Carlos Lessa e a Alma Brasileira

Aos 83 anos, morreu Carlos Lessa. Grande economista de pensamento nacionalista, professor e Reitor na UFRJ, ex-presidente do BNDES. Acima de tudo, entretanto, Lessa foi um apaixonado pela vida do país e pela história brasileira, e se dedicou, como tantos de nós, a perseguir o objetivo político de um Brasil desenvolvido.

Os relatos que pipocam em grupos de discussão de economistas neste dia 5 de junho de 2020 são muito similares. Quem o conheceu como professor ou burocrata que batalhou pela dignidade econômica da nação o descreve, sempre, como um visionário comprometido, que sem reservas assumia sua posição em defesa do patrimônio econômico nacional, porque sabia que o Brasil tinha sim todas as condições de formar uma estrutura socioeconômica generosa, próspera e digna.

Carlos Lessa e a Alma Brasileira
O economista Carlos Lessa. Foto: Roberto Corradini-SECS

Em nome dos ideais nacional-desenvolvimentistas, Lessa fez a luta mesmo quando ocupava posições que em geral amansam os ânimos dos lutadores. Resta inegável, portanto, a coragem que ele teve de comandar o BNDES no início de um governo que, para surpresa de todos (e imagino qual não terá sido a surpresa dele) manteve o bom-mocismo diante da banca internacional com uma Fazenda comandada por Palocci e um Banco Central nas mãos de Henrique Meirelles. Criticou Palocci, Furlan e Meirelles, e por isso acabou sendo retirado da posição que foi a maior que veio a ocupar em sua longa vida de economista brasileiro que jamais negou esforço pelo país.

Para além da necessária memória biográfica deste grande brasileiro, contudo, eu contribuo aqui com pequena homenagem pessoal, recordando uma aula inaugural dada por Lessa aos alunos do campus da Praia Vermelha, da UFRJ, em algum ano da década de 90. Diante de um bando de garotos oriundos da classe média consumista e ignara a respeito de qualquer sentido profundo de nação, Lessa perguntava: “E a Alma Brasileira? Já pensaram nisso? Como vocês acham que está a Alma Brasileira?”.

Pois é com essa memória que presto minha homenagem a Carlos Lessa, sabendo que falo de uma categoria de pessoa cada vez mais escassa no Brasil: daqueles que ousam pensar o país no paradigma visionário, para além do gogó imediatista, inculto e hipócrita que ora pende para o lado do assistencialismo barato, ora pende para o lado das patriotadas reacionárias opressoras (ambos incapazes de livrar o país de sua condição subalterna na divisão internacional do trabalho estabelecida pelos poderes centrais).

Carlos Lessa deixa o testemunho do paradigma visionário, mais necessário hoje do que jamais foi: aquele que nos dá a capacidade de pensar nossa vida neste país para além do agora, e não permite esquecer da Alma Brasileira.

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