A visão distorcida de Haddad sobre a indústria nacional

Haddad publicou na Folha de São Paulo um artigo intitulado “Indústria”, no dia 4/1/2020, no qual deixa claro duas coisas: que ele não entende o papel do setor industrial na dinâmica da economia nacional e o que ele propõe ao Brasil não passa de um neoliberalismo perfumado de políticas sociais.

Em termos teóricos, Haddad baseia-se em ninguém menos Fernando Henrique Cardoso para fundamentar seu artigo. Sim, no mesmo sociólogo que pediu pra esquecer tudo o que escreveu e que na presidência trouxe sua teoria da dependência para a prática, desnacionalizando os setores estratégicos da economia via privatizações. Haddad tenta fazer uma mea culpa da desindustrialização ocorrida nos governos petistas, dizendo ser um fenômeno mundial e ainda tem a audácia de jogar parte da responsabilidade na crise da 2009 por seus efeitos. Ora, Haddad, as respostas anticíclicas dadas pelo governo Lula foram benéficas para a indústria, não o contrário. O problema é que elas tiveram vida curta, pois Dilma na presidência cortou investimentos com um drástico ajuste fiscal.

Haddad chegou a um óbvia conclusão, que parece tirada de manuais de grupos trotskistas da década de 1980: a burguesia brasileira não tem projeto de nação. Ocorre que em nenhum país desenvolvido, a burguesia individualmente tinha projeto de nação. Nos Estados Unidos, foi necessário Hamilton implantar na marra uma política industrial; o mesmo com a Revolução Meiji no Japão e com a Coreia do Sul no século XX. No Brasil, Getúlio Vargas criou uma burguesia industrial que não existia, o que também foi feito pela China após as reformas de Deng Xiaping. Portanto, a burguesia só adere a um projeto nacional quando ela percebe que é um bom negócio e não o contrário.

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Durante as eleições, Haddad defendeu abertamente que sua proposta para a economia seria crescimento econômico via consumo das famílias. Um modelo que FHC experimentou com o populismo cambial, que tornou importados baratos mas quebrou a indústria nacional e com Lula, que estimulou a tomada de crédito fácil, o que gerou uma massa de pessoas superendividadas sob as taxas de juros mais altas do mundo. Ou seja, tanto com FHC quanto com Lula, o crescimento via consumo não passou de uma bolha que depois de estourada veio a pesada conta.

Um país de dimensões continentais como o Brasil, com duzentos milhões de habitantes, abundância de recursos naturais e uma vocação de potência não pode se dar ao luxo de abrir mão de uma política industrial como fizeram os governos do PMDB, PSDB e PT na Nova República. Podemos criticar Geisel pelo autoritarismo da ditadura, mas ele deixou ao Brasil um parque industrial atualizado que foi implodido exatamente pelos democratas que o sucederam.

Hoje, os desafios impostos pela 4a Revolução Industrial deveriam ser o centro do debate econômico no Brasil. Mas com Bolsonaro e Paulo Guedes desnacionalizando a economia, o cenário é adverso. Ainda mais com parte da oposição aderindo a preceitos neoliberais.

Portanto, Haddad, temos uma leitura completamente diferente da economia brasileira. Se vivêssemos em tempos democráticos, diria que estávamos em campos distintos. Mas hoje temos um inimigo em comum a vencer: o fascismo.

Por Thomas de Toledo

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