Investimentos e gastos públicos no governo Dilma e a agenda da FIESP (ou de Reagan)

Um dos mitos consolidados na cabeça de liberais brasileiros é de que a maior parte dos problemas econômicos nos governos do PT (Lula e Dilma) se deveu ao tamanho excessivo do Estado e ao crescimento exponencial dos gastos públicos.

Só que não é isso que os dados revelam. No primeiro governo Dilma, as despesas primárias tiveram crescimento anual menor não apenas em uma comparação com os anos Lula mas também com os de Fernando Henrique Cardoso. Enquanto os tucanos elevaram em 6% ao ano os gastos com funcionalismo, por exemplo, a expansão com Dilma foi só de 1%.

O cenário se repete quando damos atenção aos investimentos públicos. Em 2014, eles eram 1,5% menores do que em 2010 quando medidos em valores reais. Dilma levou a uma inflexão no crescimento de investimentos do governo federal, cujo volume acumulado mais do que triplicou entre 2005 e 2010. Em vez de investimento direto, Dilma preferia projetos de concessões na área de transportes e infraestrutura em geral. Ela acreditava, candidamente, que essa estratégia alavancaria o investimento privado.

A deterioração fiscal do período foi causada, antes de tudo, pelas descabidas desonerações e crédito subsidiado que a presidente resolveu conferir aos empresários, primeiro atendendo a reivindicações da FIESP, que pedia ajuda diante da desindustrialização, e depois abrindo a ”caixinha de bondades” pra atender a todo e qualquer setor com influência o suficiente pra pressionar o Palácio do Planalto.

O custo anual dessa malfadada política superou os 450 bilhões de reais ano passado, porque, evidentemente, ela nunca mais foi abandonada. Cinco anos de medidas recessivas não chegaram nem perto de atenuar o déficit primário diante de uma economia que não consegue reagir e um governo que não tem como recuperar o nível de arrecadação em meio a uma depressão que parece não ter fim.

A solução defendida pelo ”mercado” e pela FIESP, claro, joga a conta, ou o pato, para o colo dos mais pobres. É o que explica a narrativa ideologizada do ”Estado gigante” que deveria, nas palavras do vice-presidente Mourão, ”ser abatido”. Leia-se: destruam a Previdência Pública, o SUS, as Universidades, o BNDES, a legislação trabalhista, entreguem as empresas estratégicas, vendam até o Palácio do Planalto [como Paulo Guedes prometeu aos membros da quadrilha em reunião fora do Brasil], mas não parem a máquina rentista, as desonerações na folha salarial e outros mecanismos com que a elite do dinheiro rouba descaradamente a nação.

O problema do governo Dilma esteve longe de ser o tamanho do Estado e os gastos irresponsáveis. Pelo contrário, o buraco em que a petista se afundou foi cavado com renúncias de todos os tipos, que se assemelham mais a uma agenda Reagan do que a qualquer coisa parecida com desenvolvimentismo.

Por André Luiz Dos Reis

Deixe uma resposta