O desmonte da Petrobras e a vida do povo negro: qual a relação entre a geopolítica do petróleo e o racismo? 

Uma das maiores misérias intelectuais dos últimos anos, no Brasil e no mundo, é desligar o combate às opressões, e especificamente do racismo, das relações econômicas e geopolíticas. Muitos militantes – ou melhor: ativistas – da luta antirracista acham que temas como a estética do cabelo são mais importantes no combate ao racismo do que o destino da Petrobras e da nossa economia energética. Isso é falso. E só mostra como o antirracismo de mercado, liberal e culturalista, não tem qualquer capacidade crítica. Eu explico.

O governo proto-fascista e entreguista de Bolsonaro/Guedes/Moro anunciou a privatização de 8 refinarias de petróleo. Com esse pacote de privatizações, o país vai ser ferido de morte na sua capacidade de refinar o petróleo; isto é, a nossa gasolina, diesel, óleos lubrificantes e afins, vão ser comprados fora, pagos em dólares, gerando emprego nos Estados Unidos, Canadá, Noruega etc. As consequências são várias.

A – o custo dos combustíveis vai aumentar de maneira assustadora. Já que vamos pagar em dólar um produto que tem seu preço determinado pelos monopólios estrangeiros e seus correspondentes estados.

B – O aumento do custo dos combustíveis vai impactar em toda economia do país. A passagem de ônibus vai ficar mais cara, o preço dos alimentos, roupas, calçados, móveis e afins vai crescer (já que esses produtos são basicamente transportador a partir de caminhões que usam diesel). Também irá crescer o custo da energia elétrica e de vários bens e serviços. Em suma, teremos uma pressão inflacionária grande nos próximos meses e anos.

C – Aumento do custo de vida e redução de empregos potencializa a crise econômica, o desemprego, o crescimento da miséria e da fome. O país, já no buraco, vai descer ainda mais fundo. Ao invés de gerar empregos no Brasil refinando esse petróleo, vamos gerar emprego – e lucro para os grandes monopólios – fora do país.

D – Com a entrega dessas refinarias, e o processo mais geral de destruição da Petrobras, o país ficará ainda mais carente na geração de ciência, tecnologia e desenvolvimento e com menos soberania nacional; afinal, um país que não produz os insumos básicos para sua demanda energética é um país mais sujeito a bloqueios econômicos, pressões diplomáticas, sabotagem e boicotes.

A conclusão é óbvia: seremos um país ainda mais subdesenvolvido, dependente, desigualdade e com fome, pobreza, desemprego, miséria, violência, analfabetismo e afins crescendo. Nessa situação de caos social, é necessário controlar a insatisfação, a falta de legitimidade do sistema, o exército de desempregados e famintos.

A maioria dos brasileiros, especialmente entre os trabalhadores, são negros e pardos. Seremos, portanto, os mais afetados por essa política antinacional que interessa aos monopólios estrangeiros. Para controlar essa massa de miseráveis – repito: majoritariamente negros! – é indispensável potencializar a violência policial, a política de extermínio, o encarceramento em massa, a militarização das favelas, a brutalidade do judiciário. Todo esse aparato de controle, repressão e extermínio precisa, ainda que em algum grau, de um discurso legitimador disso tudo. Que discurso ideológico é esse? Oras, o racismo como ideologia-mãe de uma série de ideologias secundárias: guerra às drogas, combate ao crime organizado, bandido bom é bandido morto, preso tem que morrer etc. etc. etc.

Não é como se os gerentes do Estado dessem uma ordem de cima mandando aumentar o grau de racismo da sociedade. Nesse caso, como diria o velho Althusser, temos um “processo sem sujeito”. Ou seja, dado o racismo ser um determinante estrutural do capitalismo dependente brasileiro, elemento indispensável da extração de mais-valor e dominação política, todo agravamento da exploração e dominação, tendencialmente, requer um uma musculatura maior do sistema de dominação burguês-racista.

Quanto mais dependência e subdesenvolvimento, mais racismo. Quanto mais pobreza e desigualdade, mais racismo. Existe uma linha de continuidade através de uma série de mediações entre o desmonte da Petrobras e da Embraer, por exemplo, e o Exército ocupando a favela dando 200 tiros em uma família trabalhadora negra em um carro.

Lutar contra o racismo significa, dentre outras coisas, defender a nossa soberania nacional e nossas riquezas naturais como questão de vida ou morte. Afinal, sabe o produto para cabelo que você usa para se “empoderar”? Então, muitos deles têm algum componente de derivados do petróleo e agora eles vão ser pagos em dólar!

Por Jones Manoel

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