A visão de Haddad sobre indústria é míope e insuficiente

Fernando Haddad publicou um artigo sobre a indústria brasileira e entrou no debate sobre o que se convencionou chamar de “burguesia nacional” e a histórica acusação de que ela não teria compromisso com projeto de país. O artigo é ridiculamente superficial, o que pode ser desculpado pelo pouco espaço oferecido pelo jornal. Mas a miopia e a insuficiência das ideias contidas são tamanhas, que nos dá até medo do que sairia se o ex-ministro tivesse mais espaço para tratar de um tema que provou desconhecer.

Antes de produzir uma resposta, é preciso deixar uma coisa estabelecida: O PT, partido de Fernando Haddad, nunca buscou a concepção de um projeto de país cujo desenvolvimento industrial independente fosse uma das alavancas mestras da descolonização. Ao contrário, o PT sempre leu a indústria de maneira pedestre, sem distinções internas e colocando todo o setor empresarial nacional no balaio dos “patrões”. É por causa disso que, quando foram governo, fizeram um arremedo de política industrial inteiramente incapaz de transformar a estrutura produtiva do país, afora outros problemas. Pagamos hoje o preço daqueles anos. Agora, com o ressurgimento do debate industrial e desenvolvimentista, pega carona oportunista e, óbvio, se sai muito mal.

Haddad vai pegar em Fernando Henrique Cardoso a explicação para o alinhamento das diretorias das entidades industriais com o governo Bolsonaro. Restaura a tese segundo a qual os industriais brasileiros são fundamentalmente refratários à ideia de projeto de desenvolvimento do país, e se declara então tributário de uma visão que conceitua toda a classe empresária como dependentista assumida, e politicamente dirigida pela sua taxa de lucro imediata e por seus patrimônios familiares. Isso leva necessariamente à conclusão de que qualquer perspectiva de desenvolvimento no Brasil tem que estar atrelada à abertura completa dos setores econômicos nacionais ao controle estrangeiro, dado que nós como sociedade seríamos incapazes de sofisticar a base produtiva de maneira a desenvolver o país Brasil por esforço próprio. Ou seja, Liberalismo puro e destilado.

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Nada muito diferente, por exemplo, de uma linha de pensamento totalmente esquerdista representada por Rui Mauro Marini e outros pensadores da dependência, que concluem pela incapacidade intrínseca da classe empresária brasileira em promover um acordo pelo desenvolvimento (também por patrimonialismo individualista). A diferença é que Marini afirma que o que se deve fazer é uma revolução brasileira que ponha o desenvolvimento exclusivamente sob controle das classes trabalhadoras.

Este é o momento em que o leitor deve perguntar: mas não é verdade que a classe industrial brasileira é dependentista assumida e politicamente dirigida apenas pela manutenção de seus patrimônios familiares?

Sim, é claro que é verdade. O problema é que este não é o ponto central do debate!

O ponto central do debate é que: a) não existe UMA classe industrial brasileira, pois ela é heterogênea, carrega visões distintas dentro de si, e entre as poucas coisas que lhe são comuns nos dias atuais é a sensação de orfandade em relação a um contexto de facilitação da produção; e b) a ELITE dentro da classe industrial hoje instalada no país é toda internacional e é apenas gerenciada por executivos brasileiros, portanto é claro que eles controlam as grandes entidades do setor e é claro que estas entidades apoiarão projetos dependentistas pois esse é o trabalho das multinacionais.

Agora, o leitor inteligente deveria se perguntar: ora, se é verdade que a classe industrial é heterogênea, mas artificialmente uniformizada por uma elite internacional que a controla via gerentes e entidades (CNI, FIESP etc), será então que sua posição política é necessariamente contra um projeto de desenvolvimento de país? Será que a classe industrial que hoje se apresenta em favor das reformas de Paulo Guedes não foi levada a ser assim por esta uniformização bem arquitetada pelo controle das multinacionais em solo brasileiro, somada à campanha ideológica contra as capacidades locais (à qual Haddad declarou apoio em seu artigo)?

Porque é disto que se trata. Há dentro da classe industrial brasileira uma espécie de “classe média de empresas produtivas” que há décadas perde terreno para multinacionais em solo brasileiro, justamente pelas liberalizações sucessivas que foram promovidas exatamente por aqueles que aceitam ideias como as de Fernando Henrique Cardoso. Quem são estes algozes da indústria? O próprio FH em seus oito anos de governo, o PT em seus treze anos de governo, a quadrilha Temer em seu malfadado ano de governo, e agora Paulo Guedes.

A visão de Haddad sobre indústria é míope e insuficiente fhc

Todos estão há décadas aplicando um programa de desindustrialização das verdadeiras capacidades nacionais de produção, mas afirmam na TV e nas universidades que o problema na verdade é o “custo Brasil”, o imposto, a CLT etc etc. Que remédio propõem? Mais abertura e mais liberalização. Ou seja, sabotam a capacidade produtiva nacional, culpam fatores estruturais internos que estavam aí mesmo quando a indústria crescia, e para remediar este falso diagnóstico aplicam políticas que sabotam ainda mais a estrutura produtiva.

Este é o cenário de tristeza da desindustrialização brasileira. Haddad é míope na sua análise, covarde ao se posicionar do lado dos algozes e insuficiente para o tamanho do problema que se criou.

Para finalizar: a reindustrialização do Brasil depende sim de um acordo pragmático com as classes industriais, mas ele deve ser feito sob a compreensão real de seu estado atual. Ela não é homogênea, portanto, há que se tratar o acordo com a parte dela que ganharia com a reindustrialização. É claro, esta fração da classe industrial não está na cúpula de entidades como CNI e Fiesp, pois estas são controladas pelas multinacionais que apenas desejam o aprofundamento da desindustrialização do Brasil, pelas razões políticas e históricas expostas acima.

5 Comentários

  • Seu artigo chicoteia Haddad e FHC por terem a mesma linha econômica. Sem dúvidas, Haddad representa a ala tucano dentro do PT. No entanto, ao apontar uma saída, você nega toda a conjuntura econômica e a debilidade da burguesia nativa em ser a classe dirigente, capaz de alavancar a indústria brasileira. O que ocorre, de fato, é que a burguesia nativa, dado o nível de desenvolvimento das forças produtivas e o poder político nacional perante a burguesia imperialista, é incapaz de apontar uma saída. Que o Haddad é um tucano disfarçado, todos sabem. Agora, em todo caso, o PT não pode ser colocado no mesmo balaio que o PSDB. A política do PT, mesmo com todas suas contradições, tem, em seu conjunto, um viés nacionalista. A única alternativa para a indústria brasileira, é uma revolução que estatize os setores estratégicos da cadeia produtiva nacional, e coloque sob o controle da classe trabalhadora, todas as indústrias de médio e grande porte.
    Não há uma saída através da burguesia, apenas através de uma revolução socialista.

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  • […] Haddad chegou a um óbvia conclusão, que parece tirada de manuais de grupos trotskistas da década de 1980: a burguesia brasileira não tem projeto de nação. Ocorre que em nenhum país desenvolvido, a burguesia individualmente tinha projeto de nação. Nos Estados Unidos, foi necessário Hamilton implantar na marra uma política industrial; o mesmo com a Revolução Meiji no Japão e com a Coreia do Sul no século XX. No Brasil, Getúlio Vargas criou uma burguesia industrial que não existia, o que também foi feito pela China após as reformas de Deng Xiaping. Portanto, a burguesia só adere a um projeto nacional quando ela percebe que é um bom negócio e não o contrário. […]

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