A grande confusão: Ciro Gomes não leu Ruy Mauro Marini

Ciro Gomes, nas suas palestras pelo Brasil, vive dizendo que no Brasil a elite, ou plutocracia, não entendeu “nada” ao atacar a renda e salário do povo trabalhador. Segundo Ciro, o “capitalismo moderno se afirma no consumo de massas” e no Brasil, “o consumo tem papel central” no desenvolvimento; logo, atacar o poder de consumo da massa trabalhadora seria uma espécie de “confusão ideológica”, uma “mitificação”, como gosta de falar Ciro. O problema é que ele está certo estando errado.

A parte certa. É evidente que reduzir o poder de consumo do trabalhador impacta negativamente no conjunto da economia. A fórmula é simples e evidente. Mas o capitalista não é burro ou está “cego pela ideologia”. No capitalismo, entre várias contradições, temos uma que Ciro não percebe: o trabalhador é ao mesmo tempo produtor de mais-valor e consumidor de mercadorias. Enquanto consumidor de mercadorias, abstratamente, o trabalhador ter poder de compra é bom para os capitalistas coletivamente, enquanto produtor de mais-valor, cada capitalista quer explorar ao máximo seus trabalhadores. É contra a natureza objetiva do sistema capitalista imaginar que a classe dominante, pensando enquanto ser coletivo, vai defender níveis mínimos de renda do trabalhador para manter o mercado consumidor.

Isso, em toda a história do capitalismo, aconteceu por apenas 70 anos e em condições bem específicas: enquanto existia União Soviética e movimento comunista. Com a contrarrevolução neoliberal, até do ponto de vista institucional, a burguesia criou um novo modelo de dominação política onde a possibilidade institucional do Estado impor à burguesia essa política é baixíssima ou nula (como no caso dos países periféricos mais fracos da União Europeia).

Aliado a isso, o burguês é uma personificação do capital em abstrato e não da fração do capital que, temporariamente, ocupa. Como assim? Se um burguês é um industrial, por exemplo, mas a indústria não é mais lucrativa, não tem problema ele virar um revendedor de terreno, especulador ou doleiro. Desde que mantenha sua condição de burguês. Isso é verdade, em especial, nos países periféricos onde a coordenação estratégica da acumulação é bem mais fraca e existe uma pressão imperialista permanente para a burguesia interna assumir um caráter comprador-mercantil-parasitário.

Aliado a isso, como Ruy Mauro Marini mostrou, o caráter diminuto do mercado interno, na periferia, não é um problema em si. Antes o contrário. A produção assume um caráter marcadamente suntuário, onde a distribuição de renda regressiva, num movimento aparentemente paradoxal, aumenta o mercado interno. Não custa lembrar que temos na nossa história longos ciclos de expansão da acumulação, como durante a ditadura empresarial-militar, com brutal achatamento do poder de consumo da nossa classe.

A grande confusão Ciro Gomes não leu Ruy Mauro Marini

Junto a isso, outro dado importante: o capital pequeno e médio sofre muito com o encolhimento do mercado interno. O grande capital tem um poder de resistência muito maior e pode até ganhar mais mercado, devorando o mercado deixado pelo capital pequeno e médio em falência. É necessário observar então, a partir de dados empíricos, se a “fatia de mercado” de grandes grupos do varejo e outras frações do capital, ao invés de diminuir, não está crescendo. Claro, isso tem um limite, mas o limite também precisa ser compreendido a partir de uma pesquisa real da dinâmica de concentração e centralização do capital e não como movimento real presumido.

Junto a isso, ainda temos uma questão política.

O bloco no poder responde, prioritariamente, ao interesse do grande capital. O grande capital, em momentos de ofensiva política, via de regra esmaga o capital menor (vide ditadura empresarial-militar e Governo FHC). Esse é um dos motivos estruturais, inclusive, que explica o pêndulo político-ideológico do pequeno capital em direção à projetos populares de cunho reformista.

Em suma, o que Ciro apresenta como uma “confusão” é, na realidade, uma tendência objetiva do capitalismo potencializada na periferia do sistema.

Ciro Gomes, como eu gosto de brincar, é um Hélio Jaguaribe tardio. Ele pensa que o que falta à classe dominante interna é uma espécie de ideologia do desenvolvimento adequada guiada por um Estado que seja uma fusão entre Hegel e Keynes rumo ao sonho da industrialização. A não adesão a esse projeto, veja bem, é mostrada como falta de consciência dessa burguesia dos seus próprios interesses.

É não. É apenas a burguesia fazendo política de acordo com seus interesses reais.

PS: Lula e todo o petismo cometem o mesmo erro!

4 Comentários

  • Perfeito. Obrigado por me mostrar como estou pensando agora, meu caro!

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  • Ciro sabe disso, ele só não fala com todas essas letras, pois fecha portas importantes. Mais brando dizer que não é má intenção, mas ele sabe que é. “Neoliberalzinho de merda”

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  • O problema é que o autor desse artigo acredita em economia. Como economia não existe, ele entra num imaginário em que fica longe de descobrir que o capitalismo é um fenômeno monetário, que as tais “crises econômicas” são colapsos de circulação de direitos”, que o dinheiro é um representante da violência legítima governamental, que o dinheiro é direito, quando estocado, e meio de comando, quando usado em relações sociais, que por meio do dinheiro a violência legítima (consentida) dos governos submete o trabalho, que os bancos deram o maior golpe político da história ao conseguirem controlar o uso governamental do dinheiro, que o dinheiro é o único objeto que tem o preço de si em si mesmo, que é a taxa de juros e por aí.

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  • Caro Jones,
    Nunca subestime o adversário.É evidente que você sabe que o Ciro Gomes leu Marx,Engels,Rosa,Trotski e Stalin . Nem preciso mencionar Marini e Theotônio
    dos Santos.
    Aprenda com Domenico Losurdo.

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