Conjuntura: não há nada que o Banco Central possa fazer?

Por Emerson Braz – O aumento da liquidez promovido pelos Bancos Centrais desde março de 2020 garantiu a estabilidade dos preços dos ativos financeiros no mundo todo. A demanda por crédito no lado da oferta para cobrir custos e incentivar o nível de investimento das empresas durante a pandemia teve como principal ferramenta a redução do custo do capital (taxa de juros). A recuperação dos ativos definitivamente se dá, aparentemente, diante de uma relação inversa ao desempenho no lado real da economia.

A economia global começa a se recuperar neste último trimestre, especialmente Europa e Ásia por conta do relativo controle acerca da condução da pandemia do coronavírus. Comércios e fábricas operam com as restrições necessárias, mas os indícios são positivos para estas regiões. Entretanto, países que não controlaram parcialmente o efeito da crise sanitária sobre o setor produtivo não conseguirão acompanhar este início de ganhos positivos.

A América Latina (especialmente o Brasil) e os Estados Unidos, atuais epicentros da doença, tem proporcionado os mesmos remédios: redução das taxas de juros e aumento da oferta de crédito, mas em doses bem diferentes. Os mecanismos de transmissão da política monetária têm demonstrado maior efeito somente em regiões que frearam a propagação do vírus, por conta da redução das incertezas sobre o investimento futuro. A taxa de juros como instrumento que viabiliza o custo do capital, não pode sozinha estimular a propagação da demanda, isto depende também do “estado de confiança” dos agentes econômicos que tende a variar negativamente quanto maior o número de casos de COVID-19.

A redução de estímulos a movimentações de curto prazo (carry-trades) que ganham no diferencial de juros, tem deixado o canal do câmbio essencialmente desvalorizado, inviabilizando movimentações especulativas estrangeiras, mas viabilizando “hedge” cambiais que protejam contra a variação momentânea do câmbio. O real tem sido uma das moedas mais voláteis no cenário pandêmico, segundo o jornal Valor Econômico “A volatilidade implícita do real para dois meses está atualmente em 18%, permanecendo acima do patamar, de 15%, do peso mexicano e do rand sul-africano” (VALOR, 2020/07/21), este ponto serve para reforçar o Estado de Convenções dos agentes econômicos quanto ao futuro.

A baixa inflação é o maior motivo para que continue se viabilizando cortes nas taxas de juros. Neste cenário, é o maior indicativo de retração econômica, visto a retração do consumo. No último Boletim Focus (Jul/2020) foi possível observar que o IPCA reagiu frente a projeções passadas, saindo de 1,61% para 1,72% na respectiva data do boletim, isto indica que há uma tendência de crescimento para os preços, mas muito aquém do centro da meta estipulada como “boa” para a condução da política monetária.

A projeção de retração do PIB, ainda segundo o Focus, parece ter estagnado entorno dos -6,50% e -5,50%, efeito que não pode ser analisado sem observar a ótica do consumo das famílias. O Auxílio Emergencial manteve o nível de consumo das famílias e segurou a rejeição do Executivo. Nestes últimos três meses pode-se observar com efetividade o efeito de curto/médio prazo que a transferência de renda teve sobre o cenário, diante da incerteza sobre a efetividade da aprovação do Auxílio Emergencial no início da pandemia, havia projeções de recessão entorno de -8,0% para o PIB (VALOR, 15/04/2020).

Há de se destacar que, neste último mês de julho, o Ministério da Economia sob o comando do ministro Paulo Guedes, apresentou uma proposta para reonerar os produtos que compõe a cesta básica. Atualmente, estes produtos são isentos de tributação como medida para facilitar o consumo destes produtos por famílias com menor renda. Se efetivada esta medida em um futuro próximo, haverá efeitos diretos sobre a condução do IPCA, pois esta cesta de produtos compõe parte importante do índice.

A meta da Selic apresentada no relatório do Banco Central do mês de julho esteve em 2,0% a.a., mas com projeções positivas de quase 1.0 p.p. em média, respectivamente, 3,0% em 2021, 5,0% em 2022 e 6,0% em 2023. Isto dificilmente será validado se as condições se mantiverem, o Banco Central do Brasil está considerando neste cenário, especialmente que haverá aumento significativo sobre o investimento e que, no médio prazo, o desempenho da inflação voltará para o centro da meta.

O Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta (05/08/20), decidiu pela redução de 0,25 p.p. na taxa básica de juros para 2,0% a.a.. Além do movimento, o comunicado, quase em sua totalidade, foi em linha com o esperado.

Finalizado o primeiro semestre de 2020, é possível observar que é falsa a dicotomia entre combate a covid-19 e recuperação econômica. Necessariamente a experiência recente indica que, se a condução da política monetária e fiscal não forem efetivadas diante da redução do cenário pandêmico, pouco efeito terá sobre o crescimento, e somente a dissipação do vírus pode trazer a normalidade ao setor produtivo, mas deixo a indagação ao Banco Central do Brasil: cortar mais adianta?

A meta da Selic apresentada no relatório do Banco Central do mês de julho esteve em 2,0% a.a., mas com projeções positivas de quase 1.0 p.p. em média, respectivamente, 3,0% em 2021, 5,0% em 2022 e 6,0% em 2023. Isto dificilmente será validado se as condições se mantiverem, o Banco Central do B

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