De FHC a Bolsonaro: a questão da dependência permanece

Fernando Henrique Cardoso dizia fazer ciência rigorosa com sua análise histórico-estrutural do Brasil. Não manifestava meros desejos, mas descrevia e explicava as condições reais das articulações de classe e do desenvolvimento brasileiro.

Em seu rigor, afirmou que a burguesia brasileira realizou opções possíveis diante da estrutura que determinava o país nos anos 1950. Dado que um capitalismo nacional seria impossível — o capitalismo é, por natureza, internacional –, restava escolher entre a acumulação capitalista e a inserção das massas. Escolher a primeira alternativa significa construir o país em torno de uma dependência, de uma heteronomia em relação ao centro do sistema mundo capitalista.

A ”internacionalização do mercado interno” — que no fundo era a entrega dos setores chaves da economia para as multinacionais — e a participação no Ocidente na posição e função de um sócio menor implicava em manter uma extrema desigualdade social e a marginalização de setores imensos da população. Mas esse foi o pacto que a burguesia industrial realizou: o abandono do projeto nacional-populista e anti-imperialista.

A grande chave da leitura de Fernando Henrique, no entanto, é a crença de que heteronomia e dependência não era incompatível com o desenvolvimento. Não é porque abandonaríamos a busca por uma verdadeira soberania nacional que continuaríamos subdesenvolvidos.

Toda a teoria da dependência é, em certa parte, um esforço pra defender esse ponto: a periferia poderia ser industrializada. As relações dela com o centro eram variadas, múltiplas, cada país desempenhando uma função específica no sistema mundo maior. As análises populistas e nacionalistas eram simplistas quando diziam que o imperialismo nos manteria em um estágio de sub-industrialização. Apesar de todos os problemas da dependência associada, ela seria uma das vias possíveis para o desenvolvimento. Mais ainda, era a única via capitalista, a única que contemplava as escolhas feitas na década de 1950 e que agora nos determinavam.

De cientista, Fernando Henrique Cardoso se tornou em executor desse projeto. Não sei como ele explicava isso pros seus colegas marxistas: ”veja, não é que eu queira manter a exclusão do povo brasileiro, mas é que isso é necessário pro caminho de desenvolvimento que escolhemos lá atrás, então estamos aí pra ajudar no que for preciso!” Mas o meu ponto é que ele estava equivocado.

A financeirização da economia brasileira ao longo dos anos 1990 e o processo violento de desindustrialização que a vitima revelam os limites para a leitura de mundo de Fernando Henrique Cardoso. Talvez ele rebata dizendo que a elite política está sendo inepta pra conquistar o desenvolvimento nas condições de dependência, e que no fundo sua análise continua correta. Só que a produtividade brasileira já estava estagnada durante seu governo, durante a execução do projeto do ”príncipe dos sociólogos”. O Brasil não cresce desde que abandonou o nacional-estatismo e a busca por autonomia nacional, desde que a burguesia industrial se aliou contra o regime militar, não porque fosse democrática e desse bola para os direitos humanos, mas porque não desejava mais aquele intervencionismo todo do Estado na economia — uma análise realizada pelo próprio FHC.

O que os últimos trinta anos demonstraram é que não é possível equacionar a industrialização ”da periferia” e a dependência. A burguesia paulista continua achando que dá pra fazer, porque esse é o instinto dela, independente da articulação consciente que ela consiga ou não realizar das ideias de classe que lhe são subjacentes: a militância da Fiesp nos últimos anos revela sua adesão à leitura de que sua sobrevivência torna necessária a marginalização radical dos trabalhadores brasileiros. A nova fase da acumulação exigiria o fim da CLT, um mercado de trabalho informal, e um Estado Mínimo. Só assim a indústria sobreviveria aos novos tempos de expansão chinesa, sacrificando o próprio povo no altar do ultra-liberalismo.

Além de repulsiva, é uma interpretação equivocada da realidade. O que pode reverter a desindustrialização é um projeto industrial calcado em amplo investimento público e fortalecimento do mercado interno. Os discursos — e também os fracassos — do Reino dos Bozós reforçam esse panorama.

A questão é: seria possível mesmo fazer isso no interior do sistema capitalista? Seria possível a construção de um capitalismo nacional? A construção de um país soberano, autônomo etc. leva a uma ruptura com o sistema de acumulação atual? Desde que se entenda que as previsões da teoria da dependência não se realizaram, e que o imperialismo atua no sentido de nossa desindustrialização, essa é a verdadeira questão que resta. É o real problema. O problema que a burguesia industrial gostaria de varrer para debaixo do tapete.

Por André Luiz Dos Reis

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