A Segunda Guerra Mundial, não o New Deal, é o modelo para as políticas macroeconômicas do COVID-19

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Muito tem sido escrito sobre as causas e curas para as consequências econômicas do Coronavírus (COVID-19). A previsível distinção está entre aqueles que pensam que isso é essencialmente um choque de demanda, principalmente para os serviços, e aqueles que estão preocupados com a interrupção nas cadeias de suprimentos. E, até certo ponto, ambos estão corretos. Mas esse não é o problema mais relevante aqui, e sim se precisamos somente de mais governo ou de uma mudança na natureza das intervenções governamentais. Neil Irwin[1], do New York Times, fornece uma explicação adequada e simples da história do choque de demanda. Observe que um choque de demanda geralmente acompanha implicações financeiras significativas, pois os agentes com receita reduzida tendem a inadimplir empréstimos ou romper com fluxos de pagamento de qualquer passivo. O The Economist[2] observou o risco associado à dívida corporativa excessiva e a possibilidade de o vírus desencadear uma crise do tipo deflação da dívida nos mercados financeiros. Sobre a fragilidade dos balanços corporativos, veja também este artigo esclarecedor de Michalis Nikiforos[3]. Muitos economistas têm se colocado a favor dessa interpretação, e certamente há muito a ser dito sobre esse ponto de vista, com o qual eu tendo a concordar, a propósito.

Os planos de expansão fiscal apresentados pelo governo foram vistos principalmente através das lentes de uma versão de choque de demanda regular da recessão. Eles incluem coisas como resgate de certos setores atingidos pelo repentino declínio da demanda, como as companhias aéreas, e cheques para aqueles que perderam o emprego, além do FED injetando liquidez para reduzir os efeitos financeiros do choque de demanda. Nesse sentido, não é muito diferente do pacote fiscal e do resgate financeiro da crise de 2008.

É claro que as políticas macroeconômicas em 2008, apesar de terem impedido uma queda no desemprego da magnitude que ocorreu na década de 1930 durante a Grande Depressão, foram falhas em diversas maneiras. Eles resgataram bancos, mas deixaram muitos perderem suas casas (e o Departamento de Justiça de Obama não processou judicialmente de maneira significativa os vários excessos financeiros de Wall St.); isso foi levando a uma recuperação prolongada, mas muito lenta, em que as condições do mercado de trabalho permaneceram relativamente ruins para muitos trabalhadores, apesar dos baixos níveis de desemprego no final. Todas as coisas que aumentaram os problemas na parte de baixo da distribuição de renda e ajudaram a explicar a vitória política de Trump em 2016. Portanto, existe um receio razoável de que essas políticas possam não funcionar bem desta vez novamente. Além disso, é possível argumentar que essa crise não é fundamentalmente um choque de demanda.

Um defensor proeminente disso é Dean Baker[4]. Ele diz: “Nosso problema não é criar demanda na economia, o problema é manter as pessoas mais ou menos inteiras por um período possivelmente prolongado, no qual grande parte da economia está fechada”. E, como ele observa, o envio de cheques diretamente para as pessoas ficará aquém de uma solução. Os cheques serão irrelevantes para muitos que têm empregos seguros, e insuficientes para muitos, uma vez que será muito pouco, ou porque algumas pessoas podem ser diretamente excluídas de tais programas, como os imigrantes sem documentação com filhos nascidos nos EUA. A alternativa de Dean é enviar dinheiro diretamente para empresas que manteriam os trabalhadores empregados e inativos, ajudando-as também na recuperação. É claro que esta solução lida fundamentalmente com os que estão no mercado de trabalho, e não com aqueles em situações mais precárias.

Eu vejo o problema como sendo essencialmente um choque de demanda. Note-se que o aumento nos pedidos de seguro-desemprego[5] que marcou a semana passada foi em grande parte associado às demissões por coronavírus. Obviamente, ninguém negaria os efeitos colaterais da crise na oferta, embora estes sejam menos disruptivos no curto prazo, na minha opinião. Ninguém está sendo demitido porque a empresa é incapaz de obter bens intermediários para a produção, ou pelo menos não em números significativos. É o súbito colapso da demanda que importa. Mas isso não leva em conta o tipo de choque de demanda e oferta que atingiu a economia. São choques irregulares e localizados, e uma reação política eficiente reclama intervenções direcionadas. O tipo de intervenção de que precisamos é aquela onde o lado da demanda tenta manter a capacidade das famílias com problemas de fluxo de caixa (aqueles demitidos e aqueles que já estavam fora do mercado formal de trabalho) e o lado da oferta que redireciona a produção para os setores que experimentariam um aumento na demanda.

