Brasil: entre a China de Marco Polo e o Marco Polo da China

A CHINA DE MARCO POLO

No Mosteiro de São Miguel, nas ilhas Murano, próximas de Veneza, Itália, fica à mostra o mapa-múndi do cartógrafo veneziano Fra Mauro, confeccionado no ano de 1459. De acordo com estudos que surgiram no século seguinte, a peça (uma das primeiras a localizar o Japão) é um “aperfeiçoamento” de outro mapa trazido por Marco Polo do norte da China em fins do século XIII.

Jovem de 17 anos, Marco Polo partiu de Veneza no ano de 1271 em direção à Ásia oriental, acompanhando seu pai, Niccolò Polo, e tio, Matteo Polo, viajantes mercadores encarregados de relações diplomáticas entre Kublai Khan, o grande imperador mongol reinante sobre a China, e o Papa Gregório X.

Anos mais cedo, conforme os relatos posteriores de Marco sobre as suas aventuras onde poucos europeus haviam estado, o grande Kublai Khan ficara maravilhado com a notícia de que alguns latinos, de sobrenome Polo, viajavam em seus domínios mongóis. Nunca havia conhecido ou visto um latino antes. Se eternizaria na história, contudo, em razão de um.

Kublai Khan, neto de Genghis Khan, dominou vastos territórios asiáticos, incluindo a China oriental, grande parte da China ocidental, desde o Oceano Pacífico e até a Sibéria, principalmente após derrubar a Dinastia Song, soberana sobre o território chinês. Sua marca é tamanha que foi o fundador de Khanbaliq (do mongol “khan” [imperador] + “baliq” [cidade]), a atual Pequim. Marco Polo não apenas testemunhou o avanço do Império Mongol como também tornou-se homem de confiança do Grande Khan, desbravando regiões e detalhando cada aspecto para Kublai, mediando relações com os mais diversos povos e vivendo no império por quase 20 anos, antes de retornar a Veneza.

A China deve sua geografia atual ao esforço diplomático e militar do Império Mongol do século XIII, o que não deixa de ser uma ironia, já que estes eram os grandes inimigos “bárbaros” dos chineses. Como de costume, a monumental cultura chinesa costuma absorver até mesmo seus dominadores, e hoje os mongóis são tratados como fundadores, veja, de uma dinastia chinesa, a Dinastia Yuan.

A Dinastia Yuan disseminou o uso do papel-moeda através do vasto território sob seu domínio e a Rota da Seda, ligando a Europa ao Oriente, ficou marcada para sempre no imaginário ocidental.

O MARCO POLO DA CHINA

Passado muito tempo a China viveu momentos humilhantes diante das potências imperialistas do século XIX e XX. A Mongólia adquiriu independência e a China foi submetida à violência e aos interesses ocidentais ao longo de décadas. Hoje, no entanto, estamos diante do mais poderoso líder chinês desde Mao Tsé-Tung.

Por meio do imenso programa de financiamento de infraestrutura One Belt, One Road, o atual presidente chinês Xi Jinping lançou recentemente o que chamou de “projeto do século”: a Rota da Seda do século XXI, com todo o seu simbolismo justamente num momento de grandes impasses econômicos mundo afora, é praticamente um novo Plano Marshall.

Não é apenas de economia, contudo, que se trata a iniciativa chinesa. O que está em jogo são visões geopolíticas distintas sobre o equilíbrio de poder na Ásia, em primeiro lugar, e no resto do mundo (incluindo o Brasil).

Há um século, o inglês Halford Mackinder sugeriu que quem controlasse territorialmente a Eurásia, em função de sua extensão e seus recursos, controlaria a ordem internacional. Sua tese sustentava um projeto político de contenção contra a potência industrial alemã e a potência territorial russa, vistas como possíveis formadoras de um bloco de domínio eurasiático.

Os Estados Unidos adotaram uma estratégia distinta, elaborada a partir de Alfred Mahan e George F. Kennan, a qual considerava  mais importantes o poder marítimo e o cercamento da Eurásia através de políticas de alianças e ocupações militares. Essa foi a chave do enfrentamento com a URSS.

