Galbraith, Hoover e a inação diante da hecatombe

A crise atual não encontra paralelo na história. Temos uma desaceleração na economia mundial, que precede a crise sanitária e é agora por ela potencializada. Vivemos uma combinação da Gripe Espanhola (1918) com a Grande Depressão (1929).

A crise de 91 anos atrás teve dois caminhos de solução, o momento Hoover e o momento Roosevelt

Governantes em países capitalistas se dividem fundamentalmente entre Hoovers e Roosevelts. A referência é a Herbert Hoover, que governou os Estados Unidos de 1929 a 1933.

No auge da depressão, após a quebra da bolsa, o republicano tomou duas medidas de forma destrambelhada. A primeira foi não fazer nada para ver o que acontecia. A segunda foi iniciar uma política de cortes e redução orçamentária. O desastre foi espetacular.

Franklin Roosevelt, democrata, fez o oposto ao assumir o poder, em 1933, diante persistência da queda no abismo. Emitiu dinheiro e expandiu o gasto (investimento) público. A crise só foi debelada quando a gastança atingiu seu auge, em 1940, num acelerado esforço de guerra. O presidente dos EUA sabia para que servia o poder de Estado

Tivemos aqui, entre 2011 E 2018, dois Hoovers na economia. O segundo era também golpista. Agora temos uma besta fera fascista e genocida, que aprofunda o hooverismo ao extremo.

Vale a pena examinar brevemente o momento Hoover original, pela pena de John Kenneth Galbraith (1908-2006), em seu livro “1929, a grande crise” (Larousse, 2010, pp. 1790180). Galbraith era um aristocrata rooseveltiano dotado de humor sulfúrico e dedicado leitor de Marx.

Neste trecho suculento, ele comenta as primeiras iniciativas oficiais após o crack:

GALBRAITH COM A PALAVRA

Contudo, admitir que o Presidente Hoover estava empenhado apenas em organizar a subseqüente tranqüilização é fazer-lhe uma grave injustiça. Ele estava também promovendo uma das mais antigas, mais importantes — e, infelizmente, uma das menos compreendidas — cerimônias da vida americana. É a cerimônia da reunião que é convocada não para tratar de negócios, mas para não tratar de negócios. É uma cerimônia ainda muito praticada em nosso tempo. Vale a pena examiná-la em traços rápidos.

Os homens se reúnem por várias razões no decorrer dos negócios. Precisam instruir ou persuadir uns aos outros. Devem concordar sobre uma atitude a tomar. Acham que pensar em público é mais produtivo ou menos doloroso do que pensar em particular.

Mas existem pelo menos tantas razões para reuniões para não tratar de negócios. As reuniões são realizadas porque os homens procuram companhia ou, no mínimo, desejam fugir ao tédio dos deveres solitários. Anseiam pelo prestígio que adquire o homem que preside a reuniões, e isso os leva a convocar assembléias às quais eles possam presidir. Finalmente, há a reunião que é convocada não porque há negócios a tratar, mas porque é necessário criar a impressão de que se está tratando de negócios. Tais reuniões são mais do que sucedâneos da ação. São amplamente consideradas como ação.

(…)

O fato de não se tratar de negócios numa reunião dessa natureza normalmente não constitui motivo sério de embaraço para aqueles que a ela comparecem. Inúmeras fórmulas foram inventadas para evitar o mal-estar. Assim, os homens cultos, que são fervorosos adeptos das reuniões para não tratar de negócios, confiam de maneira acentuada na justificativa de troca de idéias.

Para eles a troca de idéias é um bem absoluto. Qualquer reunião em que se trocam idéias é, portanto, útil. Essa justificativa é um tanto exagerada. É muito difícil realizar-se uma reunião da qual se possa dizer que não houve troca de idéias.

(…)

As reuniões para não tratar de negócios promovidas pelos dirigentes das grandes empresas dependem da ilusão deles com respeito à importância de alguma coisa bem diferente. Não é a troca de idéias ou a recompensa espiritual da camaradagem, mas a sensação solene do poder ali reunido que dá significação a essa reunião. Mesmo que nada de importante seja dito ou feito, homens importantes não podem reunir-se sem que a ocasião pareça importante. Até a observação corriqueira do maioral de uma grande empresa ainda é a declaração do maioral de uma grande empresa. O que lhe falta em conteúdo, lhe sobra no poder proveniente da autoridade econômica e financeira de quem a emitiu.

A reunião para não tratar de negócios foi um instrumento quase perfeito para a situação em que se encontrava o Presidente Hoover no outono de 1929. Pondo-se de lado a inexpressiva redução nos impostos, o Presidente evidentemente se opunha a qualquer medida governamental de grande escala para enfrentar a nascente depressão. Nem se estava muito certo, na época, sobre o que se podia fazer. Contudo, em 1929, a crença popular na livre iniciativa estava grandemente abalada. Nenhum líder político responsável podia, com convicção, proclamar-se indiferente aos fatos econômicos.

(…)

As reuniões para não tratar de negócios realizadas na Casa Branca foram uma demonstração prática da livre iniciativa. Não apresentaram nenhuma ação positiva. Ao mesmo tempo davam a impressão de uma ação realmente extraordinária. As convenções que regem essas reuniões para não tratar de negócios asseguravam que não haveria qualquer embaraço proveniente da ausência de negócios a tratar. Aqueles que compareciam a elas aceitavam como critério da importância das reuniões a importância do pessoal que a elas comparecia. Os jornais também cooperavam, destacando a importância das sessões.

Tivessem agido de outra forma e, evidentemente, minariam o valor das sessões como notícia.

Por Gilberto Maringoni

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