Energia: uma visão ecológica e trabalhista

Por Lauro de Almeida Neto – Nada se faz sem energia. Ela é necessária para o nosso desenvolvimento, para a abertura de um novo portal de competitividade nacional, para manter e gerar novos empregos. A nossa energia hoje é muito cara. Chega a ser de duas a cinco vezes mais cara do que a de países como Canadá e China.  Até países com ativos naturais muito inferiores aos nossos possuem uma energia mais barata. Mantida esta situação, teremos grandes dificuldades para sermos competitivos e para alcançarmos um novo patamar de desenvolvimento econômico.

Energia não deve ser um segmento eminentemente lucrativo. Ela deve assegurar que as empresas aqui instaladas aumentem competitividade, eficiência e lucratividade. A base do sistema deve ser 100% estatal, tanto na geração quanto na transmissão. Os sistemas complementares e geração distribuída, podem ter diferentes modelos de gestão: Estatal, parcerias público-privadas (PPPs) ou privado, com o Estado assegurando que todos trabalhem juntos.

Como primeira missão, precisamos rever o nosso modelo de gestão e de precificação da energia, permitindo-nos assegurar menor custo e maior competitividade.

O Brasil é a maior potência multienergética e sustentável do planeta. Temos condições de gerar grande quantidade de energia a partir de fontes limpas e renováveis. Porém, este potencial tem sido armazenado de forma latente.

Estamos importando tecnologias, de quem não tem interesse em que nós conquistemos conhecimento local. Esta autonomia nos permitiria definir as melhores estratégias que deveríamos aplicar. O caminho para conquistarmos o conhecimento necessário para implementar de forma eficiente, ecológica e soberana nossos potenciais se inicia pela solidificação da ciência nacional, aprofundamento de um programa nacional de pesquisa e desenvolvimento (P&D) soberano.

O setor sucroalcooleiro possui usinas de geração termelétrica, a bagaço de cana, e apenas esta atividade deste segmento representa hoje quase 16% da nossa matriz energética. É possível um aumento de mais de 35% nesta geração, apenas com uma mudança de tecnologia.  Imaginem uma vista explodida da cana com todas as suas moléculas. Separando só o que é necessário para a produção de açúcar e álcool, e utilizando o restante de outra maneira para a produção de energia, teríamos uma nova geração de equipamentos, capazes de gerar muito mais energia, com a mesma cana.

Nós temos 14 milhões de hectares de reflorestamento, maior que a área plantada de cana (13 milhões de hectares). Na retirada destas florestas para a produção de celulose, a geração de biomassa que não é utilizada é de quase um terço. Aqueles equipamentos das usinas de açúcar podem ser transferidos para este setor e gerarem energia com biomassa.

Além da biomassa, temos também um potencial enorme para a energia solar heliotérmica. Diferentemente da fotovoltaica, que transforma luminosidade em energia, a heliotérmica capta as micro-ondas solares e as concentra para gerar muito calor, sem permitir que ele retorne de forma refletida. A heliotérmica capta 11 vezes mais energia que a fotovoltaica por metro quadrado. É possível fazermos usinas solares heliotérmicas, e também é possível usar esta tecnologia junto com a biomassa, seja do setor sucroalcooleiro ou dos reflorestamentos. Teríamos aí mais um salto de eficiência na geração de energia, combinando solar e biomassa, gerando. A tecnologia voltada para a energia solar heliotérmica pode ser adaptada a nossa realidade e fabricada no Brasil

A coleta e o tratamento de esgotos, assim como a coleta e manejo adequado dos resíduos sólidos urbanos (RSU), estão inter-relacionados aos temas acima. É possível obter, ao mesmo tempo, uma melhoria nas nossas condições sanitárias, recuperação hídrica, da natureza, com aumento da qualidade de vida e novas conquistas sociais. gerando muitos empregos verdes e energia de forma sustentável.

A partir do esgoto e da parcela úmida e orgânica do RSU, podemos produzir biogás, que, tratado e dessulfurizado, pode ser usado para a geração de energia elétrica e térmica. Além do biogás, o processo de biodigestão anaeróbica abre a possibilidade de produzirmos biofertilizantes, que podem ser utilizados em hortas coletivas de cooperativas municipais ou comunidades, ou comercializados.

Isto é viável nas cidades maiores, mas com o novo marco do saneamento, que permite a criação de cooperativas de autarquias municipais, os municípios menores poderão se unir para viabilizar estes projetos, então teremos possibilidade de aplicar isto em quase todo o território nacional, em grande parte dos nossos 5.570 municípios, e resgatar um potencial de geração de energia com lixo da ordem de mais de 5 GW.

Falando em equipamentos, o setor eólico já possui algo em torno de 15.000 aerogeradores produzindo energia no Brasil, equipamentos cujas montadoras foram localizadas aqui, com conteúdo nacional, gerando em todo o segmento mais de 65.000 empregos.

Todos estes equipamentos da geração atual, desenvolvidos por grandes empresas multinacionais, trarão problemas na logística reversa, confeccionados com compósitos termofixos. Daqui a 30 anos tudo isto será lixo, mais de um bilhão de toneladas de material não reciclável. Com P&D soberana, poderemos projetar e desenvolver aqui os novos materiais, e uma nova geração de equipamentos feitos com materiais biodegradáveis, de origem brasileira. Esta tecnologia poderá ser até exportada.

Se nós conseguirmos progredir para uma nova situação, onde a energia passe a custar cada vez menos, precisaremos, ainda, pensar como continuar fomentando a eficiência energética. O potencial nacional de implantar eficiência representa no mínimo 5% da nossa atual matriz energética, ou seja, 8.5 GW, uma potência maior que a da usina de Tucuruí.

A nossa terceira missão será harmonizar um sistema no qual todos possam contribuir e onde a evolução do real conhecimento possa ser ampliada e aplicada, criando uma sinergia entre Estado, PPP e iniciativa privada, gestionada pelo Estado brasileiro, com muitas oportunidades para o setor privado participar.

Com energia barata, de fontes renováveis, conseguiremos atingir um novo nível de competitividade para o tão necessário processo de reindustrialização, além de atrair novos empreendimentos industriais, comerciais e turísticos. Isso sem falar nos empregos que seriam gerados na indústria de infraestrutura e de energia em geral, na implantação, na gestão, e no desenvolvimento e fabricação de equipamentos nacionais.

Porém, sem P&D soberana, seremos simplesmente clientes das grandes montadoras globais e fabricantes de equipamentos de inúmeras tecnologias, teremos dificuldade para aplicar as melhores soluções para as nossas realidades, e forçados a absorver aquilo que eles tenham interesse em vender para nós.

Energia: uma visão ecológica e trabalhista

Por Lauro de Almeida Neto, engenheiro, especialista em energias renováveis e eficiência energética e militante do Ecotrabalhismo SP

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