Ensino remoto e o desespero de pais, alunos e professores na pandemia

O coronavírus não veio revelar ao país apenas as consequências do subfinanciamento do SUS e da destruição da indústria brasileira, o que está nos obrigando a importar desde respiradores e reagentes a simples máscaras de proteção. Nesses tempos sinistros em que vivemos, estamos sentindo na carne os efeitos de trinta anos de neoliberalismo nas mais diversas áreas.

Na política, colhemos o resultado da vitória do discurso da antipolítica. A pregação tecnocrata disseminada por décadas em todos os veículos de difusão ideológica, com especial destaque à mídia e às universidades, construiu a metafísica da nossa tragédia. Na economia, lutamos por 100 anos para não sermos a fazenda da Europa para, no fim, implorarmos de joelhos para sermos a fazenda da China – e numa época em que não cabemos mais em fazendas, como podemos ver nas humilhantes e gigantescas filas dos miseráveis na porta da Caixa Econômica. Por onde se olha, escombros. Pior: escombros de grandes construções, que insultam o presente com fragmentos dos nossos feitos do passado.

Há dois meses, o Brasil vem descobrindo outra ruína oculta nos precários indicadores de avaliação educacional usados no país, que já eram trágicos por si. As escolas fechadas por causa da quarentena foi a deixa para os tradicionais veículos de difusão ideológica nos bombardearem com a solução vinda do mundo da Revolução 4.0 para salvar o mundo da Realidade 1.0 em que vivemos: o ensino remoto. Com isso, a intimidade das salas de aula passou a ser exposta ao país com todas as vergonhas de fora.

A primeira delas é o já esperado efeito da exclusão digital – um quinto dos domicílios brasileiros não tem acesso à internet. E mesmo que todos tivessem banda larga em casa, o ensino remoto tem uma deficiência que não aparece nas propagandas da TV: a merenda não vai via web, em um país onde essa é a principal refeição de um grande contingente de crianças e adolescentes.

Além disso, as secretarias de educação, outro setor subfinanciado e que corre o risco de piorar sua situação com as ameaças de desvinculações orçamentárias que correm no Congresso, se mostraram despreparadas para atuar na emergência da pandemia. Ainda assim, algumas delas, somadas às escolas privadas aterrorizadas com a possibilidade de não receberem as mensalidades, passaram a adotar essa modalidade de ensino de forma emergencial. (Cabe lembrar aqui que manter a data do ENEM num cenário desse foi uma violência com requintes de crueldade!)

Com a mudança do ambiente de trabalho, surgiram pelas redes sociais inúmeros vídeos e áudios de pais, alunos e professores desesperados com a nova realidade escolar. Obviamente que o desespero de quem tem filhos em escolas que não introduziram ainda o ensino remoto é muito pior. Contudo, mesmo no grupo de “privilegiados” a situação não é das melhores, como as lágrimas, revoltas e berros que circulam pelo Whatsapp têm mostrado.

Professores improvisando em plataformas online por pressão das escolas e pais exaustos e humilhados por não conseguirem ajudar os filhos nos conteúdos escolares são dois personagens atuais que emergiram da pandemia. Enquanto isso, o ensino remoto continua sendo vendido como uma panaceia da educação, livre das chatices escolares, onde o aluno faz o seu horário como quiser e pode estudar usando as mais avançadas tecnologias. Teve dúvidas? Nossos professores estarão disponíveis em chat online para tirá-las! Tudo milimetricamente organizado e precisamente remunerado, como manda a moderna cartilha da uberização dos serviços. O futuro chegou!

Ensino remoto e o desespero de pais, alunos e escolas na pandemia

Obviamente, as novas tecnologias têm papel importante no processo de ensino e aprendizagem e podem atualizar as práticas pedagógicas, inclusive incorporando o ensino remoto em alguma medida, se puder ser minimamente protegido das pressões mercadológicas das instituições privadas ou austericidas de governos de plantão. Porém, reduzir a dimensão educacional à absorção de conteúdos segmentados em apostilas, apresentados em aulas-show no Youtube e reproduzidos em testes que verificam a apreensão de informações é uma ideia que se sustenta mais pela rentabilidade que pela pedagogia.

Os sistemas de ensino de massa, que foram se formando ao longo dos séculos XIX e XX, exigem certa padronização para sua organização e financiamento. Definição de conteúdos, livros didáticos, hora-aula, carteiras dispostas em fila diante de uma lousa… tudo o que vemos em uma escola foi desenvolvido em um determinado momento por uma razão. Aliás, por muitas razões. Tão diversas, complexas e intrincadas que o fenômeno da educação escolar não pode ser apreendido por uma só ciência e sob um único ângulo. A didática, a sociologia da educação, a política educacional, a psicologia da educação, a história da educação etc, vão compondo as peças que formam esse sistema que funciona em escala planetária, demanda o manuseio de gigantescos orçamentos e mobiliza mais de um bilhão de pessoas diariamente.

De dentro da escola, como estudante, ou até mesmo como professor, é difícil ter uma visão completa desse processo. Uma coisa que ninguém nunca lhe contou é que muito do que você conseguiu aprender na escola tem mais relação com o meio social do qual você veio que pelos métodos escolares em si. Aliás, grande parte do seu sucesso escolar se deu por ter frequentado uma instituição que valoriza aquilo que você trouxe de fora: da forma de falar ao que você fazia em seus momentos de lazer, incluindo aí a capacidade de mobilizar esforços para os estudos, atributo muito valorizado e incentivado em algumas camadas sociais.

