ELIAS JABBOUR: a TINA matou Marielle

A prisão de dois suspeitos da morte de Marielle fecha o cerco, ao menos aparente, sobre os mandantes do covarde crime. Falar em “milícia” é genérico demais e pode servir como zona de conforto de algo mais profundo e complexo: a era do neoliberalismo e do capitalismo financeirizado. Do “Estado Mínimo” à serviço dos detentores de títulos da dívida. De um sistema financeiro que suga quase metade da mais-valia produzida pela sociedade com retorno quase zero a esta mesma sociedade.

Este tipo de sociedade, formada no Brasil desde a falência de nosso Estado Nacional-Desenvolvimentista, é pródiga em produzir sujeitos de todo tipo. Desde monstros perfeitamente identificáveis nos homens da família Bolsonaro até pastores que vendem pedaços do céu na terra. Produz “técnicos” acima do bem e do mal para convencer que os políticos só atrapalham. Uma forma interessante de dizer que a democracia não cabe em nenhum modelo de equilíbrio geral montado por um economista neoclássico sob efeito de muita… droga.

A austeridade fiscal é uma poderosa arma de domesticação dos trabalhadores. Prontos a disputar um trabalho pela metade de seu “preço natural”. Uma volta às condições descritas por Engels em seu clássico livro sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra. A miséria da ausência do Estado produz também “herois e heroinas do povo”. Um tipo de gente que sem entender nada de economia monetária insiste em colocar em questão a chamada, por Margareth Thatcher sobre o neoliberalismo, TINA (There’s no Alternative). O “crime” cometido por Marielle foi exatamente esse.

O que significa a TINA em um país que se industrializou sem prévia reforma agrária e que vive em estado de semi-estagnação econômica há mais de 30 anos? Significa a proliferação do medo e do fascismo. Alianças espúrias entre políticos corruptos metidos em pequenos esquemas com grupos de extermínio, esquadrões da morte e covardes de aluguel que à troco de quase nada se dispõe a tudo. Assim é o exercício do micropoder por pequenos agentes mal remunerados de um Estado que se diminui a cada pacote fiscal anunciado. É assim que as coisas funcionam numa via prussiana incompleta em um país de 210 milhões de pessoas.

Será preso quem apertou o gatilho contra a heroína do povo pobre e excluído por uma Moloch que a tudo devora ao seu redor? Disso não tenho dúvidas. Se chegará em alguma grande figura da República, talvez o presidente e seus filhos, quem decidirá é a Rede Globo.

Mas a Grande Impunidade continuará ilesa produzindo seus monstros e alguns heróis e heroínas que desafiarão, sem grande senso de direção, a tal da TINA. Essa mesma TINA que faz a taxa de investimentos em relação ao PIB beirar, no Brasil, índices de países em guerra (15%). Que culpa o povo pobre compradora de eletrodomésticos em milhares de prestações pela inflação a ser combatida pelo inseticida que mata gente, a taxa de juros.

Nossa taxa de investimentos em relação ao PIB é inversamente proporcional ao grau de barbárie reinante na sociedade. A TINA criou os algozes de Marielle. A TINA assassinou Marielle.

Por Elias Jabbour

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