Crônicas de um país que se entrega: Embraer e desindustrialização

Parte 1: Ontem estive num debate na faculdade Mackenzie sobre desindustrialização do Brasil. Um advogado de São José dos Campos, que conhece a Embraer por dentro, pediu a palavra e trouxe uma novidade. Segundo ele, os funcionários mais velhos da empresa compreendem que a Boeing vai acabar com a Embraer. Mas os mais jovens não!

Ele diz inclusive que os jovens já estão fazendo planos para morar em Seattle, onde fica a sede mundial da Boeing!

As gerações mais jovens no Brasil simplesmente ignoram por completo a divisão internacional do trabalho feita pelos poderes do capitalismo central. Acham que serão convidados a participar do banquete.

Parte 2: Dias atrás, estive no Chile a trabalho. Mas como vivi lá por alguns anos, reencontrei amigos. Todo mundo pergunta sobre o Brasil, ninguém consegue entender totalmente o que nos aconteceu.

Vou contando casos, relatando o que tem sido o governo do B***, e as reações são em geral de desaprovação.

Lá pelas tantas, menciono a entrega da Embraer, e explico os detalhes.

¿Pero vendieron la Embraer? ¿Cómo pueden?, ¡esto es una joya latinoamericana!

Juro, ouvi esta frase.

Parte 3: No debate de ontem, o assunto foi abordado nos termos mais que óbvios. A Embraer representa o único setor produtivo de alta tecnologia em que o Brasil ainda participava. Sem ela, nossa capacidade produtiva fica menos complexa, gerando assim um efeito de simplificação produtiva que se espalhará aos poucos por vários outros setores. De tanto aprofundar este processo, o país vai se tornar uma economia básica, tipo início do século 20. Só que com 208 milhões de pessoas mal remuneradas querendo consumir alta tecnologia.

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Gilberto Bercovici, Nelson Marconi e Paulo Gala em debate organizado pelo Portal Disparada (17/10/2019) com o tema Direito Econômico e a Desindustrialização do Brasil

Parte 4: No Chile, eles chegaram à conclusão correta com mais facilidade do que os jovens brasileiros. Quando lhes dizia que os mais de 4.000 engenheiros seriam demitidos e as fábricas seriam fechadas, assentiam com o olhar, entristecidos.

A cabeça de muita gente jovem no Brasil foi tomada de assalto por uma visão edulcorada do mundo real. Tenho pena da dor que sentirão quando se derem conta do que ajudaram a criar.

1 Comentário

  • Sera que iriamos sobreviver com o surgimento da airbus no mercado dos avioes até 140 acentos?,eu particularmente acho que não,alem da entrada dos japoneses e chineses,perder a nossa identidade já perdemos faz tempo,isso em 1994.

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