EUA: debate público reacende necessidade de mais Estado na economia

O Financial Times, um dos jornais econômicos mais lidos do planeta (britânico de origem, porém com uma edição internacional de ampla circulação, principalmente nos Estados Unidos), reacendeu ontem o debate sobre a importância de mais Estado na economia norte-americana.

Em importante editorial do dia 12 de agosto, o Financial Times admitiu a cada vez mais clara necessidade de transição para uma economia conduzida por trabalhadores.

O editorial começa lembrando o passado dos Estados Unidos: sob Alexander Hamilton, primeiro Secretário do Tesouro dos EUA e fundador do primeiro banco nacional, políticos dirigiram a industrialização do país. Até a presidência de Ronald Reagan, era normal presidentes apoiarem o papel do Estado, diz o FT.

A partir de então, apesar de evidências em sentido contrário, estabeleceu-se um consenso político de que os mercados alocam os recursos econômicos de forma mais eficaz.

O jornal avança afirmando que a política monetária não é mais um instrumento suficiente para dinamizar a economia dos EUA. Com o país apresentando sinais de recessão e um setor privado sem interesse em financiar projetos de infraestrutura de baixos retornos, por exemplo, discute-se a relevância de uma política industrial guiada pelo governo.

Segundo o FT, esse tema foi central nos recentes debates presidenciais do Partido Democrata. Elizabeth Warren, Joe Biden, Kirsten Gillibrand e Marco Rubio têm levado adiante a discussão sobre os desafios atuais da economia norte-americana a partir desse paradigma.

A senadora Elizabeth Warren, por exemplo, sugeriu a criação de um Departamento de Desenvolvimento Econômico, voltado para o financiamento federal de pesquisa, qualificação da força de trabalho, e  garantia de benefícios às empresas que produzirem nos EUA.

De acordo com a senadora, não se trata de “socialismo”. O Estado nunca deixou de tomar decisões econômicas. Para ela, a escolha de reproduzir uma economia baseada na dívida ao invés da renda e da indústria, como atualmente se organiza a economia norte-americana, também passa pelo Estado.

O senador Marco Rubio, por sua vez,  lançou um relatório em Maio que reconhece a presente incapacidade do mercado de capitais para financiar negócios que não sejam financeiros. Leia-se, é cada vez mais raro o financiamento para a produção, a economia real, nos EUA.

A opinião de Rubio, nas palavras do Financial Times, é uma verdadeira transformação, já que ele é uma importante figura conservadora da política dos Estados Unidos.

Apesar do avanço do debate, o FT chama atenção para pontos ainda em aberto: como harmonizar a criação de empregos, o comércio e uma política externa construtiva?

À sombra desta pergunta paira a guerra comercial entre EUA e China, a exatamente uma semana desde que os chineses desvalorizaram radicalmente sua moeda para fazer frente às tarifas comerciais impostas por Donald Trump.

Isso porque, ressalta o jornal, muito do engajamento do Partido Democrata nessa questão aparentemente tem ocorrido através da emulação da retórica do presidente dos EUA, o que inclui a reivindicação do protecionismo como expressão do nacionalismo econômico.

Não há dúvidas de que o Financial Times seja tradicionalmente um jornal liberal. Até mesmo a compreensão da necessidade de recuperar a presença do Estado na economia, centralizando o trabalhador e o trabalho na dinâmica econômica de um sistema nacional, se apresenta vinculado à preocupação com uma ordem econômica internacional amparada em mecanismos de livre-comércio.

Há que se reconhecer, porém, que para um país hegemônico como os EUA, emissor exclusivo da moeda de circulação e uso internacional (o dólar), a dificuldade para se retirar da economia global refugiando-se no nacionalismo econômico é verdadeira.

Existe uma vasta literatura, baseada tanto na economia política internacional quanto em teorias como a do sistema mundial moderno, cujas premissas postulam o sistema internacional como dependente de um poder hegemônico, indicando que uma retirada desse tipo resultaria em um profundo caos generalizado.

Esse caos é indicativo da perda de capacidade do país hegemônico em dar sentido e organizar a relação dos países e das economias nacionais entre si. Como reindustrializar os Estados Unidos sem desorganizar a hierarquia política e econômica internacional, se todo o debate posto atualmente sobre a industrialização passa pelo nacionalismo econômico?

Este é o dilema atual da principal potência mundial.

Como lição para o Brasil, só podemos concluir que a retomada do Estado na economia, concretizando um amplo projeto nacional de desenvolvimento centrado no trabalhador brasileiro, é cada vez mais urgente.

 

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