Anos antes do Golpe e a Panela de Pressão que caiu no colo de João Goulart

Os anos anteriores ao governo de João Goulart, foram marcados pelo aumento do gasto provocado para o desenvolvimento de uma economia que precisava se fortalecer. O Plano de Metas do Governo Juscelino Kubitschek ampliou as condições de desenvolvimento, com programas que buscavam sanar as defasagens e impediam que a economia brasileira pudesse vir a sair do “estrangulamento econômico” que se encontrava, como: as metas enérgicas (carvão, produção e refino de petróleo e ampliação do parque elétrico), aumento das indústrias de produção de bens pesados e no âmbito da construção civil e rodoviário. Contudo, claramente o plano deixa de lado preocupações referentes à educação e a agricultura familiar.

Porém, havia um objetivo a ser realizado, quase pessoal de JK, que estava no interior de seu projeto. A construção de Brasília levaria para o centro do país a modernização, a política e arrastaria consigo as vestigens de um crescimento com baixo nível de financiamento. Diferente de Getúlio Vargas, que, averso ao capital e o crédito estrangeiro, buscou internamente as condições de financiamento, na medida do possível para o desenvolvimento de seus projetos, Juscelino Kubitschek, pega junto ao FMI e ao EXIMBANK quantias que ampliaram as dívidas externas. Brasília é o epicentro do problema inflacionário brasileiro, que se arrastaria por décadas a frente e deixaria para Jango e João Goulart terem que cuidar dessa situação. Um “monstro”, que sai de uma taxa média dos governos JK de 24,7% ao ano, para atingir, nos governos de 1961-1963 a taxa média de 59,1% (VILELA, 2011, p. 28).

Outros fatores se juntariam ao caos pós Juscelino Kubitschek. Em situação de correção dos erros dos anos anteriores, Jânio Quadros, dá início à políticas de controle fiscal. Sem apoio, renuncia a presidência na esperança de conseguir retornar ao cargo nos braços do povo e assim, conseguir aprovar as reformas e as medidas necessárias. Mas a história mostra-se cruel com Jango. Uma economia precisando de reparos, mergulhada no caos político de ter agora um ex-presidente, que após sete meses havia renunciado e seu vice presidente, com o qual havia estado presente na China de Mao Tse-Tung, semanas antes, iria agora assumir a panela de pressão.

João Goulart vive o ápice da ambiguidade política na América Latina, a Guerra Fria fazendo com que países tomassem lado, com o plano Condor batendo as portas, a revolução cubana inflamando o plano político mundial, além da situação interna de cobrança de políticas públicas prometidas por Jango à esquerda e de mais conservadores no país, a Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, exemplifica o caos social que o presidente teria que assumir. O mesmo assume um plano ortodoxo, a contenção do gasto público, a estabilidade das contas públicas que as vésperas de março, atingiriam um déficit de US$ 3 bilhões, forte desvalorização cambial, corte de subsídios, política de controle monetário e contenção do salário mínimo. Quanto ao financiamento creditício brasileiro, tem-se aqui uma das defasagens primordiais, que impediram com que o desenvolvimento pudesse tornar-se sólido ao longo dos anos. A ausência de um mercado de capitais robusto e de um sistema monetário mundial pouco interessado no desenvolvimento latino-americano, que enxergava na Europa e Japão pós segunda guerra mundial, uma maneira melhor de investir, tornou o “crédito na praça” escasso, ocasionando praticamente uma única via de financiamento estatal via Banco do Brasil-BNDE.

Entretanto, frente as complicações político-econômicas internas e externas pós JK e Jânio, João Goulart encerra 1961 com um PIB de 8,6%, claramente puxados pelo crescimento dos anos anteriores, porém com sinais claros de retração das contas públicas a frente. Com Celso Furtado no superministério do planejamento e o discurso de conciliação de uma política ortodoxa com desenvolvimento, 1961 já apresentava retração no nível de investimento, um pequeno aumento no setor de exportações e uma dívida externa a tratar que girava em torno de US$ 3,4 bilhões, com desacelerações do PIB dali até 1964.

A crescente insatisfação dos setores produtivos (redução das linhas de crédito e insegurança econômica), de setores conservadores, da esquerda brasileira (que almejava as políticas de base prometidas por Jânio Quadros), o receio da alta cúpula militar com o alinhamento de Goulart (com ressalvas a parte dos setores inferiores do exército, que tinham apreço por ideais revolucionários) e os fatores econômicos citados acima, esquentaram a panela de pressão brasileira para promulgação do golpe que viria a ser dado no dia 31 de março de 1964, que não veio com o discurso de permanência, mas perpetuou-se pelos próximos 21 anos e que teria o seu respiro econômico somente no governo Castello Branco, mas intensivas crises sociais durante sua existência.

Por Emerson Davi Pereira Braz – Economista/PUC-SP/CREDITAS S.A

1 Comentário

  • Bom cenário retratado. Mas a culpa não recai exclusivamente em JK. O medo de uma nova revolução comunista após Cuba pairava na mente de muitas pessoas. A crise econômica e a falta de tato do governo para lidar com o ativismo político tanto da esquerda quanto da direita dava a impressão de que Jango não tinha mais controle sobre o país. A ingerência de Brizola nas decisões presidenciais também causavam uma grande insegurança. Era algo como Lula dando muito pitaco no governo da Dilma nos últimos anos de seus mandatos presidenciais. Sem apoio no Congresso, Jango foi buscando refúgio nos sindicatos que eram a sua base eleitoral, o que o levou à aproximação com os comunistas e o reforço do discurso de que havia uma revolução cubana em curso no Brasil. Jango enfatizou as reformas de base tal qual Bolsonaro hoje abraça a reforma da previdência. Discursos mais inflamados em um país dividido resultaram na Revolução Militar que era apenas um arremedo em tempos anteriores e agora com Jango era uma realidade iminente.

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