Elias a meu questionamento foi muito interessante. Ele trabalha com duas linhas de argumentação. Primeiro, afirma o crescimento da participação operária na gestão (em suas diversas dimensões) nos grandes conglomerados estatais. Essa afirmação não me é polêmica. Nos meus estudos eu já pude constatar isso. Aliás, considero falta de visão quem se nega a reconhecer o que chamo de “virada à esquerda” do PCCh.

A segunda, porém, eu ainda não tenho certeza, embora esteja balançado: Elias afirma que os grandes conglomerados estatais – repito: o setor estratégico e condutor da economia – atuam, fundamentalmente, a partir do valor de uso e não visando o lucro dentro de um ambiente de negócio financeirizado e curto prazista, tal qual todos os grandes monopólios capitalistas nos Estados Unidos ou Alemanha. A internet e a malha de trens de alta velocidade, me parece, é um bom exemplo do que Elias vem defendendo. Eu aguardo o livro dele para conferir com maior profundidade esse argumento. Caso me pareça demonstrado que o principal setor da economia – o que não significa o maior em termos de PIB ou valor de ativos – atua, fundamentalmente, a partir do planejamento com base na maximização do bem-estar geral sem ter como lógica dominante a valorização do valor, mesmo sem desconsiderar a lei do valor, e considerando a proeminência do PCCh na arquitetura social e econômica do país, eu entro no “time” dos que consideram ainda a China como uma experiência socialista com suas muitas particularidades.

Eu ainda acrescento – e nesse caso, a responsabilidade é minha, embora ache que Elias concorda – que a categoria de “Capitalismo de Estado” tal qual foi formulada por pensadores como o grande Charles Bettelheim para analisar as experiências de transição socialista deve ser abandonada para ontem. No fundo, não explica absolutamente nada e se consola com afirmação abstratas, idealistas e formalistas como “nacionalização não é o mesmo que socialização” e “os trabalhadores precisam ser donos dos meios de produção”. Eu diria mais: a última vez que a categoria de “Capitalismo de Estado” foi formulada com alguma qualidade para tratar uma experiência socialista foi com Lênin. Depois do líder bolchevique, o uso dessa noção só se presta a confusões e ajudar a preguiça de pensar.

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