GUSTAVO CASTAÑON: Mais esclarecimentos aos adoradores da dívida

É só alguém de esquerda dizer que não se pode defender emissão ilimitada de moeda (sem contraparte de destruição via impostos) para aparecer os militantes da dívida em sua timeline ou compartilharem seu texto em grupos onde você não pode responder te acusando de ter dito exatamente o oposto do que você disse.

Percebam que todo autoritarismo começa pelo domínio da língua, eu tive que iniciar o texto com a linguagem deles, porque se eu falar uma língua que o povo entenda: “o Estado está gastando mais do que arrecada, o Estado está sem dinheiro”, chega a patrulha linguística da MMT para te ensinar que “toda vez que gasta o Estado emite”, “Estado que tem sua própria moeda não fica sem dinheiro”. É a velha patrulha epistêmica que estabelece quais palavras e expressões podem ser usadas e quais não, assim controlando totalmente o debate e o afastando do povo, dos “ignorantes”.

Outro dia o André Lara Resende falou a mesmíssima coisa que eu falo desde que parei para ler alguma coisa sobre MMT: ela é teoria descritiva do funcionamento atual do sistema monetário, não é teoria econômica, não propõe política econômica alguma. Eu portanto nunca critico a MMT para nada, mesmo porque não vejo (nem a estudo para isso) erro nela em qualquer ponto. O que eu critico são fanáticos que humilham a esquerda no debate econômico defendendo que um Estado que emite sua própria moeda nunca pode quebrar. Um Estado que emite sua própria moeda nunca fica sem sua própria moeda, mas pode ficar sem moeda estrangeira, por exemplo.

As mentiras sobre a posição do Ciro se seguem na rede sempre alimentadas pelas mesmas figuras. O acusam de defender que o Estado não pode gastar mais do que arrecada. Mentira. Ele defende que pode e deve, se não for para financiar déficit primário, e sim, para financiar investimento que aumente a capacidade produtiva do país.

Mentem afirmando que ele acha que déficit não pode financiar poupança interna, quando ele diz é que déficit não deve financiar despesa primária (salários + custeio), e também não deveria financiar pagamento de juros, mas somente investimento. No entanto, ele defende que pode financiar parte, mas não deve financiar tudo porque funciona como uma forma de imposto altamente regressivo (mais pobres perdem poder de compra tanto quanto os mais ricos) e geraria gigantesca pressão inflacionária para além da capacidade de produção do país.

Mentem afirmando que ele defende que emissão de moeda é sempre inflacionária, quando o que ele diz é que aumento de base monetária só deixa de ser inflacionário quando ou a) há muita capacidade ociosa da indústria e serviços no país ou b) o aumento de moeda circulante é em algum momento acompanhado por aumento da capacidade produtiva do país (porque foi direcionado todo a investimentos produtivos).

Qualquer Estado que não seja os EUA (porque o dólar é aceito como moeda de troca internacional) que emitir moeda sem um mínimo de credibilidade fiscal vai se ver sem dólares, o que gera também inflação de produtos importados, e como sabemos hoje, estamos importando até máscaras e seringas. Isso além dos preços de vários custos que são atrelados ao dólar no Brasil, como os alugueis.

Mentem sobre ele mentir sobre o orçamento público, a famosa ladainha do “gráfico da pizza” da ACD, quando ela é somente a reprodução da apresentação oficial do orçamento publicada todo ano seguindo os critérios de uma lei federal, a LOA, Lei de Orçamento Anual. Eles fazem isso porque acham que devem defender o aumento da dívida pública no debate público. Defendem que o grande instrumento de poder e desenvolvimento do estado é a capacidade de fazer dívida interna, quando, ao contrário, é a capacidade de EMITIR CRÉDITO. Porque um ente que pode emitir moeda deveria se endividar a não ser para garantir estabilidade e remuneração ao sistema financeiro do país e os poupadores? Para investimento o Estado tem que emitir crédito, e não dívida.

Dizer que é neoliberal uma posição que defende que o custeio, salários e juros pagos pelo Estado sejam cobertos por moeda arrecadada via impostos (ou enxugada e destruída, se quiser dificultar a compreensão das pessoas comuns), mesmo defendendo o fim do teto de gastos e a liberdade de ampliação da base monetária na proporção dos investimentos públicos, é uma insanidade. Equilíbrio fiscal não é valor neoliberal, é valor econômico. Qualquer ampliação da base monetária que não venha numa perspectiva de aumento de produtividade e oferta de bens e serviços acabará sendo inflacionária.

Essas pessoas tem que fazer o debate melhor, porque senão vão deixar a esquerda com nariz de palhaço nas discussões macroeconômicas.

O Ciro não está aí para ser o tiozão dos grupos de marxonomia, mas para governar o Brasil e dialogar com o mainstream econômico com a linguagem mais simples que puder para alcançar o máximo de pessoas que puder. Essa militância de adoradores da dívida e da emissão de moeda não vai ajudar nada nisso.

1 Comentário

  • Linguagem relativamente simples. Porém, a lógica demonstrada não é acessível para a grande maioria das pessoas (digo pessoas que possuem diploma universitário exceto economia). Mas isso não é demérito seu.

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