Qual o sentido político de defender a indústria?

Está ganhando força no Brasil deste 2019 o debate sobre indústria. A desindustrialização é forte, e se expressa em participação cada vez menor do setor de manufatura no PIB, crescimento industrial cronicamente baixo e perda de complexidade produtiva. Um caso é especialmente ilustrativo e deletério: a renúncia à tecnologia de aviação com a entrega vergonhosa da divisão comercial da Embraer à Boeing.

Para dar força a esse movimento de retorno da discussão industrial, me juntei a um grupo crescente de economistas desenvolvimentistas para uma iniciativa de comunicação sobre indústria e desenvolvimento. Abrimos um canal de Youtube chamado Revolução Industrial Brasileira (além de mim, participam dele diante ou detrás das câmeras os economistas Paulo Gala, Paulo Morceiro e Fernando Ferro).

Ali, os economistas e outros convidados analisam o cenário de empobrecimento e perda de qualidade da produção industrial nacional, enquanto a mim compete o trabalho de retratar o que ainda temos de capacidade de produção industrial. Explico: há anos, me especializei na produção de informação sobre diversos setores industriais. A junção do olhar teórico de economistas do desenvolvimento e a de um jornalista que vê o dia a dia da indústria é uma interessante somatória de informação que tentamos apresentar no canal.

Porém, surge a necessidade de questionar e afirmar o sentido mais geral deste trabalho. Qual o sentido político de mostrar o que o Brasil ainda é capaz de produzir (além de bens primários)?

Para além de uma visão restrita

Em primeiro lugar, é necessário responder uma crítica que consideramos rasa e vulgar: a de que a defesa da indústria nacional significa a defesa de empresários milionários que exploram o trabalhador.

Na atual fase do capitalismo financeiro, as economias periféricas (países não desenvolvidos) são empurrados com violência para uma ainda mais longínqua periferia. No lugar onde nos querem, não há espaço para nenhum grau de independência. A progressiva perda de complexidade produtiva em países como o Brasil é intencional e conveniente para o mundo desenvolvido, pois resolve dois problemas para o capitalismo central: a) quanto mais dependentes ficarmos, mais os produtos industriais deles serão demandados aqui; e b) quanto menos industrializados estivermos, menos poupança interna produziremos, o que nos tornará mais vulneráveis aos fluxos financeiros internacionais.

Para não falar nas consequências sociais deste projeto, que se expressam na generalização da informalidade, do subemprego, do emprego ocasional e da má remuneração. Uma força de trabalho condenada a batalhar a vida nestas circunstâncias não demanda formação, e é por isso que este projeto também mata na raiz o sistema educacional.
Portanto, a visão restrita de que “defender indústria é defender patrão” ignora o principal. Todas as forças produtivas dos países periféricos estão pressionadas a não se desenvolverem. Assim sendo, defender a capacidade nacional de produzir com crescente qualidade e complexidade significa declarar independência, afirmar que não aceitamos o papel subalterno e condenado que nos querem impor.
Defender o desenvolvimento econômico com base na formação de poupança interna (principalmente indústria) é um ato revolucionário na realidade brasileira. Por isso, a chamada “aliança de quem trabalha e quem produz” contra os sanguessugas financeiros internacionais e seus vassalos nacionais é a linha que se deve seguir.

Para além dos falsos conceitos

Com a intenção de facilitar a aceitação social deste projeto de primarização, espalhou-se no Brasil uma série de falsos conceitos a respeito do desenvolvimento industrial contemporâneo.

Um deles é o de que o setor industrial em si está em processo de morte lenta, e que será substituído por um inovador e tecnológico setor de serviços. Mentira! Eu frequento feiras internacionais regularmente e não há um só caso de país desenvolvido ou emergente digno que não tenha participação na corrida industrial do mundo.

Como se pode ver neste vídeo , a mentira que por aqui circula tem pernas curtíssimas.

Mesmo nações altamente desenvolvidas com poupança interna formada e níveis de qualidade de vida excelentes continuam a promover e qualificar suas indústrias. Mesmo eles sabem que, sem elas, um processo de empobrecimento se iniciaria. Ao contrário, eles transformam sua base industrial de ponta em plataformas complexas de produção/serviços. Isso é muito diferente de afirmar que no mundo desenvolvido os serviços substituíram a indústria. Não: o mundo desenvolvido tem serviços complementares à indústria.

Por sua vez, no mundo emergente digno, a corrida pela industrialização está à toda velocidade. Basta ver este vídeo para perceber as políticas industriais de Turquia e China em ação, com ótimos resultados. Apenas isso já deveria ser o suficiente para mudar o rumo do debate no Brasil, pois como país emergente indigno, relega à sua indústria um papel secundário.

A circulação deste tipo de desinformação no Brasil de hoje quer fazer esta mentira virar verdade, a fim que o país desista de ter um setor industrial pujante e competitivo.

Conhecer a indústria para reindustrializar

É necessário, portanto, reindustrializar o país urgentemente. Os debates sobre como fazer isto já começaram e estão por aí, na internet e na imprensa comercial. Mas ainda longe de adquirir a substância necessária para se tornar uma força política relevante.
Assim, nossa contribuição no canal Revolução Industrial Brasileira quer ter um duplo sentido.

Primeiramente, acreditamos que é preciso conhecer para defender. Os casos de empresas industriais ali apresentadas, longe de serem um vazio elogio da figura do empresário, são uma janela que abrimos para que o grande público possa perceber o que ainda nos resta de capacidade produtiva complexa. Complementamos este esforço com análises dos economistas, que explicam de maneira compreensível porque é importante que ainda tenhamos estas empresas industriais.

O segundo sentido do nosso trabalho é tentar forçar a “aliança de quem trabalha e quem produz”. O empresariado produtivo nacional se tornou presa fácil de um discurso que só lhe reduz. No fundo, o empresariado foi levado a crer que não é capaz de produzir coisas complexas, e que portanto deveríamos ceder a este projeto que quer destruir nossa capacidade de gerar poupança interna, e nos condenar ao subdesenvolvimento eterno. Os empresários nacionais também precisam ver na tela os casos de alguns de seus colegas que continuam remando contra uma forte maré.

Que os testemunhos apresentados ali lhes sirvam de lição para reagir e dizer não. Que voltem a declarar que o Brasil terá uma indústria que desenvolverá o país e seu povo.

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