GILBERTO MARINGONI: Ford, desindustrialização e Estado

Um dos grandes argumentos utilizados para se explicar a desindustrialização brasileira é a defasagem cambial. O real sobrevalorizado por mais de duas décadas aumentou custos internos em relação aos países onde a moeda nacional vale menos em relação ao dólar. A justificativa procede, mas não é a única. Até porque o câmbio encontra-se hoje em um dos patamares mais baixos em quase três décadas.

Devem entrar na equação outros custos, em especial os financeiros, num país que ostenta um dos sistemas bancários mais vorazes do planeta. A esses se somam os de mão de obra (que após a elevação planejada do desemprego em 2015-16 desabaram), os de energia e saneamento, o tamanho do mercado interno, os incentivos à exportação entre outros, bem como o chamado ambiente favorável aos negócios (segurança jurídica, estabilidade política, previsibilidade econômica etc.).

A privatização das empresas de energia, nos anos 1990, tornou os preços – até então quase sem concorrentes – extremamente altos em termos internacionais. Tão altos que nem mesmo o real barato consegue compensá-los, na visão dos investidores. A pandemia apenas completa um quadro desastroso.

A desindustrialização avança fortemente por aqui desde o governo Collor. O pico da participação da indústria de transformação na composição do PIB foi atingido em 1985 (27%), com indicador de país desenvolvido. Foi um tento inédito na periferia do mundo. Até então, nenhum país capitalista fora do centro internalizara os três departamentos da indústria (bens leves, duráveis e de capital) como o Brasil. Isso deve ser sempre repetido para os que nos julgam como marcados por um fracasso atávico.

A partir daí, atingidos pela crise da dívida e pelo advento do neoliberalismo, nos anos 1990, nossa decadência não foi interrompida. A sobrevalorização cambial e a perda da corrida tecnológica (que nos deixou fora da revolução produtiva) nos abateram em pleno voo. Houve algum soluço no segundo governo Lula, entre 2004-07, com políticas de conteúdo nacional, compras governamentais e forte ativismo estatal, em especial via BNDES. Após a crise de 2008, rolamos ladeira abaixo. Olhando em perspectiva, foram trinta anos sem um projeto de desenvolvimento nacional consistente. A saída da Ford deve ser vista nesse contexto.

O Brasil vai ser desmontado? Não, não vai, se conseguirmos reunir força política para construir um projeto desenvolvimentista que recoloque o Estado no posto de comando, com políticas de planejamento, financiamento e indução claros. O enfrentamento maior será com o rentismo e com os saudosos da ditadura.

É possível? Sim. A Rússia dos anos 1990 e a Argentina dos primeiros anos deste século eram Estados em vias de desmanche, com crises sociais gravíssimas. Governos com projetos definidos reergueram as economias a duras penas.

O enfrentamento para virar o jogo esse se dará no terreno da política e não da economia. E não poderá haver conciliação com o atraso.

Por: Gilberto Maringoni.

Um dos grandes argumentos utilizados para se explicar a desindustrialização brasileira é a defasagem cambial. O real sobrevalorizado por mais de duas décadas aumentou custos internos em relação aos países onde a moeda nacional vale menos em relação ao dólar. A justificativa procede, mas não é a única. Até porque o câmbio encontra-se hoje em um dos patamares mais baixos em quase três décadas.

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