A analogia mais típica em tempos de crises macroeconômicas é a Grande Depressão, e os progressistas, não incorretamente, procuram ideias na caixa de ferramentas do New Deal. No entanto, o New Deal tratava principalmente de regulação, em sua primeira fase, e de gastos, em especial após a Recessão de Roosevelt. O tipo de intervenção de que precisamos é mais parecido com a Segunda Guerra Mundial, no qual as agências governamentais têm amplos poderes para requerer, produzir ou financiar corporações privadas para fabricar o que é necessário como esforço vital para a sobrevivência, como mencionado por Jamie Galbraith em seu artigo recente sobre o vírus[6]. Por exemplo, precisamos reconverter a economia para produzir mais ventiladores, que são escassos, e também racionar a capacidade das famílias de acumular certos bens de consumo centrais, para impedir a escassez localizada de itens essenciais, como álcool gel para as mãos. Precisamos de planejamento, não apenas de mais gastos do governo. E, sim, isso significa socialismo (ou social-democracia). Isso é algo que nenhum cidadão americano ficaria surpreso, em particular após o incrível colapso da economia de mercado no início dos anos 30, e não deveria surpreender que o socialismo esteja um pouco mais popular agora. O COVID-19 deixa claro por que os mercados não conseguem lidar com a crise global como uma pandemia.

Outro elemento central do esforço da Segunda Guerra Mundial foi a preocupação generosa e estratégica com o impacto global das políticas dos EUA. O programa de empréstimos e arrendamentos, mesmo antes da entrada dos EUA na guerra, era crucial para permitir que o Reino Unido resistisse ao ataque nazista, e o programa subsequente, com a União Soviética, era crucial para que eles pudessem resistir e, eventualmente, para que vencessem a guerra no front europeu. Para derrotar o nazismo, as autoridades americanas estavam dispostas a cooperar com um governo comunista e fornecer a eles recursos expressivos. Uma abordagem semelhante deve ser usada para lidar com nações que não são vistas como aliadas (como os soviéticos na época), mas que em um contexto específico devem ser ajudadas, como Irã e Venezuela, que estão e estarão sob extrema pressão durante a pandemia. Os efeitos negativos na imagem dos EUA associada ao recrudescimento das sanções e aos impedimentos de empréstimos pelo FMI nessas circunstâncias serão difíceis de reverter.

Finalmente, alguns pensam que essa seria uma recessão de curta duração em forma de V. Significando que, uma vez levantadas as principais políticas de distanciamento social, a economia se recuperará rapidamente. Observe, no entanto, que a duração das medidas depende de seu próprio sucesso. Quanto mais bem-sucedidos estivermos no achatamento da curva, o que significa reduzir a taxa de contágio para evitar sobrecarregar o sistema de saúde, mais longa será a ruptura econômica e mais precisaríamos de uma economia planejada.

Por Matias Vernengo. Publicado originalmente em inglês no blog Naked Keynesianism. Link: http://nakedkeynesianism.blogspot.com/2020/03/world-war-ii-not-new-deal-is-model-for.html?m=1

Traduzido por Isabella Lofrano.

 

Referências:

[1] https://www.nytimes.com/2020/03/17/upshot/coronavirus-economy-crisis-demand-shock.html

[2] https://www.economist.com/finance-and-economics/2020/03/12/corporate-bonds-and-loans-are-at-the-centre-of-a-new-financial-scare

[3] http://www.levyinstitute.org/pubs/pn_2020_1.pdf

[4] https://www.patreon.com/posts/35087620

[5] https://www.dol.gov/ui/data.pdf

[6] https://www.project-syndicate.org/commentary/covid-19-america-response-wwii-mobilization-by-james-k-galbraith-2020-03

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