IGOR GRABOIS: O agrarismo de Stephen Kanitz

Nos idos de 1924, o jornalista e dirigente comunista Otávio Brandão publicou “Agrarismo e Industrialismo”, livro que representou o primeiro esforço de entendimento do Brasil pelo método marxista. O tema de Otávio Brandão era um desafio, que de certa forma, assombra o nosso país até os nossos dias: como seria realizada a transição entre uma economia agrária exportadora para a uma economia industrial. Essa questão foi discutida por pensadores de escolas tão díspares, de Ignácio Rangel a Delfim Netto, passando por Roberto Simonsen, Celso Furtado, Álvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré, Maria da Conceição Tavares, dentre outros.

A questão da industrialização, da formação de um setor de bens de capital e de produção tecnológica própria foi bem mais do que um debate de economistas. Pautou a disputa política de maneira central desde os anos 20. Foram criados instrumentos para induzir a industrialização, como BNDES e FINEP, estatais foram constituídas para explorar setores em que a acumulação interna era insuficiente e para evitar que caíssem em mãos estrangeiras.

O resultado do esforço de trabalho prático, político e teórico de gerações de brasileiros foi a construção do que foi o sexto parque industrial do mundo, colocou o Brasil entre os dez maiores produtores mundiais de máquinas, entre os cinco primeiros refinadores de petróleo e produtores de aço, entre o segundo e quarto produtor de navios, terceiro produtor de aviões e etc.

A construção do setor industrial produziu o país urbano, uma classe operária numerosa e capaz de intervir na vida nacional e a consciência da necessidade de aplicação de políticas de proteção social e do trabalho.

Como muito do que aconteceu no Brasil, a indústria aparece como uma obra incompleta. E nos últimos trinta anos, o país conviveu com governos anti-industrialistas, como FHC e Temer, ou que subestimaram o papel do setor industrial, ou não tiveram a vontade e a capacidade de implementar uma política industrial “ativa e altiva”, como Lula e Dilma.

No atual mandato do capitão tresloucado e de seu sinistro da economia, há uma política consciente, dirigida e pró-ativa de destruição da indústria nacional. E pior, contando com o apoio de representantes da indústria, como o inacreditável Paulo Skaf. O resultado é a perda de relevância econômica da indústria e a consequente perda de influência política.

Um autor conseguiu resumir o estado de coisas a que chegou o setor industrial. Stephen Kanitz teve reproduzido no site Defesanet (logo onde) o texto “Entenda a Crise Política. É o Poder Mudando de Mão”. Segundo Kanitz, o atual desgoverno estaria deslocando o setor industrial e, por decorrência, dos empresários industriais, sindicatos e servidores públicos que teriam explorado o país e prejudicado a agricultura com suas políticas protecionistas etc. Só faltou falar em “indústrias artificiais”. Com o deslocamento dos atores da indústria o poder teria retornado, com o Bolsonaro de Guedes, ao setor agrícola, de onde nunca o país deveria ter saído. Essa seria a razão da grande insatisfação com o capitão tresloucado.

Poucos vezes se publicou um texto tão regressista e reacionário quanto esse do ex-colunista de assuntos gerais da revista Veja. O autor ressuscita um debate anacrônico, mas que tem ressonância em setores da burguesia e das camadas médias urbanas, o da vocação agrícola do Brasil. E esse discurso parece encantar os generais bolsonaristas.

E Kanitz tem razão ao constatar que a destruição da indústria nacional e de sua influência política é objetivo central do desgoverno e de Paulo Guedes. Se engana ao achar que o agronegócio preencheu o vácuo deixado pela manufatura. O agronegócio é útil aos tipos como Paulo Guedes na medida em que a produção agrícola serve de plataforma para a especulação financeira, com os derivativos, hedges e outras fórmulas financeirizadas.

Os escombros do parque industrial servem de pasto para os piratas financeiros da avenida Faria Lima e do Leblon. O fortalecimento do agronegócio, e de um setor minerador coadjuvante, não está a serviço do desenvolvimento econômico ou da segurança alimentar. Como tudo na política “pauloguedista”, indústria, agricultura, comércio, em suma, o trabalho, deve estar submetido à lógica, e aos lucros, do financismo.

Por Igor Grabois

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