Cem anos mais tarde, com o One Belt, One Road, a China ressuscita o debate, contrapondo seu projeto geopolítico baseado em Marco Polo e Mackinder à estratégia norte-americana de Alfred Mahan e George F. Kennan. Logicamente sem ignorar o poder marítimo, a China aposta numa rede comercial terrestre que dê ainda mais poder aos seus centros produtivos sobre a Eurásia.

Essa estratégia “Marco Polo” demonstra o aumento do poder produtivo chinês, que acompanha a expansão do seu poderio financeiro, e exige conexões concretas para a realização do valor de seus produtos.

MARCO POLO NO BRASIL

Mas os produtos chineses não estão destinados somente à Eurásia, e a América Latina certamente tende a ser engolida pelo dragão. Estão previstos, oficialmente, investimentos de U$ 250 bilhões na região ao longo da próxima década. Apesar das cifras, a relação esperada é complexa, com tem sido a presença da China na América Latina em geral.

Desde 2014, bancos chineses como o CHEXIM e o Banco de Desenvolvimento da China já emprestam mais aos governos da América Latina do que o Banco Mundial e o Banco Interamericano juntos.

Parte significativa desses empréstimos são “loans-for-oil”, ou seja, os governos da região se comprometem a pagar parte do valor emprestado através do fornecimento de barris de petróleo para o governo chinês.

Isso é um elemento fundamental da “Diplomacia do Yuan”, que permite à China estabelecer cadeias garantidas de suprimento de petróleo no longo prazo. Com isso a China escapa dos riscos de emprestar a governos com históricos de calotes, alta vulnerabilidade a crises no mercado internacional e grande dependência de recursos externos.

A presença chinesa na América Latina é estratégicajá se colocando como maior parceiro comercial do Brasil e de outros países, e ajuda a promover suas exportações, o uso do Yuan em trocas internacionais, e uma melhor utilidade para suas reservas em dólares, já que a taxa de juros dos EUA é muito baixa.

O Investimento Estrangeiro Direto (IED) chinês na América Latina segue o padrão do comércio: energia, mineração, alimentos etc. Diferente de EUA, Japão e Europa, que tem mais da metade de seus IEDs na região colocados em serviços e indústrias.

De todo modo, em 2016 o Brasil recebeu mais IEDs em % do PIB do que a China ou a Índia, o que no entanto não parece ter feito muita diferença em termos de crescimento (retração de 3,6% do PIB em 2016). Isso porque geralmente eles apresentam caráter volátil e de curto-prazo, e não resultam em transferência de tecnologia para o país.

A China considera o Brasil um componente estratégico da sua política externa, inclusive aproveitando-se do vácuo deixado pelos EUA nos últimos tempos, e tem muitos projetos para nós que podem ser boas oportunidades. A passividade do Brasil, por outro lado, tem apenas reforçado nossa posição de exportadores de produtos de baixo valor agregadoe o financiamento de infraestrutura (que os chineses prometem elevar sua participação) parece estar se dando às margens das necessidades de integração nacional (voltando-se em regra ao comércio exterior).

A China continuará a vir com força, tendo aumentado em mais de 60% o orçamento diplomático nos últimos cinco anos. Enquanto isso, os EUA pretendem realizar um corte de 30% no orçamento do serviço exterior*.

Marco Polo foi um grande coletador de informações, que no fim da vida repetiu a longa trajetória de volta da China para Veneza. Ele se empenhou para registrar seus relatos, que tempos depois, em fins do século XV, influenciariam os grandes navegadores italianos, espanhóis e portugueses a contornarem o Mediterrâneo assolado pelas armadas turcas.

Desse esforço resultou o deslocamento da dinâmica econômica europeia do Mediterrâneo para o Atlântico, e mais tarde a superação das forças orientais pelas ocidentais. Certamente, Marco não imaginara tão longe no tempo quando, num misto de espanto e respeito, se ajoelhou diante do Khan. Apesar disso, o jovem veneziano dispunha de uma aguda  visão de futuro e soube como agir diante do poder real.

Hoje, o mundo está mudando e o Brasil não parece ter um projeto nacional para si ou um plano estratégico para o seu envolvimento com a China. Diferente de Marco Polo, estamos nos ajoelhando com os olhos fixos no chão.

 * https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/02/internacional/1519993755_786257.html

 

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