Deserto alimentar: como a desigualdade escolhe quem pode comer bem

Dizer que a desigualdade social afeta a mesa da população brasileira parece óbvio, mas os problemas trazidos por ela são maiores do que podemos imaginar. A atual geração de crianças é a primeira que pode viver menos que os pais e o motivo é a alimentação.

As manchetes de alguns veículos de comunicação culpabilizam as crianças (“não sabem comer”) e seus responsáveis.  Porém, a despeito da educação alimentar, o problema também parece estar muito relacionado à desigualdade e a falta/dificuldade de acesso a comidas nutritivas.

Estudos iniciados na Escócia, na década de 1990 investigaram a qualidade dos alimentos que chegavam às mesas dos moradores de determinados bairros, bem como o tamanho e a localidade dos estabelecimentos que os vendiam. Dali surgiu a expressão “deserto alimentar”.

Muito embora não haja um consenso acerca do conceito de “deserto alimentar”, uma pesquisa realizada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos o definiu como uma região onde pelo menos 500 pessoas (ou 33% de um determinado setor censitário) residem a mais de 1,5km de um estabelecimento que venda comidas in natura.

No Brasil o assunto ainda é pouco conhecido, muito embora tenha um impacto enorme sobre a saúde da população e sobre o orçamento público. Segundo dados do Ministério da Saúde, mais da metade da população tem excesso de peso, sendo que 18,9% são obesos (o que pode acarretar em maiores chances de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, etc). Além disso, em 2017, por exemplo, 5.653 pessoas morreram de desnutrição no país.

Problemas como a alta ingestão de alimentos processados e ultraprocessados e a ausência de uma alimentação diversificada e rica em nutrientes contribuem para esse cenário.

Em São Paulo, por exemplo, foi verificado que há uma relação entre o consumo de alimentos saudáveis, a proximidade de estabelecimentos que os vendem e a renda média da população no entorno (as regiões mais ricas da cidade são mais beneficiadas com mercados, restaurantes e feiras do que as regiões mais pobres). Em outras palavras, é possível identificar pequenos desertos alimentares na malha urbana paulistana.

No âmbito nacional, o CAISAN (Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional) disponibilizou um estudo técnico de Mapeamento dos Desertos Alimentares no país em 2018. Na ocasião, foram analisados “como estão distribuídos espacialmente os estabelecimentos que comercializam alimentos no Brasil e, a partir de uma perspectiva territorial, analisou o acesso físico da população a estes estabelecimentos”. Apesar das suas limitações metodológicas, a pesquisa foi capaz de montar uma grande base de dados sobre as quais é possível realizar estudos locais e territoriais mais aprofundados, facilitando na identificação de desertos alimentares e na formulação de políticas públicas que alterem essa situação.

O que importa destacar é que se a formação de desertos alimentares e déficit na educação alimentar das famílias brasileiras tem como causa comum a desigualdade social, é fundamental que políticas de alimentação e nutrição estejam alinhadas com políticas urbanas inclusivas e mecanismos de superação da pobreza no país.

Sendo um problema de caráter estrutural, não é possível responsabilizar individualmente as famílias de baixa renda que apresentam problemas nutricionais. Essa é uma conversa que envolve a distribuição espacial das pessoas e comércios pelas cidades, quem são os produtores de alimentos in natura e como fazer esses alimentos chegarem à mesa de todos os brasileiros, como estimular o consumo de frutas, verduras e hortaliças, como manter o preço acessível dos alimentos orgânicos, controlar a utilização de agrotóxicos, etc.

Antes de tudo é preciso ter um governo comprometido com o bem estar da população e que possua um projeto de desenvolvimento econômico integrado. Mais paradoxal do que termos uma grande parte da população subnutrida e obesa é sermos um dos países com a maior produção agrícola do mundo e termos pessoas que não tem acesso fácil a comida saudável e fresca.

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