O Covid-19 e a farinha pouca. E o nosso pirão?

Conforme a crise da pandemia cresce e se instala no Brasil, vão ficando mais claras as faltas e carências relacionadas com nossa empobrecida estrutura produtiva. Em vários vídeos recentes feitos no canal Revolução Industrial Brasileira, temos tentado demonstrar que nossa desindustrialização não se resume a problema teórico, ou estritamente econômico.

Não. A perda de capacidades e volume produtivo em um país de mais de 200 milhões de habitantes e com largas faixas sociais em pobreza ou extrema pobreza é um atentado contra a vida. Nada menos do isso: um atentado contra a vida.

Reconhecer, discutir e propor soluções para isto é a máxima urgência no país, como o Covid-19 tão cruelmente mostra. Não apenas pela incapacidade de o tecido empresarial privado e público em produzir aquilo que agora é indispensável ao socorro material dos cidadãos. Mas, também, porque a arena internacional mostrou sua cara mais suja. Quando a farinha é pouca, cada um cuida do seu pirão primeiro.

Assim, as últimas semanas apresentaram um quadro feio de se ver: na falta de insumos médico-hospitalares para atender uma demanda tão alta, as verdadeiras regras do comércio internacional entraram em campo. Da China, só se consegue materiais essenciais pagando adiantado, mesmo assim a depender da boa vontade da cadeia logística. No caminho entre Oriente Médio e Europa, carregamentos são desviados ou confiscados. Dentro da própria União Europeia, escaramuças políticas e comerciais deixam claro quem ali manda e quem obedece. Finalmente, os Estados Unidos se reservam o direito de atender primeiro os seus e ameaçam deixar a ver navios até mesmo países irmãos, como o Canadá.

A cereja do bolo é a decisão que vem sendo ventilada pelos governos do Japão e dos Estados Unidos em pagar (sim, pagar!) para que suas empresas que têm fábricas na China deixem o gigante asiático e se reinstalem em seus territórios nacionais.

Como sempre enfatizamos, a questão industrial está no coração da questão nacional.

Em síntese, as cadeias globais de valor (nome dado à fragmentação dos fluxos de comércio mundial nas últimas décadas) mostraram sua verdadeira face. Não são uma arena de cooperação global que trabalha pelo atendimento universal das necessidades. São, na realidade, um grande campo de conflito de interesses em que os Estados mais fortes mobilizam seus poderes empresariais e financeiros para atender primeiramente seus próprios países.

No fundo, nenhuma surpresa. Quem ficar surpreso com isso, deverá também se surpreender quando o Brasil voltar a reclamar com toda força por independência industrial. Pois é isto que deverá acontecer nos próximos anos.

Alvíssaras! Na Revolução Industrial Brasileira, martelamos esse ferro frio desde o início, como no vídeo abaixo, em que o professor de Economia da FGV Paulo Gala desfaz o mito das cadeias globais de valor como arena de cooperação internacional.  Mais uma contribuição para um esclarecimento cada vez mais necessário.

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