Isso não é algo evidente e foi uma descoberta que mudou completamente a visão da escola sobre si mesma. A crença de que a oferta de uma escola pública gratuita a todos daria uma igualdade de oportunidades, capaz de realmente premiar o mérito dos mais esforçados, caiu por terra nos anos 60 do século XX. Essa foi a conclusão de imensos estudos quantitativos feitos na Europa no período, que revelaram um fenômeno curioso: apesar de frequentarem escolas iguais, os filhos da classe operária iam muito pior nos estudos que os das famílias mais abastadas.

Claro, sempre houve exceções de pessoas que conseguiram romper com esse destino estatístico e superar suas dificuldades. É comum vermos esses heróis servirem aos veículos de difusão ideológica como provas, ao senso comum, da meritocracia na qual repousa parte do credo liberal. Porém, como sabemos, e como os difusores de ideologia sabem melhor ainda, nem sempre o que é uma verdade do ponto de vista biográfico é também uma verdade do ponto de vista sociológico.

A boa notícia dessa descoberta desconfortável ao ambiente liberal é que enfrentando as desigualdades e ampliando o investimento na escola pública, o problema se atenua consideravelmente. E isso ocorre em tal proporção que a escola pode até atrapalhar no desenvolvimento das crianças. Outra descoberta surpreendente feita anos depois!

Como a escola, de certo modo, reproduz e potencializa o que as crianças trazem do seu convívio social, à medida que uma sociedade vai se educando mais, em conjunto e de forma igualitariamente distribuída, ela vai fornecendo mais bagagem cultural, técnica e informacional às crianças, inclusive para incorporação de tecnologias e hábitos educativos. Além disso, há que se considerar que a escola, especialmente em países que adotam o ensino integral, representa grande parte da vida social de crianças e jovens, criando uma via de mão dupla, em que o ambiente externo também se altera com o que ocorre no ambiente escolar. Esse é o cenário que vemos hoje na Finlândia, por exemplo:

No entanto, a Finlândia é um país com altos índices educacionais, população pequena (cerca de 5,5 milhões de habitantes), bom desenvolvimento tecnológico e que se beneficiou bastante de uma posição privilegiada na Guerra Fria. É uma realidade muito particular.

Na competição capitalista cada vez mais acirrada por sucessivas revoluções tecnológicas, a escola se torna parte central da guerra econômica entre as nações. Conhecimento é poder e patentes, riqueza! Além disso, há que se treinar a mão de obra para tarefas com crescente sofisticação técnica e promover os tão almejados ganhos de produtividade que potencializam a transformação do trabalho em riqueza.

Você nunca se perguntou por que vivemos numa sociedade que se esforça tanto para que todas as pessoas saibam trigonometria, ou que conheçam os complicados nomes e funções das mais minúsculas partes de uma célula? “Para entender o funcionamento do mundo” – responderão. E qual visão de mundo é possível se extrair desse conhecimento fragmentado e padronizado, formado por um sem-número de conceitos abstratos das ciências, sem necessária ligação nem com a vida dos estudantes, nem mesmo com as atividades profissionais que estes seguirão no futuro?

Essa justificava não explica o predomínio tão acentuado de alguns tipos de abordagens e conteúdos em detrimento de outros. Teatro ou eletrodinâmica: qual desses conteúdos escolares está mais presente nos currículos? Óbvio que conhecer os mecanismos da eletrodinâmica é importante para a compreensão do mundo ao nosso redor. A questão é que esse conhecimento não se apresenta como parte de uma “compreensão de mundo”, mas como fórmulas, conceitos, gráficos e, muitas vezes, sem nem mesmo serem precedidos de algum tipo de experimento real, mas, certamente, sucedidos de uma prova com questões do tipo: “calcule”, “determine”, “encontre”. Essa é a forma do conhecimento instrumentalizado para a guerra econômica na qual estamos metidos.

Essa guerra se torna especialmente cruel na periferia do capitalismo latino-americano, onde estamos nesse momento ouvindo os áudios dos pais, alunos e professores desesperados na quarentena. O desemprego estrutural converte as promessas da escolarização em massa em meros tormentos procedimentais para organizar as longas filas do mercado de trabalho. É aí que entram as empresas que propagandeiam o ensino remoto, prometendo organizar essa fila de forma mais barata e rápida, diplomando a mão de obra excedente com velocidade.

Além disso, a falta de indústrias e centros de pesquisa integrados, fonte da fuga de cérebros da periferia, ainda torna o espaço para a inventividade daqueles vocacionados para tal, cada vez mais estreito. E a baixa escolaridade média da população, que tanto transtorno está trazendo atualmente a pais, estudantes e professores na execução de tarefas escolares mais elementares, torna o ambiente social dos alunos muito limitante para prover o desenvolvimento que a escola é capaz de realizar.

Isso ocorre mesmo nas bolhas dos endinheirados que tentam isolar os filhos das tragédias nacionais em suas escolas caras, livrarias chiques e programas culturais dos mais sofisticados, como se não estivessem submetidos aos limites que uma sociedade desigual promove a todos. Pois tenho uma péssima notícia para você e vou dá-la usando um conceito da biologia que nunca mais utilizei depois do ensino médio: na sociedade de massas a ignorância social passa por osmose.

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1 Comentário

  • A visão catastrófica apresentada no texto é típica das teorias da reprodução social através da escola. Essa teoria deixou de ser hegemônica pelos estudos empíricos do final do século passado, que apresentaram indícios de que as relações sociais também se dão de baixo para cima, das salas de aula e das escolas para os centros de comando da educação, criando um jogo de forças mais complexos do que a mecânica simplista da reprodução da sociedade capitalista. O conceito de dialética é fundamental nesse entendimento. Faltou apresentar alguma perspectiva no texto, alguma alternativa. Mas pelo que li, a alternativa seria a mudança radical na sociedade, e assim na escola. A mudança entretanto pode vir de dentro da escola também. Mas para isso a escola deve funcionar não presencialmente. Portanto a educação remota é necessária.

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