Realidade nua e crua anterior ao covid-19 sob o olhar da pele preta e periférica

O cenário brasileiro antes da chegada do covid-19 já era extremamente caótico, politicamente. Um balcão de negociatas, altamente privado para os proveitos brancos elitistas escravagistas; na economia, extremamente desigual e concentrado, ou seja, um fracasso, altamente privado para os bons proveitos brancos elitistas escravagistas; juridicamente fraco, injusto e acovardado para os bons proveitos dessa elite branca racista; coercitivamente violento e sangrento para os bons proveitos dessa mesma classe; educacionalmente, um fiasco, desigual, como já bem visto e dito por Darcy Ribeiro, esse modelo de educação é um verdadeiro projeto para os bons proveitos brancos elitistas escravagistas.

Essa estrutura não foi superada nem mesmo ao longo dos anos da gestão petista com seu projeto social-desenvolvimentista, calcado numa democratização de consumo de massa. Agora seguimos sob a extrema direita liderada por Bolsonaro, no qual vem deixando um banho de sangue nas periferias, sobretudo na juventude preta, terras quilombolas, indígenas e populações ribeirinhas, além do aumento vertiginoso do “feminicídio e lgtqfobia”, intensificados por meio do simbolismo e figura de Bolsonaro quando reverbera verdadeiras atrocidades contra minorias sociais, de gênero e étnicas raciais. Pois bem, esses são os verdadeiros grupos que vem sofrendo com maior peso em relação à pandemia.

Uma realidade brasileira onde segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), metade da população menos de R$ 500 por mês (R$ 413), e cerca de 61 milhões de brasileiros entraram em 2020 com dívidas em média de R$ 1.000, segundo CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) no Brasil. Tudo isso seguido de um crescimento pífio e ilusório – para não dizer ainda em recesso – de apenas 1% no PIB de 2019, que sequer foi capaz de gerar empregos e, tão pouco, estimular a economia, o que dirá desenvolvermos o país.

Sabemos muito bem aonde esse chicote anda estralando e nas costas de quem. Nossos manos, manas e monas, fazendo todo tipo de malabarismo, muitos perdem a esperança inclusive de ir atrás de um emprego, se viram como podem e da maneira que podem. Alguns infelizmente ao ver o desespero do lar, da fome batendo, acabam indo para caminhos não desejáveis (aqui, não julgamos). O subemprego, a informalidade precária ou o trabalho exaustivo de serviços de entregas (Ifood e Uber) acabam sendo os destinos para grande maioria dos nossos e das nossas nos territórios.

A violência policial que só veio aumentando de forma avassaladora com aval dos governantes dos Estados e principalmente do presidente Bolsonaro, que acaba sendo sempre a ferramenta de um estado maquiavélico incapaz de lidar com as desigualdades e tão pouco se inclinam para a resolução dos problemas complexos que afligem nossas periferias. O descaso da saúde pública não é de agora, como a Emenda Constitucional 95 que impõe corte de gastos públicos.

Mesmo esses projetos sendo aprovados em 2016 (era Temer), segue na sua plenitude até mesmo em tempos de pandemia, intensificaram ainda mais a precarização dos serviços públicos de uma forma geral, deteriorando toda a infraestrutura do país.

Serviços esses que são tão caros para o povo das nossas periferias, que dependem dessas políticas públicas por não ter condições de pagar as altas mensalidades e taxas do setor privado. Afinal, os salários contemplam apenas o aluguel, alimentação e alguns churras de fim de semana, quando possível.

No entanto, pegando um exemplo típico atual do governo Bolsonaro e sua equipe econômica, liderada por Paulo Guedes, não hesitam em momento algum de dar R$ 1 trilhão para os bancos sem que esses se comprometam de fato com as questões sociais.

Bom, já é de praxe o setor privado (os grandes bancos, empresas, conglomerados), o “Deus onipresente” mercado sair ganhando com crises e nunca pagar pelos crimes que cometem, Brumadinho e Mariana ainda estão regurgitando pelas vidas tiradas e por aquelas que estão juntando os cacos pela perda de seus entes queridos.

A questão ambiental seria outro fator de suma importância, pois mesmo diante de uma pandemia causada por uma coronavírus que fora transmitido por animais silvestres em deslocamento de seu habita natural, segundo cientistas, o mais provável seria do morcego (como hospedeiro). Ainda temos um presidente assassino que continua legitimando a grilagem, desmatamento de terras, além da matança dos povos originários e populações ribeirinhas.

Bom, se formos elencar todos os problemas em um simples texto de portal não daria conta. Nosso povo preto e povos originários já vinham sentindo na pele essa Necropolítica (política de morte onde o Estado decide quem vive e quem morre) causada pelo governo de Bolsonaro, tanto no aspecto político, como econômico, cultural, social e ambiental.

Desde a chegada do covid-19 é notório como as distorções e desigualdades sociais tornaram-se escancaradas até mesmo para aqueles que lhes faltam empatia e solidariedade. Essa violência e desigualdade extrema fazem parte de uma estratégia para que não sejam vistas como consequência da covid-19 e, mas sim de um projeto de governo anterior à pandemia, aliás, dos demais governos que a antecederam e principalmente pelo atual governo que aprofunda.

Nós, que vivemos e convivemos em nossos territórios periféricos jazidos e violentados sistematicamente por um Estado genocida que nos mata de todas as formas tanto materialmente, fisicamente e psicologicamente, seguimos resistindo e reexistindo de forma auto-organizada por meio de laços coletivos, mútuos, solidários, oriundos de nossas ancestralidades, legados de lutas de libertação dos nossos povos, de militâncias quilombistas e pan africanistas.

Trazemos aqui um pouco sobre o nosso símbolo de luta do quilombismo, grande legado de Abdias Nascimento, Lélia Gonzalez e de tantos outros, Exu e Ogum, reúnem as ferramentas poderosas e necessárias para construção da nossa luta com os princípios da comunicação e dialética (Exu) e de inovação tecnológica com o compromisso da luta (Ogum).

Essas são as nossas forças e ferramentas necessárias para o enfrentamento político de uma oligarquia brancaescravagista, e dessa forma que encontramos forças visando a implementação de uma agenda desenvolvimentista sustentável, inclusiva e solidária em que o povo preto e os povos originários estejam no seu protagonismo. Axé Muntu!

Uma verdadeira revolução racial democrática, em nossa

era, só pode dar-se sob um condição; o negro e o mulato

precisam tornar-se o antibranco, para encarnarem o mais puro

radicalismo democrático e mostrar aos brancos o verdadeiro

sentido da revolução democrática da personalidade, da

sociedade e da cultura. “ (Florestan Fernandes). 

 Por Marcus S. – Periferia é o Centro

Realidade nua e crua anterior ao covid-19 sob o olhar da pele preta e periférica

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