NELSON MARCONI: Será a economia brasileira realmente fechada?

Essa semana essa questão voltou à baila com a discussão sobre o acordo comercial Mercosul-UE. A resposta à pergunta acima é: em termos; é parcialmente aberta, ou parcialmente fechada, como você quiser interpretar, da pior forma possível. Para explicar esse argumento, tomei emprestada essa tabela excelente do meu amigo e co-autor de artigos, Guilherme Magacho.

Nela podemos notar que há coeficientes de insumos importados bastante elevados nos produtos de alto conteúdo tecnológico e coeficientes de exportação elevados apenas em produtos de baixo conteúdo tecnológico. O coeficiente de insumos importados mensura a participação destes insumos ao longo de toda a cadeia produtiva no total de insumos utilizados (para cada setor). O coeficiente de exportações mensura a participação de exportações no total de bens produzidos no país (também em cada setor).

Vemos, então, que somos abertos para importar insumos de maior conteúdo tecnológico e exportar produtos com menor conteúdo tecnológico. Se, pelo menos, ao mesmo tempo em que importamos estes insumos exportássemos produtos com a mesma qualidade, estaríamos bem. Mas não. Exportamos produtos manufaturados pouco sofisticados (a tabela inclui apenas os produtos da indústria). Estamos no rumo das maquilas nos produtos de maior conteúdo tecnológico. Nossos processos de abertura, quando o ocorreram , sempre privilegiaram os estímulos às importações e não às exportações.

Só para lembrar porque as exportações de manufaturados são tão relevantes, em 1964 elas equivaliam somente a 6% de nossas exportações totais. Em 1980, correspondiam a 45% (não é à toa que nossa economia cresceu tanto nesse período, dado o salto dessa classe de exportações). Em 1993, nosso pico, chegaram a 61% e em 2018 voltamos para 36%. Nossa economia está se reprimarizando. Não há como achar que esse cenário, de retorno ao passado, vá implicar em mais crescimento. O Chile e a Austrália, os grandes exemplos dos liberais para defender a indiferença em relação à estrutura produtiva de um país, possuem menos de 9 e 12% de nossa população, respectivamente. A necessidade deles em gerar empregos é muitíssimo menor que a nossa, e uma estratégia baseada em recursos naturais e serviços associados pode até ser suficiente para gerar os empregos necessários, ainda que deva implicar em concentração da renda.

Nosso índice de subutilização da mão-de-obra, e de precariedade dos empregos, é em boa parte explicado, do ponto de vista estrutural, por esse processo de reprimarização. Muita gente não entende isso e, portanto, esse argumento precisa ser repetido à exaustão. Mas não nos enganemos, também tem bastante gente que sabe muito bem o que está fazendo.

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Por Nelson Marconi

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